Pelo Mundo

O comício vazio da campanha de Trump em Tulsa

 

25/06/2020 16:15

Donald Trump qualificou seu comício em Tulsa, Oklahoma, como um lançamento de campanha, aparentemente esperando uma recomposição no momento em que seus números de pesquisa estão em queda. (Evan Vucci/AP/Shutterstock)

Créditos da foto: Donald Trump qualificou seu comício em Tulsa, Oklahoma, como um lançamento de campanha, aparentemente esperando uma recomposição no momento em que seus números de pesquisa estão em queda. (Evan Vucci/AP/Shutterstock)

 

De certa forma, o que Donald Trump não disse na noite de sábado em Tulsa, Oklahoma, em um comício que foi anunciado como seu grande retorno, pós-pandemia, à campanha, importa mais do que ele disse. Em mais de noventa minutos no palco, nenhuma menção ao assassinato de George Floyd. Nenhuma menção ao assassinato de Breonna Taylor. Apenas uma menção aos cento e dezenove mil americanos mortos pela Covid-19, ou às dezenas de milhões jogados para fora do trabalho, enfrentando um futuro incerto para si e suas famílias.

Este é o presidente que estava, há apenas algumas semanas, supostamente considerando fazer um grande discurso sobre raça e unidade. Em vez disso, no sábado, Trump usou vinte minutos bacanas para contar sua experiência de descer uma rampa escorregadia depois de proferir o discurso de formatura em West Point no fim de semana passado. Ele também se gabava do mercado de ações; chamado a Covid-19 a "gripe kung"; acusou a deputada Ilhan Omar, nascida na Somália, de querer transformar os Estados Unidos em um estado falido "exatamente como o país de onde ela veio"; e disse que instruiu um oficial militar durante as negociações com a Boeing a não colocar nada "por escrito", porque ele queria evitar o pagamento de uma taxa multimilionária de cancelamento de pedidos para novos aviões da Força Aérea Um.

Uma longa primavera de dor acaba de terminar nos Estados Unidos; na primeira noite de verão, Trump se mostrou incapaz de lidar com essa dor e confessou que contribuiu para ela. Desde o momento em que a Covid surgiu, Trump tem dito o possível para minimizar a doença. "Gosto dos números onde eles estão", disse ele em março - um sentimento que se tornou política do governo. Mais recentemente, Trump se fixou em um argumento circular peculiar sobre a testagem. "Se não fizéssemos nenhum teste, teríamos muito poucos casos", disse ele em maio, uma afirmação tão insana quanto indiscutível. No sábado, Trump deu um passo adiante, dizendo-nos – na verdade, gabando-se - que ele desencorajou as autoridades do governo de tentar obter uma imagem completa do surto. "Eu disse ao meu pessoal: 'Retardem os testes, por favor'", disse ele. Em questão de minutos, os assessores de Trump estavam tentando limpar sua bagunça, dizendo que o presidente estava "brincando".

O fato de termos um presidente, cuja prioridade é negar a realidade, é uma catástrofe de saúde pública. Mas o que ele queria que seus apoiadores concluíssem dessa confissão? Comícios de campanha desempenham um papel especial na vida de Trump e em sua política. Foi nesses eventos que nasceu a lenda de sua conexão com sua base. Os repórteres da Casa Branca costumam nos dizer que os assessores de Trump pensam nesses eventos como melhoradores do humor presidencial: quando as coisas estão difíceis, Trump pode desabafar e curtir a bajulação de milhares de fãs vestidos com mercadorias com seu nome. Mas o evento de sábado, que deveria fazer um grande show do país se recuperando, atraindo uma multidão de pessoas para uma grande arena coberta, foi um pesadelo logístico para a campanha de Trump. As autoridades de saúde pública de Tulsa imploraram ao presidente para não realizar o evento, e a campanha, embora não exigisse o uso de máscaras, fez com que os participantes assinassem termos, eximindo a organização do evento de responsabilidade pela saúde, para garantir os ingressos. No sábado, chegou a notícia de que meia dúzia de funcionários da campanha que trabalhavam na organização do comício haviam testado positivo para o coronavírus.

O comício foi originalmente agendado para sexta-feira, que era Juneteenth, o feriado que comemora o fim da escravidão na América. Em 1921, Tulsa foi o local do massacre de Black Wall Street, no qual moradores brancos da cidade mataram centenas de vizinhos negros. O legado desse evento continua a influenciar a relação entre os moradores negros da cidade e a polícia. Após um clamor sobre a data do comício, Trump foi forçado a adiar o evento por um dia. A multidão que apareceu no sábado não conseguiu ocupar nem a metade inferior dos dezenove mil lugares da B.O.K. Center. Um evento externo, separado, onde Trump deveria falar foi descartado por falta de audiência. A campanha de Trump tentou culpar a mídia e os manifestantes por assustar as pessoas, mas os protestos em Tulsa no sábado foram pequenos. (“Tínhamos pessoas muito ruins lá fora”, disse Trump no início de seu discurso - um contrate com a maneira como ele descreveu manifestantes da supremacia branca em Charlottesville, Virgínia, como “pessoas muito boas”.) Enquanto isso, adolescentes usuários do aplicativo TikTok alegavam que tinham ajudado a golpear o evento, fazendo milhares de pedidos de ingressos fantasma on-line - ‘trolando’ um presidente que fez da ‘trolagem’ sua estratégia política principal. [NT. Trolar: colocar mensagens ou comentários provocadores, maldosos ou violentos em sites de discussão pública on-line, com intuito desestabilizador, in https://dicionario.priberam.org/trolar] Não há como escapar das crises interconectadas que o país enfrenta agora, mesmo em um comício de Trump. Com isenção ou não, os chapéus vermelhos com a inscrição "Make America Great Again" [Fazer a América Grande de Novo] tiveram que competir com máscaras azuis e pretas.

O efeito geral do evento foi mostrar uma campanha e um candidato lutando para descobrir o que dizer. "Tornaremos a América grande de novo - de novo!" Mike Pence disse no final de suas observações introdutórias. "Keep America Great" [Manter a América Grande], o slogan que Trump havia elaborado para sua candidatura à reeleição, parece ter sido descartado. Trump entrou com pedido à releição no dia em que foi em que tomou posse, em 2017 - seu estilo de governo é de campanha permanente e ele nunca parou de concorrer à presidência - e ainda assim ele considerou o discurso de sábado como uma espécie de lançamento de campanha. "Começamos nossa campanha, começamos nossa campanha", disse ele. Claramente, esperando uma recomposição no momento em que seus números de pesquisa estão em queda.

Quando Trump falou sobre o coronavírus, ele falou não como uma doença (um tópico que sempre o enerva), nem como uma calamidade econômica para muitos, mas como uma força que roubou dele um ponto-chave da campanha. Sem os números pré-pandemia de desemprego, ele falou de juízes, gastos militares, cortes de impostos para os ricos e desregulamentação. Ele mal mencionou suas duas grandes promessas de campanha a partir de 2016, construir o muro e drenar o pântano - ambos agora lembram tanto o que ele não fez quanto o que ele fez. Ele atirou em Joe Biden, atacando-o pela esquerda em um respiro ("Os Estados Unidos não deveriam tomar aulas sobre justiça racial de Joe Biden") e pela direita no próximo ("Biden é um cavalo de Tróia muito disposto para o socialismo"). Outro presidente pode ter algo com o que trabalhar aqui, enfrentando um candidato com o histórico de Biden de apoiar a legislação "severa ao crime" no Senado, em um momento em que as pessoas estão nas ruas protestando contra a violência policial e o racismo sistêmico. Mas Trump é o presidente que, há três anos, incentivou os policiais a agredirem as pessoas que prendem. Ele é o presidente que, há três semanas, tuitou: "Quando o saque começa, o tiroteio começa".

Em Tulsa, Trump parecia estar se divertindo. Ele balançava os braços como asas, pavoneava-se e fazia seus gritos de boca pequena, como se fosse no verão de 2016. (Ele até mesmo deu alguns tiros em Hillary Clinton.) Mas os últimos meses tornaram suas limitações mais visíveis do que nunca. Ele foi incapaz de gritar mais alto que um vírus ou de dividir a opinião pública em relação aos protestos. O que Trump conseguirá fazer campanha nos próximos meses? O público ficou do lado das pessoas que se manifestavam nas ruas. Pesquisas mostram que grandes maiorias dos norte-americanos acreditam que o racismo é um grande problema no país. Isso é uma mudança. E, por mais que seja um feito do movimento Black Lives Matter, também pode ter algo a ver com o abuso público especial que o homem da Casa Branca desencadeou nos últimos cinco anos contra negros, muçulmanos, latinos, e asiático-americanos. (Sem mencionar mulheres, pessoas com deficiência e pessoas gays e trans. A lista é longa.) Enquanto isso, no sábado, mesmo antes de Trump terminar seu discurso, as pessoas estavam compartilhando clipes nas redes sociais de fãs vestidos com adereços MAGA [Make America Great Again] na plateia, bocejando enquanto o presidente deles tagarelava.

*Publicado originalmente em 'The New Yorker' | Tradução de César Locatelli

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