Pelo Mundo

O coronavírus fez do encarceramento uma sentença de morte em potencial

As prisões deveriam libertar o maior número possível de detentos e ser uma prioridade para recebimento de testes e suprimentos

22/04/2020 18:04

. O distanciamento social é impossível. Sabão e água geralmente não estão disponíveis. (Robyn Beck/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: . O distanciamento social é impossível. Sabão e água geralmente não estão disponíveis. (Robyn Beck/AFP/Getty Images)

 

Essa semana, o New York Times publicou uma história sobre como o coronavírus trucidou o Complexo Prisional Federal em Oakdale, Luisiânia. Em 28 de março, Patrick Jones, 49, servindo uma sentença de 27 anos por posse de crack com a intenção de distribuir, se tornou o primeiro detento federal a morrer por causa do vírus.

Apenas três semanas depois, sete detentos tinham morrido, ao menos 100 detentos e funcionários tinham sido infectados, com mais de 20 hospitalizados – e uma comunidade inteira aterrorizada. Os detentos morreram, desconhecidos, não declarados, seus corpos essencialmente pertencentes ao governo federal que os aprisionou.

De acordo com agentes carcerários no local, o supervisor não agiu com a rapidez necessária, dizendo que “vivemos no sul e aqui é quente. Não teremos problema”, uma ilustração dos perigos da retórica vaga e fábulas do presidente, amplificadas pelas redes sociais.

Os horrores de Andover, um asilo de Nova Jersei – com ao menos 70 residentes mortos e dezenas testando positivo para o vírus – dramatizou a vulnerabilidade dos idosos em asilos, onde mais de 7.000 morreram. Nossas prisões e cadeias superlotadas estão se tornando rapidamente os próximos centros a serem dizimados pela doença.

A cadeia do Condado de Cook, a maior do país, já é uma das maiores fontes de infecção da nação, com mais casos confirmados do que o USS Theodore Roosevelt ou o conjunto New Rochelle em Nova Iorque. Quatro detentos estão mortos e 215 testaram positivo, junto com 191 agentes carcerários e 34 outros empregados do gabinete do xerife. Um funcionário acabou de morrer.

Sabemos mais sobre o Condado de Cook porque o xerife Tom Dart foi o mais transparente. Muitos estão sofrendo e morrendo com a Covid-19 porque os gabinetes dos xerifes ao redor do país não têm sido muito abertos e não estão testando. A cadeia está sobrecarregada. O xerife e os trabalhadores da cadeia precisam de mais mãos. Para cada mudança de turno, o vírus é reciclado na comunidade.

Uma prisão estadual em Ohio é, agora, a maior fonte declarada de coronavírus nos EUA. Eu liguei para o presidente Trump e o alertei a tornar os testes, mapeamento e o isolamento social prioridades nas cadeias, asilos e prisões. Os trabalhadores, detentos e comunidades onde os trabalhadores moram precisam de ajuda.

Em Ohio, 2.300 prisioneiros em três prisões testaram positivo. Nas prisões e cadeias ao redor do país, detentos presos por crimes não violentos ou que estão esperando julgamento, e os mais velhos e vulneráveis próximos do final de suas sentenças, entre outros, estão com medo ao encarar uma sentença de morte.

Prisões e cadeias são placas de petri imaginárias para o vírus. O distanciamento social é impossível. Água e sabão não estão sempre disponíveis.

Agentes carcerários não têm escolha senão misturar os detentos. Muitos detentos são pobres, frequentemente com problemas de saúde – asma, diabetes, doenças do coração, estresse – que os tornam mais vulneráveis ao vírus.

Prisões e cadeias começaram – embora vagarosamente – a reagir. A cadeia do Condado de Cook reduziu sua população prisional de 10.000 para 4.200, parcialmente por causa da reforma das fianças, um pouco por causa dos tribunais condenando cada vez menos criminosos não violentos à prisão e um pouco por causa de liberações antecipadas. Estão deixando sabão e desinfetantes disponíveis. Aqueles com sintomas são isolados da população geral. Não é permitida a entrada de visitantes e voluntários, frequentemente com alto custo psicológico aos detentos.

As instalações são limpas com maior frequência. Em algumas prisões, detentos estão confinados em suas celas por 22 horas para limitar interações humanas.

Mas os testes não estão disponíveis com frequência – o que é verdade também para a população em geral. Poucos são testados raramente. Isso coloca não somente os prisioneiros, mas também agentes carcerários e suas famílias, e as pessoas com quem interagem, em risco.

Os levantes nas prisões começaram, enquanto detentos aterrorizados demandam proteção e mais informação. Agentes carcerários se uniram em processos para conseguir equipamentos de proteção adequados, informação e testes. E frequentemente, é tarde demais.

Não há defesa. Claramente, nos níveis federal e estadual, oficiais carcerários deveriam acelerar a liberação de criminosos não violentos, dos idosos e dos vulneráveis. A testagem universal é um imperativo. Prisioneiros precisam de mais acesso à sabão e água. E ambos prisioneiros e agentes carcerários precisam de equipamentos de proteção – desde máscaras até luvas – e, principalmente, informação sobre como se proteger.

Donald Trump me informou que declarou Jared Kushner, seu genro, como o encarregado da reforma prisional. O tempo para ações agressivas já passou. As prisões deveriam libertar o maior número possível de detentos e ser uma prioridade para recebimento de testes e suprimentos.

Se a pandemia continuar a se espalhar pelas prisões, o número de mortes vai aumentar.

Enquanto a pandemia se revela, é um absurdo moral que os EUA sejam o país que mais prende pessoas, incluindo a China. Os prisioneiros são desproporcionalmente pobres e negros, frequentemente vítimas do racismo institucionalizado que ainda coloca jovens afro-americanos em grande risco de serem parados pela polícia, condenados e presos.

Mesmo sem o vírus, isso é uma desgraça. Agora o coronavírus fez do encarceramento uma sentença de morte em potencial.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado