Pelo Mundo

O agravamento da situação social na Argentina

 

20/10/2019 13:39

 

 
Faltando poucos dias para a eleição presidencial na Argentina (que acontece no domingo, 27 de outubro), as informações disponíveis sobre a situação econômica, oferecidas pelo INDEC, pelo Banco Central ou provenientes de organizações internacionais, o FMI ou o Banco Mundial, continuam sendo muito preocupantes para a maioria da sociedade. A inflação combinada com recessão gera impactos sociais alarmantes, sem expectativa de melhoria da situação para a maioria empobrecida, mesmo com o discurso eleitoral otimista de um futuro próximo que apoia o governo, na pessoa de Mauricio Macri.
 
No entanto, na direção oposta, a especulação gera negócios significativos para um setor muito pequeno, uma vez que o dólar oficial permanece em torno de 60 pesos, enquanto o ilegal (paralelo) atinge 67 pesos e as operações de compra de ações e liquidação no exterior são cotadas a quase 75 pesos por dólar. As transações de câmbio excluem a maioria da população e constituem apenas oportunidades de negócios para investidores concentrados. Lembre-se de que os bancos podem optar por investimentos em títulos oferecidos pelo Banco Central a taxas de 68%, com um diferencial de mais de 20 pontos em comparação com os investidores tradicionais do sistema financeiro.
 
Como sempre afirmamos, nem todo mundo perde com o funcionamento da economia, um argumento que costuma ser válido para qualquer país. A política econômica sempre gera grandes produtores e exportadores, beneficiados e desfavorecidos, grandes industriais transnacionalizados, setores especulativos associados à internacionalização das finanças. Portanto, não aderimos às qualificações de “erros” ou “práticas equivocadas” ao classificar as medidas governamentais.
 
O problema é que o macrismo foi incapaz de sustentar as expectativas que gerou em uma parte da sociedade, para poder alcançar um segundo mandato no qual esperavam consolidar sua proposta política “conservadora”, que recuperaria o lugar de dominação dando as mãos aos novos setores socioeconômicos decorrentes da influência da industrialização na região.
 
Pode-se dizer que a decepção ou ilusão se desfez, mas a tentativa de ajustar e reestruturar a ordem econômica local para fortalecer a inserção da Argentina encontrou como obstáculo uma ordem mundial que impôs enormes dificuldades para atender às necessidades do grupo social que impulsou esse projeto. Especialmente depois da chegada de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos, o que colocou em crise a lógica da globalização construída por quatro décadas de neoliberalismo no sistema mundial.
 
Aumento da inflação
 
O INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censo) anunciou o recorde de inflação de 5,9% em setembro passado, com um acumulado anual de 53,5%, enquanto o Banco Central prevê, segundo os consultores que oferecem seus estudos para o organismo, que nos próximos 12 meses haverá um crescimento dos preços em torno de 48%.
 
Os vencedores da corrida pela apropriação da renda socialmente gerada são os setores mais concentrados da economia, os quais, através dos preços, defendem suas posições privilegiadas e condenam a maioria da população da população à sobrevivência.
 
Os dados são confirmados pelo próprio INDEC, que acaba de publicar o “cálculo da geração de renda”, anteriormente denominado “distribuição funcional da renda”, que explica quanto da renda total é apropriada pelos trabalhadores, por um lado, e pelos proprietários dos meios de produção, por outro. Os trabalhadores receberam cerca de 42,5% do total no segundo trimestre de 2019. Um ano antes, eles receberam 46,4%. Logo, tiveram uma perda equivalente a 3,9%, que foi apropriada, no mesmo período, por empregadores de diversos tamanhos, o que nos permite intuir um ganho dos setores hegemônicos mais concentrados.
 
A inflação atinge as pessoas de formas diferentes, dependendo do nível de renda recebido, de modo que 35,4% dos pobres ou a maioria dos aposentados que recebem o mínimo, ou a maioria dos assalariados e beneficiários de planos sociais, sofrem com a remarcação regular dos preços e são incapazes de resolver adequadamente a vida cotidiana. A desagregação dos dados agrava as considerações sobre o impacto entre os setores de menor renda, uma vez que os alimentos crescem acima da inflação anual, como é o caso da saúde e de outros itens da cesta diária.
 
Um problema a destacar é que o governo congelou os preços das tarifas até as eleições serem realizadas, em 27 de outubro, o que sugere que a taxa de inflação suba no futuro, caso as tarifas retomem sua evolução associada ao aumento de preços e até à variação da taxa de câmbio. Lembremos de que a pressão das empresas privatizadas foi o que levou à dolarização das tarifas, o que provocou enormes protestos sociais.
 
Foi anunciado um congelamento de preços e a regulação de alguns outros, mas somente para fins eleitorais. Se a política original fosse mantida, acredita-se que a inflação seria ainda mais alta.
 
Macri pede ajuda ao FMI
 
No Fundo Monetário Internacional (FMI), há um sentimento profundo de decepção, e alguns membros do organismo reclamam do excessivo apoio financeiro dado à Argentina e ao governo de Mauricio Macri. A Argentina, por sua parte, também reclama que cumpriu com o que foi acordado: impulsar o ajuste fiscal. Nesse contexto, ele pressiona para pela entrega dos 5,4 bilhões de dólares que faltam do empréstimo anunciado em 2018, que deveriam ter chegado ao país em meados de setembro, em plena campanha eleitoral. Eles precisam desses recursos para continuar financiando a fuga de capitais.
 
A disputa está sendo processada no FMI, embora seja um pouco inútil, já que a voz final será a de Donald Trump, governante do país que tem a última palavra na organização internacional. Trump não hesitou em investir “politicamente” na Argentina, para garantir o acompanhamento de sua estratégia de interferência na Venezuela, que Macri ratificou, ao reconhecer o embaixador nomeado pelo “presidente interino”, Juan Guaidó. A economista búlgara Kristalina Giorgieva, que assumiu recentemente a direção geral do Fundo, desconsidera esse debate e aguarda o resultado das eleições para redefinir os quadros de ajuste e a reestruturação regressiva com o candidato que saia vencedor no dia 27.
 
Enquanto isso, Hernán Lacunza, ministro das Finanças, e Guido Sandleris, chefe do Banco Central, apresentaram as contas nacionais e as tarefas desempenhadas perante as novas autoridades do FMI. Eles argumentam que cumpriram o ajuste, mas não se preocuparam com as parcelas de dívida que deverão ser pagas em futuras administrações. Ao cumprirem com o estabelecido, solicitaram que o desembolso chegue o mais rápido possível antes das eleições e da mudança de governo. Eles temem que as reservas internacionais que gerenciam hoje se esgotem. No último dia útil antes das eleições primárias (sexta-feira 9 de agosto, as primárias foram no domingo 11 de agosto), as reservas internacionais atingiram 66,3 bilhões de dólares. Já os últimos dados fornecidos pelo Banco Central, no dia 15 de outubro, mostram que esse valor já foi reduzido a 47,8 bilhões. Ou seja, quase 20 bilhões a menos em apenas 2 meses. E o declínio continua.
 
Todos esses recursos gigantescos que foram perdidos poderiam ter um destino alternativo, e por isso é preciso uma investigação sobre como eles foram gastos. A rigor, não se trata apenas de comprovar se houve fuga de capitais, mas de assumir o processo completo desde dezembro de 2015, marcado por um enorme crescimento da dívida pública, que hoje atinge 100% do PIB, dobrando o recorde do início da gestão. Também é preciso avançar em um assunto pendente: a investigação da dívida iniciada no ciclo da ditadura genocida. Não é conveniente adiar para o futuro a auditoria integral, que pode definir o legal do ilegal, para não continuar colocando sobre os setores sociais o ônus do endividamento que favoreceu a concentração de renda e riqueza.
 
Preocupação com a pobreza
 
O mundo está preocupado com a pobreza, como mencionamos dias atrás, sobre um relatório do Banco Mundial que alertou para uma desaceleração na redução do indicador de pobreza em todo o mundo, especialmente em países relativamente menos desenvolvidos. Por seu lado, o Banco da Suécia entregou o prêmio Nobel de Economia a três acadêmicos com estudos sobre a pobreza, uma mulher e dois homens: a francesa, Esther Duflo, o indiano Abhijit Banerjee e o estadunidense Michael Kremer.
 
Por sua parte, o célebre economista Thomas Piketty divulga seu novo livro Capital and Ideology (“Capital e Ideologia”), onde volta à questão da desigualdade, abordada em “O Capital no Século XXI”. Agora, ele se ocupa mais da diferença entre ricos e pobres, e faz uma análise mais do que interessante sobre o discurso justificador da acumulação de riqueza.
 
Insistiremos em que nem o Banco Mundial, nem o Banco da Suécia, nem o economista francês assumiram a responsabilidade do capitalismo como causador da concentração de riqueza e da desigualdade, em oposição à situação da maioria da população empobrecida. Todos eles propõem paliativos ao abordar o problema, mas sem afetar o regime subordinado à lógica do lucro e à acumulação de capital, mesmo quando o professor francês defende a criação de fortes tributos aos mais ricos.
 
Haverá vontade em nossos países de ultrapassar as restrições da ordem capitalista, ou só se pode pensar em paliativos que diminuirão o impacto da pobreza e da desigualdade?
 
É uma questão para se pensar, ainda mais nestes atuais tempos eleitorais na Argentina, e também na Bolívia e no Uruguai.
 
*Publicado originalmente em rebelion.org | Tradução de Victor Farinelli



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