Pelo Mundo

O dia em que a esquerda sionista morreu

19/09/2011 00:00

Yitzhak Laor - Haaretz

Há exatos 11 anos, a esquerda sionista morreu, ao ser capturada pelo então primeiro ministro Ehud Barak. Até outubro de 2000, Israel violou os Acordos de Oslo, continuando a atividade de construção de assentamentos, rodovias de desvio ao redor dos assentamentos e a consolidação dos assentamentos existentes. Isso se passou com uma separação maior – embora ainda não uma cerca de separação – entre os territórios, desprovidos de fontes de emprego e o próprio território de Israel, que preferiu contratar trabalhadores estrangeiros. Sete anos após Oslo, a cúpula de Camp David terminou em fracasso, e as lideranças de Israel, tanto civis como militares, energicamente prepararam-se para as futuras manifestações ao longo da Cisjordânia.

Quem quer que atualmente esteja orgulhoso da democracia israelense em comparação com a repressão aos protestos na Síria, deveria se lembrar desses dias – não apenas a junção da autoestrada na cidade árabe de UMM AL-Fahm, em Israel, onde estouraram tumultos, mas também dos confrontos nos territórios entre militantes desarmados e o exército israelense. Só na Cisjordânia, nas primeiras três semanas de levantes, em torno de meio milhão de balas foram atiradas. E isso antes de começarem os ataques terroristas.

A tentativa constante de obscurecer essa disparidade e de misturar diferentes períodos de tempo diante dos protestos não apenas enterrou a esquerda sionista, como também deu origem ao atual Knesset que – com poucas exceções –, é todo de direita. Outubro de 2000 foi o marco.

A luta anticolonialista dos palestinos está de acordo com uma interpretação israelense que denega, como sempre, a natureza anticolonialista do movimento nacional palestino. A versão israelense era “O Presidente da Autoridade Nacional Palestina Yasser Arafat estava voltando aos seus velhos tempos”, como se o líder do movimento palestino tivesse concordado em aceitar a recusa israelense em se retirar da Cisjordânia. E, como sempre, a estupidez venceu. O único líder palestino que poderia trazer a paz, transigindo, era pintado como um demônio, com a assistência da esquerda sionista.

A liderança levou os israelenses a acreditarem que os palestinos tinham declarado guerra, embora se pudesse a olhos nus ver que a verdade era o oposto. Naquele novembro, os ataques terroristas diretamente sobre nós começaram, na sequência dos assassinatos e mortes de palestinos ao longo da Cisjordânia. Sabemos como os assassinatos, do ponto de vista palestino, eram justificativas para a guerra. Hoje, está claro que a comunidade de inteligência sabia que eles eram justificativas para guerra.

Ninguém que reveja os acontecimentos da época pode ainda levar a sério o que era então dito. “Eles querem a guerra”. Eles não queriam a guerra. Eles queriam um estado e não consideravam a hipótese de desistir disso. Eles também não queriam exatamente aceitar a armadilha que lhes foi proposta pelo Primeiro Ministro Barak, e pelo chefe de Estado Maior das Forças de Defesa Israelense, Shaul Mofaz e o general maior Moshe Ya’alon, do Comando Central das Forças de Defesa de Israel.

Foi o período mais feio para a esquerda israelense, que foi rápida em mostrar suas “angústias”. A revista do Haaretz rapidamente reuniu o discursos, juntou apoiadores do Partido Trabalhista e do Meretz, um atrás do outro, tomando o cuidado de só entrevistar aqueles que se caracterizassem como “perplexos”, permitindo-lhes que culpassem as vítimas. Esse discurso nunca saiu da agenda pública.

O ataque militar massivo sobre os territórios ocupados que continuaram e escalaram, com ataques terroristas terríveis, que culminaram na reconquista da Cisjordânia, deram-se sem qualquer oposição israelense, além de poucas dezenas de membros da esquerda radical. Eles já tinham tomado as ruas naquele outubro. Seu número aumentou, mais tarde, para poucas centenas. Eles erraram em dar preferência às manifestações na Cisjordânia, em vez de, aqui, tomarem as ruas de Israel.

Vimos muitas mortes ao longo desses 11 anos passados, juntamente à expansão dos assentamentos e a sua consolidação. E vimos a total debilidade da esquerda sionista que, de um ponto de vista histórico, deveria estar na linha de frente pela paz. Nesta semana nós precisamos lembrar da desonra desse período, particularmente porque tudo o que está agora começando de novo caminha para fechar os olhos para uma das últimas empreitadas coloniais no mundo.

(*) Yitzhak Laor é um poeta e jornalista israelense, nascido em 1948. É um dos editores do jornal Haaretz, e escritor de livros premiado. É autor de vários livros, entre eles:Night in a Foreign Hotel (Berenstein Prize em 1993), The People, Food Fit for Kings (Israeli Literature Prize em 1994) e And With My Spirit, My Corpse (Moses Prize). Publicou, pouco depois, um livro de poesia, as nothing (1999), e um romance, Ecce Homo [ambos traduzidos para alemão]. Em 2004, publicou Leviatahn City, que lhe valeu o Prémio Yehuda Amichai 2007. Em 2006, saiu Vered, um livro de contos e, em 2007, My son shall stand up (poemas). Durante este período, Yitzhak Laor tomou parte na resistência contra a ocupação de territórios palestinos e na solidariedade aos palestinos. Perdeu o seu emprego na Universidade de Tel Aviv.

Tradução: Katarina Peixoto


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