Pelo Mundo

O bando insurgente ainda ocupa o Capitólio

Partido Republicano absolve seu presidente

14/02/2021 12:53

Funcionários jogam sal nos degraus do Capitólio dos Estados Unidos após a conclusão do segundo julgamento de impeachment do ex-presidente Donald Trump. Brandon Bell / Getty Images

Créditos da foto: Funcionários jogam sal nos degraus do Capitólio dos Estados Unidos após a conclusão do segundo julgamento de impeachment do ex-presidente Donald Trump. Brandon Bell / Getty Images

 

De todos os vídeos apresentados no processo de impeachment, rico em vídeos, do presidente, viciado em aparecer na telas, o clipe que realmente relevante foi aquele em que um grupo de insurgentes, vasculhando o salão de audiências do Senado em 6 de janeiro, encontra um documento na mesa do senador Ted Cruz sobre sua objeção à certificação do colégio eleitoral. A princípio ficam furiosos, até que um deles explica que a objeção significa que, como eles, Cruz lutava contra o resultado da eleição. “Ele está conosco, ele está conosco”, este insurgente disse aos outros.

Aquele rebelado foi mais honesto e mais preciso do que os democratas que atuaram como "gerentes do impeachment" [deputados que atuaram como promotores no processo contra Trump] quando fizeram questão de dizer ao Senado que Donald Trump era singular e flagrantemente responsável pelo ataque ao Capitólio - mesmo enquanto um clipe após outro de suas evidências em vídeo mostrava o oposto. O incitamento de Trump à multidão foi singularmente ‘trumpiano’ em seu humor e execução, mas também foi o culminar de anos de política republicana construída sobre poder bruto e invencionices.

Os gerentes tiveram que fingir que Cruz e McConnell e os outros republicanos não eram cúmplices dos abusos de Trump, porque seu objetivo era fazer com que 17 senadores republicanos se unissem aos democratas para condená-lo. No final do julgamento, apenas sete dos 50 membros do partido aceitaram a argumentação dos gerentes. O restante dos republicanos não se importou com os gestos retóricos que os gerentes do impeachment fizeram para separá-los de seu presidente, com o objetivo de lhes garantir independência do presidente e de sua turba. Eles escolheram permanecer ligados a ele. Eles são o bando insurgente.

Para processar o julgamento de impeachment, os gerentes da Câmara deveriam ignorar o óbvio, contando uma história da culpa de Trump de modo a negligenciar a participação dos próprios jurados nos mesmos crimes. Será que o presidente, nos meses de violenta preparação para o ataque à certificação, comemorou o ataque, realizado por seus apoiadores, a um ônibus de campanha de Biden? Sim, mas o senador Marco Rubio também o fez. O presidente pressionou as autoridades da Geórgia a inventar razões para anular a vitória de Joe Biden no estado? Sim, mas a senadora Lindsey Graham também o fez.

Ainda assim, continuava diminuindo a distância entre os insurgentes e as pessoas que julgavam a insurreição. Se o idiota fantasiado de pintura facial e capacete peludo já não gritava mais no plenário do Senado, ainda estava lá o senador Mike Lee, repetidamente invadindo o processo para gritar suas objeções quando os gerentes mencionaram a história de como Trump ligou para seu telefone, no meio do motim, para continuar pressionando os senadores para bloquear a certificação. A história era falsa, disse Lee, embora nunca tenha especificado como, muito menos se oferecido para testemunhar sob juramento.

Os senadores republicanos leais a Trump passaram o julgamento procurando o menor espaço para se esconder, e a equipe de defesa do presidente gastou seu tempo inventando esse espaço para eles. Talvez a Câmara tenha enfraquecido sua causa ao agrupar todos os vários ataques do presidente à eleição sob a única acusação de incitamento à insurreição. Ou talvez todo o caso tivesse que dar errado porque Trump pronunciou a palavra “pacífica”, entre o momento em que ele estava convocando a multidão a Washington para o dia da certificação do colégio eleitoral para "parar o roubo", e o momento em que ele supostamente estava provocando o líder da minoria da Câmara, Kevin McCarthy, dizendo que as pessoas que quebravam suas janelas "estavam mais chateadas com a eleição do que você".

Cada senador tinha visto o que aconteceu em 6 de janeiro em primeira mão. Uma multidão em desordem de fato invadiu o Capitólio, deixando sangue e cadáveres em seu rastro, seus membros citando os tuítes de Trump, agitando bandeiras de Trump e gritando que estavam lutando por Trump. Todos os senadores também sabiam por que isso aconteceu - a turba, como muitos deles, estava tentando impedir a certificação da derrota eleitoral de Trump. Não havia um conjunto de fatos que pudesse exonerar Trump. Ainda assim, não houve um conjunto de fatos que pudesse ter obtido 67 votos para condená-lo.

Então, liderados por Mitch McConnell - que disse depois que Trump era “prática e moralmente responsável” pelo ataque - os republicanos escolheram fingir que não tinham poder para fazer nada. Rubio, que chamou a violência em torno dos comícios de Trump de “assustadora, grotesca e perturbadora” durante a campanha das primárias de 2016, deu o 34º voto para absolver o ex-presidente, selando o resultado. Em tom de pesar, quando tudo acabou, McConnell repetiu a mesma mensagem que havia emitido em uma declaração pela manhã, antecipando os argumentos finais, que ele entendeu, pela leitura da constituição, que o impeachment só poderia se aplicar aos atuais detentores de cargos.

Aparentemente, se o golpe tivesse sido bem-sucedido e Trump tivesse se mantido no cargo por meio da violência da turba, ele poderia ter sofrido um impeachment por isso. Mas, como a tentativa falhou, não havia como impedi-lo de tentar novamente no futuro, se ele concorrer para o futuro.

Outra vez - mais uma vez, se não pela última vez - a presidência de Trump demonstrou que a Constituição dos Estados Unidos é um fracasso. Seus mecanismos fundamentais não funcionam. Um presidente não pode ser investigado se recusar uma intimação do Congresso. Um presidente pode aceitar subornos e desviar fundos, se ele fizer tudo abertamente. Cinco cadáveres e um Congresso posto para correr não bastam para condenar e desqualificar um presidente de voltar ao poder, se o partido desse presidente quiser protegê-lo.

No início dos procedimentos de sábado, o capelão do Senado Barry Black citou a coragem do oficial de polícia do Capitólio, Eugene Goodman, e pediu a Deus que desse aos senadores o mesmo tipo de coragem, para "fazê-los acreditar que os fins não justificam os meios". No final, o Dep. Jamie Raskin, o principal gerente de impeachment, disse ao Senado: “este julgamento é sobre quem somos”.

Se sobrou alguma dúvida, o Senado estabeleceu o que somos, ou o que é esse governo. Donald Trump ainda está no comando de um grande partido político e livre para concorrer à presidência novamente, na esperança de que a próxima eleição possa estar mais perto, ou que sua próxima turba possa trazer mais armas. Imediatamente após o fim do julgamento, o Partido Republicano da Louisiana votou pela censura do senador Bill Cassidy, que havia sido um dos sete republicanos a declarar Trump culpado. Opor-se ao golpe era opor-se ao partido.

Publicado originalmente na revista Slate | Traduzido por César Locatelli

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