Pelo Mundo

O contínuo declínio do poder britânico

O governo britânico pretende reestabelecer o Reino Unido como um estado-nação independente ao deixar a UE, mas o poder britânico e sua capacidade de decidir suas próprias políticas continua a diminuir no mundo real

07/08/2018 09:14

 

 
 
Por Patrick Cockburn
 
O governo britânico pretende reestabelecer o Reino Unido como um estado-nação independente ao deixar a UE, mas o poder britânico e sua capacidade de decidir suas próprias políticas continua a diminuir no mundo real. A evidência mais recente disso é a decisão do Ministro do Interior Sajid Javid de dar precedência aos EUA quanto a julgar dois supostos membros do Isis de Londres, que pertenciam ao notório grupo “Beatles” na Síria que se especializou em torturar e decapitar seus cativos.
 
A admissão humilhante de uma país de ser incapaz de lidar efetiva e legalmente com seus piores criminosos normalmente é realizada por Estados como Colômbia e México, que extraditam barões da droga para os EUA. Seus governos estão implicitamente confessando que são fracos e corruptos demais para punir seus criminosos mais poderosos.
 
As autoridades britânicas estão encorajando os curdos sírios que têm sob custódia El Shafee Elsheik e Alexanda Kotey a extraditá-los para os EUA em vez do Reino Unido. Elas declaram que o motivo para isto é que há uma maior chance de haver um julgamento rápido e uma sentença exemplar em uma corte dos EUA do que em uma britânica, embora o histórico nos EUA desde o 11 de setembro torne duvidoso este argumento.
 
O que parece ocorrer de fato é que o Reino Unido está em uma situação problemática em relação aos prisioneiros do Isis e o retorno de jihadistas ao Reino Unido, com os quais ele é incapaz de lidar. A decisão está agora sendo examinada por uma autoridade judicial no Reino Unido.
 
Como ocorre com o México e a Colômbia, a impressão geral deixada pelas ações de Javid é de fraqueza e incapacidade.
 
Primeiramente, ele tomou a decisão chocante e inexplicada de deixar de lado a usual condição britânica de que o Reino Unido proveria evidências e informações para o julgamento somente se a possibilidade de pena de morte fosse descartada. Além disso, ele não só abandonou o antigo princípio britânico de se opor a execuções de Estado, mas o fez em segredo, sugerindo que o governo sabia muito bem o significado de sua mudança de política.
 
A explicação mais simples para não se buscar uma “garantia contra pena de morte” por parte dos EUA é que Theresa May, Javid e Boris Johnson, que era Ministro de Relações Exteriores quando a decisão foi tomada, viam os “Beatles” como um assunto político espinhoso.
 
Eles ficariam pressionados entre aqueles que demandam que Elsheik e Kotey sejam punidos com extremo rigor e aqueles que acreditam que a pior forma de lidar com o Isis é cair na tentação de implementar práticas de linchamento. É possível que o governo Trump não oficialmente tenha insistido para que o Reino Unido recuasse em relação a sua aberta oposição à pena de morte.
 
Uma solução alternativa seria entregar os dois homens acusados à Corte Criminal Internacional em Haia — sendo que a única objeção real a isso é que os EUA se recusam a reconhecer a corte e que a prioridade britânica em tempos de Brexit é, acima de tudo, manter uma boa relação com Washington.
 
O Isis beneficia-se do imbróglio sobre estes Beatles porque suas atrocidades sempre tiverem como objetivo instalar o medo, mas ao mesmo tempo também provocar uma reação exagerada daqueles que ela quer atingir. Esta estratégia funcionou bem para a al-Qaeda depois do 11 de setembro, quando a credibilidade judicial dos EUA foi irreparavelmente danificada aos olhos do mundo por causa de transferências para locais com menos direitos para o presos, tortura, aprisionamento sem julgamento em Guantânamo e maus-tratos de prisioneiros de forma padrão em Abu Ghraib.
 
Em cada estágio dos conflitos na Síria, Iraque, Líbia e Afeganistão, os sucessivos governos britânicos cometeram erros não forçados. Eles nunca parecem compreender a natureza dessas guerras civis e quão difícil é dar um julgamento justo a qualquer um pego no meio delas porque qualquer pessoa detida pela mais vaga suspeita pode ser mandada para a prisão, torturada até confessar e sumariamente executada.
 
Eu estava em Taji, uma área árabe sunita ao norte de Bagdá em junho deste ano, um lugar que costumava ser um reduto do Isis. Um fazendeiro contou-me que vários de seus vizinhos não faziam a viagem de uma hora até Bagdá há dez anos porque tinham medo de serem parados em postos de controle do governo, presos e forçados a fazer falsas confissões.
 
Os mesmos medos estão difundidos em regiões sob controle do governo sírio. Vários anos atrás, conversei com refugiados árabes sunitas que estavam vivendo em uma escola na cidade parcialmente destruída de Homs, onde a luta era particularmente intensa. Eu disse que devia ser perigoso para qualquer homem em idade militar andar pelas ruas.
 
Isso foi recebido com risadas amargas dos homens mais velhos que disseram que eles corriam o mesmo nível de perigo que seus parentes mais jovens.
 
Frequentemente a única forma de sair da prisão não é provando-se a inocência, mas subornando-se as autoridades certas. Isso é caro e nem sempre funciona, porque os subornados não necessariamente cumprem com o combinado. Iraquianos e sírios normalmente acreditam que aqueles com maiores chances de sair da prisão usando dinheiro são militantes do Isis que podem ter acesso a grandes quantias de dinheiro e são perigosos demais para serem ludibriados pelas autoridades que subornaram.
 
Após a tomada de Mosul, na prática a capital do Isis no Iraque, em 2017, moradores locais contaram-me que estavam horrorizados de ver antigas autoridades do Isis de volta às ruas após uma curta detenção. Eles afirmavam que isso ocorria por causa do suborno maciço das forças de segurança do governo de Bagdá.
 
Os soldados iraquianos na linha de frente decidiam de forma igualmente cínica concluindo que não havia sentido em enviar prisioneiros vivos de volta a Bagdá, de forma que os executavam no local.
 
Os Beatles são mais famosos porque mataram e maltrataram ocidentais, mas tirando isso, não eram diferentes de outras gangues cruéis e assassinas do Isis. Afirmou-se que um motivo pelo qual eles não poderiam ser julgados no Reino Unido é que informações das agências de inteligência não poderiam ser usadas sem comprometer-se as fontes. Isso pode ser verdade, mas sempre que informações secretas de agências do governo foram reveladas em inquéritos públicos nos últimos 15 anos, elas acabaram sendo bem mais duvidosas e menos convincentes do que se tinha originalmente afirmado.
 
Saber quem realmente fazia parte do Isis e o que fez lá é impossível em países onde a tortura é generalizada e as confissões falsas são a norma. O momento para ser lidar com os jihadistas britânicos e as dezenas de milhares de outros combatentes estrangeiros fanáticos era vários anos atrás quando estavam livremente cruzando a fronteira da Turquia e entrando na Síria.
 
Porém, o governo britânico e seus aliados mostraram pouca preocupação porque a prioridade na época era forçar uma mudança de regime em Damasco, uma meta compartilhada pelos jihadistas.
 
Sajid Javid finge que o princípio da oposição do governo à pena de morte somente será deixado de lado neste único caso excepcional, embora princípios que possam ser descartados tão facilmente em momentos convenientes automaticamente deixem de ser princípios.
 
A controvérsia sobre o destino legal dos “Beatles” reforça novamente a verdade na frase de Cícero de que “as leis se silenciam em tempos de guerra”.
 
Tradução: Nicolas Chernavsky

Publicado originalmente em : https://www.counterpunch.org/2018/08/02/the-ongoing-decline-of-british-power/

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