Pelo Mundo

O despertar da ultradireita

Trump está conseguindo fazer o que outros políticos não haviam se atrevido: reabilitou um setor que repudia a igualdade e os direitos civis das minorias.

08/09/2015 00:00

Gage Skidmore / Flickr

Créditos da foto: Gage Skidmore / Flickr

No fim das contas, aquilo que o Donald Trump remexeu com suas travessas agressões verbais contra os mexicanos pode ter um efeito muito mais profundo, no contexto da política estadunidense. Deu voz àqueles que estavam silenciados, devido aos avanços em termos de direitos civis, que intimidaram as suas manifestações racistas, em favor de uma maioria que lutou por anos para superar as relações sociais que prevaleceram no passado, e que hoje já não têm lugar.
 
Com singular irreverência, falta de tato político e uma boa dose de estardalhaço, Trump está conseguindo fazer o que, por prudência ou estratégia, outros políticos conservadores não haviam se atrevido a fazer: reabilitou uma grande parte do setor mais conservador, que não tinham coragem de expressar abertamente seu repúdio à igualdade e os direitos civis das minorias. Uma minoria silenciosa, e que despertou, não precisamente para o bem da política, tampouco da convivência.
 
Em um artigo revelador, publicado pela revista New Yorker, Evan Osnos mostra o papel que os grupos ultrarradicais de direita, conhecidos como White Nacionalists (brancos nacionalistas), estão exercendo na campanha de Trump. O pré-candidato republicano deu novamente certa relevância a esse setor no plano político estadunidense, sendo ao mesmo tempo o catalisador de um público que até agora vinha optando pela abstenção, em vez de manifestar seus temores, devido ao que consideravam a perda da “identidade branca” nos Estados Unidos. Efetivamente, os demógrafos indicaram que quando este século chegue aos Anos 40, os brancos já não serão maioria no país, e cederão seu lugar a um espectro mais amplo e diverso da população.
 
Trump soube explorar esse temor, e manifestar os “agravos” que os setores considerados moderados também vêm sentindo por causa das mudanças surgidas das lutas pelos direitos civis. Já não importa se ele será ou não o candidato do seu partido, o que Trump conseguiu foi fazer com que esse sentimento aflore no debate sobre uma reforma migratória que poderia beneficiar milhões de pessoas.
 
É difícil que uma eleição nos Estados Unidos se decida com base num tema migratório. Ao menos é o que a história demonstra. O que não é difícil é que o tema sirva de impulso aos piores sentimentos de muitos eleitores, o que também já havia sido ensinado pela história. Os pré-candidatos republicanos sabem disso – e se não sabiam, Trump está aí para recordá-los. Certamente, temas como a economia, política social e exterior serão os que prevalecerão no fim das contas, os que definirão o debate. Contudo, aqueles que defenderem a causa dos migrantes, indocumentados ou não, terão que fazê-lo com argumentos cada vez melhores e mais contundentes. A solidez nos argumentos, e não as injúrias simplistas, são mais convincentes na disputa contra Trump e seus correligionários, conquistando mais as consciências dos eleitores, sejam eles latinos, asiáticos, afro-americanos ou brancos.
 
Tradução: Victor Farinelli





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