Pelo Mundo

O México já foi um líder climático - agora está apostando alto em carvão

Ao passo que a crise climática piora, Andrés Manuel López Obrador planeja comprar quase dois milhões de toneladas de carvão termal de pequenos produtores

18/02/2021 10:19

Um mineiro mexicano emerge de um poço em uma mina de carvão em Agujita, estado de Coahuila, em 13 de novembro de 2012 (Yuri Cortéz/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Um mineiro mexicano emerge de um poço em uma mina de carvão em Agujita, estado de Coahuila, em 13 de novembro de 2012 (Yuri Cortéz/AFP/Getty Images)

 
Os homens do turno da meia-noite fumavam cigarros e contavam piadas à luz dos seus capacetes enquanto se preparavam para ir ao subsolo. Estavam carregando equipamentos de segurança e canos para dentro de carrinhos de mão, se preparando para um segundo turno por terem começado a trabalhar mais tarde naquela semana.

“Estamos reativando a indústria”, disse Arturo Rivera Wong, que havia acabado de contratar mais 40 trabalhadores para sua mina no sertão do estado fronteiriço de Coahuila.

“Quatro fornalhas na grande planta termoelétrica serão reativadas”, ele explicou. “Isso vai alavancar as vendas de carvão.”

Enquanto a crise climática piora e os preços de energia limpa caem, os governos ao redor do mundo estão desmamando suas economias do carvão e de outros combustíveis fósseis.

O México está indo na direção oposta.

O presidente Andrés Manuel López Obrador, popularmente conhecido como Amlo, divulgou planos de comprar quase dois milhões de toneladas de carvão termal de pequenos produtores como Rivera. Ele também planeja reativar duas usinas de carvão na fronteira com o Texas, que estavam sendo liquidadas ao passo que o gás natural e os renováveis tiveram um papel mais proeminente no mix energético do México.

Amlo não está somente apostando alto em combustíveis fósseis, ele também está limitando a energia limpa.

O presidente populista promoveu uma visão de soberania energética, na qual órgãos estatais – a empresa petrolífera Pemex e a Comissão Federal de Eletricidade (CFE) – bombeiam petróleo e geram eletricidade. Players privados, que têm investido fortemente em energia limpa, estão relegados a um papel secundário na visão de Amlo – enquanto as emissões e o compromisso climático são um pensamento posterior.

“Ao invés de pensar em uma transição do carvão e dos combustíveis fósseis, ele está pensando em usar mais carvão e petróleo”, disse Adrián Fernández Bremauntz, diretor da Iniciativa Climática do México, uma organização ambiental.

“Nenhum outro país do G20 possui políticas energéticas tão anormais ou retrógradas como as desse governo”, ele adicionou. “Não vai nos conduzir para nossos objetivos climáticos.”

As políticas de Amlo contrastam com as da administração Biden, que declarou que a crise climática representa uma “ameaça existencial” e divulgou uma gama de políticas para desassociar a economia dos EUA dos combustíveis fósseis.

O atual plano de investimento da CFE renuncia completamente aos projetos de energia limpa. E uma lei de reestruturação da indústria de eletricidade que foi recentemente enviada ao Congresso forçaria a CFE a comprar energia das suas próprias instalações, incluindo usinas de carvão, antes das renováveis.

Amlo disse que seu governo vai remodelar as instalações hidroelétricas da CFE, que permitiria que o México alcançasse seus compromissos climáticos de gerar 35% da sua eletricidade por meio dos renováveis.

Mas para justificar a priorização dos combustíveis fósseis e o reestabelecimento da indústria estatal de eletricidade, o governo mexicano repetidamente coloca em cheque a confiabilidade dos renováveis – argumentando que a energia solar e eólica não são confiáveis e alegando que receberam preferência em relação aos projetos hidrelétricos da CFE.

E mesmo com furacões poderosos cada vez mais frequentes, secas e outros eventos climáticos extremos que atingiram a região, permaneceu em silêncio sobre a crise climática.

Depois que um apagão em dezembro deixou 10.3 milhões de clientes no escuro, a CFE culpou parcialmente a falha nos níveis recordes de energia renovável que estavam sobrecarregando a rede de energia.

No passado, o México era um líder climático. Foi o primeiro país em desenvolvimento a entregar seu plano de ação climática antes do acordo de Paris, mas tais ambições estão sendo agora ameaçadas devido a uma grande falta de interesse do governo.

“O acordo de Paris tem zero relevância com qualquer coisa que estão falando no setor elétrico agora”, disse Jeremy Martin, vice-presidente de energia e sustentabilidade no Instituto das Américas.

A perspectiva de Amlo sobre os combustíveis fósseis e empresas estatais vem de sua criação no estado de Tabasco que é rico em petróleo em uma época em que a Pemex era vista como o veículo para o desenvolvimento nacional. Empresas privadas e estrangeiras foram excluídas do setor energético desde uma expropriação que ocorreu em 1938.

Mas uma abertura da indústria em 2013 encorajou uma onda de novos investimentos – muitos em renováveis. O México também introduziu licitações de energia limpa, que “estabeleceram preços recordes baixíssimos

But an opening of the industry in 2013 encouraged a spate of new investment – much of it in renewables. Mexico also introduced clean energy auctions, which “set record prices for how low developers were bidding to put renewables into the mix”, Martin said.

Essas licitações pararam após a posse de Amlo em dezembro de 2018. Anaid Velasco, diretora de pesquisa no Centro Mexicano de Lei Ambiental, descreveu a nova política governamental como: “Vou colocar obstáculos no caminho do setor privado, que investiu mais em renováveis e vou colocar a maior parte dos meus esforços – e ao menos 80% do orçamento – nos combustíveis fósseis.”

Mesmo enquanto a pandemia do coronavírus causa miséria no México, Amlo continuou a financiar a Pemex e não parou a construção de uma enorme refinaria de petróleo de 8 bilhões de dólares.

“Vamos resgatar a Pemex e a CFE”, Amlo diz frequentemente, apelando ao nacionalismo e contestando seus antecessores por abrirem o setor energético ao setor privado e investidores estrangeiros.

George Baker, analista veterano da Pemex, comparou a retórica de Amlo sobre energia com a fixação de Donald Trump pela restauração da indústria de carvão estadunidense. “É um tipo de declaração otimista como o ‘Tornar a América Grande Novamente’”, ele disse.

Amlo também mostrou um entusiasmo marcante pelo carvão, que produz quase 9.5% da eletricidade do México. Em outubro, ele viajou para as regiões de mineração de carvão em Coahuila, para anunciar a reativação das usinas de carvão da CFE. Ele chamou a energia limpa de “sofismo” para priorizar outras empresas ao invés das estatais.

O compromisso do presidente com o carvão foi um alívio bem-vindo para mineradores como Rivera, cuja família trabalha nas minas há três gerações.

A mineração quase parou em 2019 quando a CFE parou de comprar em meio a planos de transicionar para uma fonte de energia limpa. Cerca de 10.000 mineradores perderam seus empregos.

Para sobreviver, Rivera fechou a mina, e vendeu 20 vacas e a casa que havia herdado da mãe. Alguns de seus funcionários foram forçados a contar moedas para alimentar suas famílias.

Sua empresa agora extrai 700 toneladas de carvão por semana da sua mina que perfura o terreno de cactos e alfarroba.

A região está cheia de minas de todos os tamanhos, desde poços artesanais, ou “buracos pequenos”, até operações de grande escala e fossas abertas. “Você cava 30 metros e encontra carvão”, disse Javier Gómez Acuña, diretor da Prodemi, agência do governo que promove a mineração. “Está em todo lugar.”

As condições são frequentemente prejudiciais: 19 de fevereiro marca o décimo quinto aniversário do desastre de Pasta de Conchos que matou 65 mineradores.

Enquanto as usinas de carvão abrem mais fornalhas, Rivera espera aumentar a produção para 1.900 toneladas por semana.

“O que o presidente quer? Reativar a economia porque 50% dessa região depende da mineração”, disse Rivera.

Rivera não negou a crise climática e disse que a seca arrasou a região por três semanas. “Definitivamente acreditamos na mudança climática e em formas alternativas de produção de energia. Mas precisamos avançar de pouco em pouco”, ele disse.

Os trabalhadores se preparando para reabrir usinas de carvão parecem mais preocupados com o trabalho do que com o clima.

“Eles dizem que não vão mais comprar carvão por causa das lâmpadas solares e coisas do tipo”, disse Luis Alberto García. “Mas eu espero que sempre possamos vender carvão porque fazemos mais dinheiro com isso.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado