Pelo Mundo

O chileno Piñera é o modelo do argentino Macri

 

22/10/2019 18:34

 

 
Mauricio Macri está a caminho do final. Junto com o dele, também se aproxima o de um dos seus ídolos, o presidente chileno Sebastián Piñera, que está em pleno processo de desgaste. Outro ídolo, o conservador Mariano Rajoy, que chefiou o governo espanhol, já deixou o governo em 2018, quando o Congresso deixou de apoiá-lo.
 
Piñera foi presidente do Chile pela primeira vez entre 2010 e 2014, e assumiu seu segundo mandato em março do ano passado. Ele também é a sétima pessoa mais rica em seu país, e o número 745º colocado no ranking de milionários da revista Forbes. Sua fortuna declarada chega a 2,7 trilhões de dólares, que ele obteve acumulando ações como as da companhia aérea Lan Chile, além de propriedades, supermercados, um canal de televisão, empresas de cartões de crédito e até de um clube de futebol.
 
Um dos vínculos que une Piñera e Macri é a Fundação Libertad, liderada pelo escrito Mario Vargas Llosa. Em julho passado, esse centro de pensamento ultraliberal reuniu a ambos em um seminário. “O que o presidente Macri está fazendo é o que precisa ser feito”, elogiou Piñera, que logo completou: “ele está indo na direção certa e os frutos já estão chegando”. O colega do outro lado da cordilheira cogitou que Macri pudesse ser reeleito, e nesse caso, recomendou que ele “faça como Ulisses”. O caminho certo, segundo o colega, seria cobrir os ouvidos ou amarrar-se ao mastro do navio, para não ser tentado pelo canto das sereias. “Você tem que resistir”, insistiu, e recebeu a resposta de um entusiasmado Macri: “O Chile é uma referência”.
 
Essa referência escolhida pelo macrismo é o do maior processo de privatização já sofrido por um país. O Chile serviu de modelo para mundo, e inspirou Margaret Thatcher, que aprendeu como esmagar os sindicatos, e Carlos Menem, também orientado sobre como destruir o sistema de aposentadorias. Macri também admira esse país onde todos os serviços públicos são um negócio.
 
Após a ditadura de Pinochet (1973-1990), o Chile não foi completamente desmilitarizado, mesmo após 29 anos de democracia, e agora, com o estado de emergência de Piñera, os militares voltaram a patrulhar as ruas das cidades. O presidente não hesitou em impor também um toque de recolher, que impede a circulação noturna em várias localidades. Além disso, as jornadas de repressão já registram 11 mortos.
 
Os vizinhos da classe alta fazem vigílias, como uma verdadeira polícia paralela. Assim como Patricia Bullrich (ministra de Segurança Pública do governo de Macri) afirma temer a inexistente RAM, a misteriosa organização que ela disse que se conecta com grupos de iranianos, venezuelanos, mapuche e curdos, o governo de Piñera declarou guerra a um “inimigo poderoso” que ele não soube identificar. Também decidiu revogar o aumento do metrô, medida que foi a faísca que iniciou os protestos. Curiosamente, em sua última intervenção, ele prometeu conversar com a oposição para discutir como diminuir o preço dos remédios e regular aumentos de eletricidade e pedágio. Então, qual era o inimigo, afinal?
 
O governo parece inventar um bode expiatório para semear medo, como se as milhões de pessoas que estão protestando indignadas com o modelo chileno estivessem dispostas a saquear supermercados.
 
Por sua parte, a oposição pede pacificação, mas não parece entender quem são os que protestam, nem porque o fazem.
 
O líder socialista Jorge Arrate foi o presidente da empresa estatal de cobre quando Salvador Allende nacionalizou as multinacionais. Com o golpe de Augusto Pinochet, ele se exilou na Holanda. Com o retorno da democracia, ele voltou ao seu país e foi ministro durante os governos de Patricio Aylwin e Eduardo Frei, além de embaixador na Argentina. Presidente do Partido Socialista entre 1990 e 1991, ele deixou o partido em 2009. Hoje, analisa que a aliança de centro-esquerda entre socialistas e democratas cristãos fez menos pela questão da justiça social e pela reforma política, entre outras razões, porque supervalorizou o risco de restauração militar.
 
Aos 78 anos, Arrate é um homem próximo à Frente Ampla, a força de esquerda que ficou em terceiro lugar nas últimas eleições. Quando fala sobre Allende, Arrate frequentemente insiste que o allendismo não era apenas a Unidade Popular, ou que era pilotada pelo Partido Socialista ou pelo Partido Comunista. Também havia muita participação do sindicalismo, das mulheres, dos estudantes e camponeses. “O que chamaríamos de movimentos sociais hoje”, diz Arrate. O problema, para ele, é que no Chile “há uma dissociação entre as organizações políticas e organizações sociais, e os partidos estão cada vez mais encapsulados”.
 
A companheira de Arrate é a conhecida escritora Diamela Eltit, que acaba de escrever par ao meio digital El Desconcierto um artigo mostrando uma série de protestos confusos nos dias de hoje, como “uma fúria ao mesmo tempo presente e ao mesmo tempo acumulada”. Para ela, o problema vai além da água privatizada ou da “contaminação classista”, o da educação, ou da moradia. “Se trata de milhões de vidas a crédito, ou a inexistência de vidas jovens que habitam a periferia”.
 
*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado