Pelo Mundo

O coronavírus destruiu o mito do déficit

Não, os gastos do governo federal não tem que ser 'pagos'. A crise mostra que suprir à nossa sociedade não é uma questão financeira

20/04/2020 13:22

Créditos da foto: "Tendo adotado o mito do déficit, por gerações, vivemos abaixo de nossos meios - paralisados pela crença de que a restrição é financeira" (Evan Vucci/AP)

 

Apenas um mês atrás, uma lei de estímulo de US$ 2 bilhões seria impensável. Os indignados recriminadores do déficit teriam perguntado como se planejava pagar por isso e se queixariam de sobrecarregar nossos netos com dívidas e falir em nosso país. Bernie Sanders virou-se do avesso para trás para explicar como ele pagaria por um Green New Deal [Novo Acordo Verde] ou pelo Medicare for All [Saúde para Todos]. Esses programas não parecem mais tão caros. De repente, o governo está planejando "jogar dinheiro do helicóptero". Larry Kudlow [Diretor do Conselho Econômico Nacional dos EUA], que atacou incansavelmente o estímulo de Obama durante a crise financeira global, está propagandeando o estímulo atual como "o maior programa de assistência para a classe média (Main Street) da história dos Estados Unidos".

Ninguém está perguntando seriamente como vamos pagar por esse estímulo - e não deveriam mesmo. Foi necessária uma pandemia global para explodir o mito de que os gastos do governo federal devem ser "pagos".

A crise da Covid-19 demonstrou claramente o que já deveria ser óbvio: o suprimento da sociedade - seja alimentos, desinfetantes, papel higiênico ou suprimentos médicos - não é uma questão financeira. Se não conseguirmos produzir máscaras, respiradores ou alimentos suficientes, o financiamento não ajudará. A capacidade da sociedade de produzir resultados reais é o que limita sua capacidade de ter o necessário para a subsistência. E é exatamente isso que o vírus ameaça, à medida que os trabalhadores ficam em casa, as cadeias de suprimentos se quebram e as empresas fecham suas portas.

No lado financeiro, um governo soberano sempre pode comprar o que está à venda em sua moeda, como os adeptos da Teoria Monetária Moderna (MMT) explicam há muito tempo. Ele não pode ficar sem dinheiro, porque simplesmente credita contas bancárias quando gasta. Isso não é uma receita, mas apenas uma descrição do que realmente acontece. Nos Estados Unidos, o Congresso aprova o orçamento, enquanto o Tesouro, em cooperação com seu agente fiscal, o Federal Reserve, faz os pagamentos necessários. Isso acontece no meio de períodos de dificuldades e obstáculos do ciclo de negócios, com ou sem crise. Se o governo dos EUA quiser comprar mais respiradores ou máscaras, o financiamento não pode ser um impedimento.

Mas o que acontece quando respiradores e máscaras não estão disponíveis para venda, mesmo quando as empresas estão operando 24 por 7? Mais dinheiro pode não resolver o problema, mas o governo ainda tem um papel a desempenhar. Durante a segunda guerra mundial, os EUA rapidamente se tornaram "o arsenal da democracia", redirecionando sua capacidade produtiva para atender as necessidades da guerra. Por meio de um planejamento diligente, “caixas de batom tornaram-se caixas de bombas, latas de cerveja foram para granadas de mão, adicionou-se maquinário a pistolas automáticas e aspiradores de pó forneceram peças para máscaras de gás”. Conseguimos reduzir o “tempo de produção dos navios Liberty de 365 dias para 92, 62 e, finalmente, para um dia”. Podemos mobilizar nossos recursos uma vez mais para construir hospitais temporários e garantir um suprimento suficiente de equipamentos médicos e tudo o mais necessário para superar a crise.

Tendo adotado o mito do déficit, por gerações, vivemos abaixo de nossos meios - paralisados pela crença de que a restrição é financeira. Períodos prolongados de recuperação marcados por inatividade e desemprego desincentivaram o investimento e prejudicaram nossa capacidade produtiva e a produtividade do trabalho. Mesmo nos bons tempos, nossa economia deixa milhões de desempregados ou subempregados e uma quantidade significativa de nossa capacidade ociosa (antes da epidemia, nossas fábricas estavam operando a apenas três quartos da capacidade). Investimos pouco em saúde pública, educação e infraestrutura e impusemos limitações extremas aos programas de assistência social. Até o momento em que este artigo foi escrito, o governo ainda planeja continuar com seu plano de expulsar 700.000 norte-americanos do programa de cupons de alimentação, para economizar desprezíveis US$ 4,2 bilhões em cinco anos. Vivemos na “pobreza no meio da abundância”, como John Maynard Keynes observou apropriadamente na Grande Depressão.

Depois que essa crise passar, os recriminadores do déficit voltarão a agir como sempre, tentando colocar obstáculos no caminho das políticas progressistas. Seremos informados de que não podemos pagar pelo Medicare for All (Saúde para Todos), Jobs for All (Empregos para Todos), College for All (Faculdade para Todos),ou para interromper a mudança climática. Os centristas tentarão voltar à “normalidade” - isto é, uma economia que deixa tantos para trás.

É imperativo que resistamos. O que os progressistas precisam pressionar é pela criação de um tipo diferente de economia por meio de um Green New Deal. Para fazer isso, precisamos distinguir entre os mitos e as restrições reais, entendendo “que o que é tecnicamente viável é financeiramente possível” para um governo soberano. Sermos capazes de construir o que está proposto nesse acordo (Green New Deal) requer recursos e tecnologia reais, não financeiros.

O New Deal original também foi prejudicado por preocupações com gastos excessivos do governo. A segunda guerra mundial eliminou esse obstáculo, desencadeando uma mobilização econômica extraordinária e décadas de prosperidade. Espera-se que a crise do coronavírus não seja tão destrutiva quanto a Grande Depressão, mas se há uma coisa que ela deve destruir, é o mito do déficit.

Yeva Nersisyan é professora associada de economia no Franklin and Marshall College

L Randall Wray, autor de “Modern Money Theory: A Primer on Macroeconomics for Sovereign Monetary Systems; Why Minsky Matters: An Introduction to the Work of a Maverick Economist; e Understanding Modern Money: The Key to Full Employment and Price Stability, é pesquisador sênior do Levy Economics Institute e professor de economia no Bard College

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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