Pelo Mundo

O caso da capitã Rackete expõe a vergonhosa política da Itália para os imigrantes

Enquanto Salvini faz a vida impossível, a ONG alemã e a Guarda Costeira italiana operam no Mediterrâneo Central salvando a vida de dezenas de migrantes

05/07/2019 17:38

 

 
A evolução do caso de prisão e posterior libertação da alemã Carola Rackete, a capitã do barco Sea Watch 3, ligado à ONG homônima, está colocando em cheque o governo italiano e mostrando que este não possui uma linha clara e definida em matéria de política migratória, apesar da propaganda de seu ministro do Interior, o líder da Liga do Norte, Matteo Salvini.

Mais que isso, o principal sócio do governo, o Movimento 5 Estrelas, do ministro do Trabalho Luigi Di Maio, colocou em dúvida a voz única do Executivo, ao convidar a comandante do Sea Watch a fazer uma declaração na Câmara dos Deputados italiana.

As contradições não param por aí. Enquanto Salvini fazia a vida impossível à ONG alemã, para que seu barco não pudesse chegar em Lampedusa (Sicília), a Guarda Costeira italiana seguiu operando no Mediterrâneo Central, salvando a vida de dezenas de migrantes. Carola Rackete foi libertada na Itália, o que demonstrou que o governo do país não tem uma estratégia com relação ao tema de migração, ou ao menos uma que reúna todos os setores dentro do governo, nem mesmo a curto prazo.

A Itália desconhecendo o direito internacional, seguindo os desejos de Matteo Salvini, que está instrumentalizando o caso do Sea Watch para desafiar a União Europeia. O barco está criando certa tensão entre Roma, Berlim e Amsterdã. O governo de Salvini reclama que “a Itália não é um país indigno”, porém o comportamento do ministro do Interior “é inaceitável” para muitos governo, inclusive o francês, segundo o porta-voz de Emmanuel Macron, Sibeth Ndiyaye: “não está à altura, como deveria ser”.

O líder da Liga do Norte respondeu fazendo uso da sua habitual leitura soberanista: “o meu comportamento em matéria de imigração é inaceitável? O governo francês deveria deixar de insultar e começar a abrir os portos, porque os italianos já acolheram imigrantes demais”.

Por enquanto, apesar de tudo o que passou, tanto Rackete quanto seu barco e a ONG a qual pertence devem começar a trabalhar em uma nova embarcação para seguir em sua missão de busca e salvamento de migrantes, para que não se acabem as missões nas costas da Líbia, que também contam com o apoio da organização espanhola Open Arms. “Seguiremos atuando de forma a respeitar os direitos humanos no Mediterrâneo, se for necessário um novo barco, caso o Sea Watch 3 siga estando sequestrado, buscaremos outro”, afirmou um dos porta-vozes, Ruben Neugebauer, em um coletiva de imprensa em Berlim.

O caso ganhou maior repercussão na semana passada, quando o barco Sea Watch 3 já estava há mais de 15 dias à deriva, com 42 migrantes a bordo, resgatados pela própria equipe de resgate alemã, perto das costas da Líbia. Durante vários dias, o navio de bandeira holandesa permaneceu no limite do mar territorial italiano.

Porém, chegou um momento, em que, segundo os relatos da própria capitã afirmou, nas redes sociais, que a situação passou a ser insustentável do ponto de vista humanitário e sanitário. Por isso, ela decidiu infringir o novo decreto italiano que impede a chegada aos portos de qualquer embarcação sem autorização expressa. Rackete atracou no porto siciliano de Lampedusa, apesar das ordens contrárias das forças armadas da Itália, que acompanharam o seu barco. Por essa razão, ela foi presa minutos depois de sair do barco. Apesar da libertação e de se safar da pena de presídio, ela ainda pode pegar uma multa de até 50 mil euros (215 mil reais).

Entretanto, a ONG espanhola Open Arms (“braços abertos”), também deixa em evidência as contradições do conteúdo migratório defendido por Matteo Salvini, já que a organização não governamental já está colaborando com a Guarda Costeira italiana no Mediterrâneo Central, para encontrar e resgatar migrantes e refugiados no antigo Mare Nostrum, apesar da polêmica do caso do Sea Watch. Foi assim que, por exemplo, 55 pessoas foram resgatadas neste fim de semana, entre elas 4 crianças e 3 mulheres grávidas, que estavam em um barco de madeira procedente da Líbia, e foram salvas pela Guarda Costeira italiana, graças ao aviso da Open Arms.

*Publicado originalmente elespanhol.com | Tradução de Victor Farinelli

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