Pelo Mundo

O anjo de Matamoros

Enquanto Trump deixa esperando os que buscam asilo, uma boa samaritana lhes dá comida, água e esperança

09/08/2018 08:34

 

 

Em uma noite abafada de junho, Luis Miguel Montimo afasta-se da ponte Gateway International sobre o Rio Grande e caminha rumo a Matamoros (México), carregando seu filho de quase dois anos, José Luis. Com 32 anos e um rosto esburacado, apesar de ainda ter feições de menino, ele viajou desde Honduras, onde uma gangue incendiou sua casa e matou dois de seus filhos. Ele esperava cruzar a ponte para chegar aos Estados Unidos em busca de asilo. Porém, quando chegou ao meio da ponte naquele dia, uma autoridade da fronteira estadunidense não o deixou prosseguir. Montimo diz que a autoridade lhe disse que seu filho já seria adulto quando futuramente conseguissem permissão para entrar.

Agora, após uma jornada de três meses, ele já está quase desistindo, quando uma mulher minúscula usando uma camiseta vermelha e uma expressão preocupada o intercepta. “Não desista”, diz Glady Cañas Aguilar a Montimo ao colocar os braços em volta de seus ombros. “Se chegou até aqui, vale a pena ficar até que consiga pedir asilo”. Chorando, ele caminha de volta para se juntar às outras famílias migrantes acampadas ao lado da ponte.

Esta é mais uma noite agitada para Cañas Aguilar. Ela já atendeu cerca de uma dúzia de pessoas presas na Ponte B&M a dois quilômetros de distância. Uma mulher incansável de 51 anos, Cañas Aguilar incorporou para si a missão de garantir que quem busca asilo não seja prejudicado pelos esforços do governo Trump de desencorajar estas pessoas quanto a entrar nos EUA. Junto com suas filhas e um pequeno grupo de voluntários, ela vem às duas principais pontes que conectam Matamoros e Brownsville, Texas, com tudo o que migrantes encalhados precisam para sobreviver: sombrinhas para se proteger do sol, remédios, comida, água e gelo. Ela fica até tarde da noite, arrumando os acampamentos improvisados e provendo o apoio moral que migrantes frequentemente precisam para suas jornadas para o norte. E em face de políticas projetadas para impedi-los através de deliberada indiferença, ela mostra que a compaixão pode ser uma forma de resistência.

O governo Trump ordenou repetidamente que quem busca asilo entre através de passagens oficiais de fronteira, em vez de tentar atravessar o deserto ou o Rio Grande. Entretanto, em maio, autoridades da Proteção de Alfândega e Fronteiras (CBP) começaram a ficar paradas no meio das pontes na fronteira, literalmente um passo dentro dos EUA para dizer aos migrantes que esperem no lado mexicano da divisa em um calor de quase 38 ºC. Aqueles poucos pés de distância fazem toda a diferença: os migrantes não podem pedir asilo até estarem fisicamente nos EUA.

Então, eles aguardam no limbo, algumas vezes por mais de uma semana antes das autoridades estadunidenses permitirem que entrem. Não dizem para eles quando poderão entrar, e não há um sistema formal para determinar quem entra antes. Eles acampam nas pontes e lentamente se movem em direção à travessia da fronteira. Alguns fazem as necessidades em um balde, envoltos em um lençol para ter a ilusão de privacidade. Alguns desistiram e perambularam rumo a Matamoros. Eles podem retornar para as pontes para tentar novamente, ou podem cruzar a fronteira ilegalmente e então pedir asilo se agentes de patrulha de fronteira os prenderem (Cañas Aguilar recentemente organizou um acampamento próximo à base da Ponte B&M onde a maioria dos migrantes fica durante o dia antes de voltar a dormir na ponte à noite; ela diz que em julho, um total de 38 migrantes estavam ao mesmo tempo esperando na ponte).

Glady Cañas Aguilar conforta Luis Miguel Montimo na Ponte Gateway

Por toda a extensão da fronteira, desde San Diego até Brownsville, quem busca asilo é avisado de que a CBP não tem a capacidade de lidar com todos eles. Um porta-voz da CBP diz que deixar todos entrar “comprometeria a segurança e impediria a capacidade da CBP de realizar sua segurança de fronteira e missão de apoio”. Jennifer Harbury, uma advogada de direitos humanos texana, disse que as autoridades da CBP “não deram uma resposta” quando ela apontou que as salas de espera com ar-condicionado aos pés das pontes estão frequentemente desertas enquanto crianças dormem do lado de fora.

Militantes da questão da imigração questionam se a CBP tem a autoridade legal de fazer quem busca asilo esperar; leis estadunidenses e internacionais garantem seu direito de pedir asilo. Nestes dias, esse direito dura tanto quanto a capacidade de aguentar o calor, a fome e o isolamento nas travessias de fronteira. É aí que Cañas Aguilar entra em cena.

Quando ela lançou a seção de Matamoros da organização sem fins lucrativos Helping People Succeed em 2011, ela pretendia ajudar mexicanos a se recuperarem depois de serem deportados para Matamoros. Desde junho, ela tem feito quase que o oposto, ajudando as pessoas a entrar legalmente nos EUA. Doações de comida e suprimentos vêm aos montes vindas de seus seguidores no Facebook, e ela as entrega nas pontes. Algumas vezes ela não traz nada além de si mesma. “Mas ao ouvir e conversar, eles se sentem como se estivessem em suas casas”, ela diz, sentada em sua modesta casa de estilo colonial. “Apesar de nunca termos nos visto antes, e apesar de sermos de culturas diferentes, eles sentem esse carinho e amor vindo das pessoas”.

Quando quem busca asilo consegue cruzar a ponte, sua jornada está longe de terminar. Muitos são colocados em detenção de imigração enquanto seus pedidos são analisados. O processo pode demorar meses ou anos. Entre 2012 e 2017, os juízes deram asilo a cerca de 50% dos casos.

Jennifer, de dois anos de idade, espera com sua mãe na Ponte B&M.

No dia escaldante em que Luis Miguel Montimo está ponderando sobre seu futuro na Ponte Gateway, uma mulher cubana com o rosto intensamente queimado pelo sol está deitada sobre a Ponte B&M em aparente exaustão, quando Cañas Aguilar e suas filhas, Ingrid, de 24 anos, e Ixchel, de 19 anos, aparecem. Elas atendem as cerca de dez pessoas na ponte e, com a eficiência de uma equipe de troca de pneus de uma corrida automobilística, limpam e certificam-se de que o acampamento pareça apresentável o suficiente para evitar que os transeuntes reclamem. Quando um motorista chega com suprimentos, Cañas Aguilar sobe na barreira de tráfego de concreto para pegar soro de reidratação oral e leite em pó.

Momentos depois, Cañas Aguilar está correndo para a Ponte Gateway para ajudar uma jovem mãe guatemalteca e seu bebê de dez meses de idade. No caminho, ela para na loja 7-Eleven, onde vai diretamente ao corredor de comida de bebê e compra cinco potes de Gerber. Quando chega na ponte, uma autoridade mexicana a reconhece e a deixa entrar. Quase imediatamente, ela encontra Montimo. “Você tem o direito de pedir asilo”, ela lhe diz. “Então seja paciente. Tenha fé em Deus. Deus lhe dará forças”.

Quatro dias depois, as coisas estão agitadas na Ponte Gateway: mais de uma dúzia de pessoas chegou recentemente. Felizmente é uma noite fresca, e os acampados estão fazendo piadas e mantendo-se firmes. Montimo está entre eles, mas não participa das brincadeiras. Ele está agora acompanhado de sua namorada, Ingrid Perdomo, que viajou para o norte com ele e seu filho, mas que inicialmente planejava entrar nos EUA separadamente. Novamente, eles foram rejeitados pela CBP.

“Não os deixarei sós”, diz Cañas Aguilar. “Não tenham medo.” Ela pede um abraço, e depois volta para mais um. O filho de Montimo está deitado em um lençol, próximo de um ursinho de pelúcia amarelo. Montimo limpa seus olhos e seu nariz em sua jaqueta, e depois de Cañas Aguilar ir embora, ele deita-se com sua família para passar a noite, a alguns poucos passos de distância dos EUA.

Tradução: Nicolas Chernavsky | Publicado originalmente no Mother Jones

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