Pelo Mundo

O fim da negação

Donald Trump revelou as profundezas do preconceito do país - e forçou os norte-americanos a se haverem com um sistema racista

06/08/2020 13:00

(Reprodução/The Atlantic)

Créditos da foto: (Reprodução/The Atlantic)

 
I.

O Marine One [helicóptero presidencial] esperou pelo presidente dos Estados Unidos no gramado sul da Casa Branca. Era 30 de julho de 2019, pouco depois das 9h.

Donald Trump foi para a histórica Jamestown para marcar o 400º aniversário da primeira assembleia representativa de colonos europeus nas Américas. Mas os legisladores da Virgínia Negra estavam boicotando a visita. Nas duas semanas anteriores, o presidente havia se envolvido em um dos ataques políticos mais racistas contra membros do Congresso na história norte-americana.

Como tantas controvérsias durante a presidência de Trump, tudo começou com um tuíte matutino.

“É tão interessante ver as mulheres democratas progressistas do Congresso, que originalmente vieram de países cujos governos são uma catástrofe completa e total, os piores, mais corruptos e ineptos do mundo (se é que eles têm um governo em funcionamento), agora em voz alta e cruelmente vêm dizer ao povo dos Estados Unidos, a maior e mais poderosa nação do mundo, como nosso governo deve ser administrado '', tuitou Trump no domingo, 14 de julho de 2019. “Por que elas não voltam e ajudam a consertar os lugares totalmente destruídos e infestados de crimes de onde vieram. Depois voltem e nos mostrem como se faz. Esses lugares precisam muito da sua ajuda, vocês têm que ir o mais rápido possível.

Trump estava se referindo a quatro calouras do Congresso: Ilhan Omar de Minnesota, uma norte-americana somali; Ayanna Pressley de Massachusetts, uma afro-americana; Rashida Tlaib, de Michigan, uma palestino-norte-americana; e Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, porto-riquenha. Pressley capturou o tuíte de Trump e declarou: "Essa é a cara do racismo".

No gramado sul, Trump agora enfrentava repórteres e câmeras. Sobre o zumbido dos rotores do helicóptero, um repórter perguntou a Trump se ele estava incomodado com o fato de que "mais e mais pessoas" o chamavam de racista.

"Eu sou a pessoa menos racista que existe em qualquer lugar do mundo", respondeu Trump, mãos para cima, palmas das mãos voltadas para frente como ênfase.

As mãos dele desceram. Ele destacou um crítico vocal, o reverendo Al Sharpton. "Ora, ele é racista", disse Trump. "O que eu fiz pelos afro-americanos, nenhum presidente, eu diria, fez ... E a comunidade afro-americana está muito agradecida."

Foi uma afirmação absurda. Mas de uma maneira distorcida, Trump estava certo. Quando o primeiro mandato de seu governo chega ao fim, os norte-americanos negros – na verdade, todos os norte-americanos - devem, em certo aspecto, agradecer a ele. Ele empunhou um espelho para a sociedade norte-americana, que refletiu de volta uma imagem grotesca que muitas pessoas até agora se recusavam a ver: uma imagem não apenas do racismo ainda corrente pelo país, mas também do reflexo de negar essa realidade. . Embora quase certamente não fosse essa sua intenção, nenhum presidente fez com que mais norte-americanos parassem de negar a existência de racismo do que Donald Trump.

II.

Estamos vivendo no meio de uma revolução antirracista. Na primavera e no verão, as manifestações pedindo justiça racial atraíram centenas de milhares de pessoas em Los Angeles, Washington, Nova York e outras grandes cidades. Manifestações menores eclodiram em enclaves do nordeste, como Nantucket, Massachusetts, e Bar Harbor, Maine; em cidades ocidentais como Havre, Montana e Hermiston, Oregon; em cidades de médio porte como Waco, Texas e Topeka, Kansas; e em subúrbios ricos como Chagrin Falls, Ohio, e Darien, Connecticut.

Ativistas veteranos e novos recrutas na causa pressionaram os formuladores de políticas a responsabilizarem os policiais violentos, a proibirem os estrangulamentos e os mandados que dispensam bater na porta, a mudarem o financiamento de agências que cuidam da aplicação da lei para os serviços sociais e acabarem com a prática de enviar policiais armados e perigosos para responder a incidentes em que o suspeito não esteja armado nem seja perigoso. Mas esses ativistas não estavam apenas defendendo algumas mudanças de política. Eles estavam exigindo a erradicação do racismo nos EUA de uma vez por todas.

O presidente tentou retratar as justas manifestações como obra de saqueadores e bandidos, mas muitas pessoas que as assistiam de casa não viam dessa maneira. Neste verão, a maioria dos americanos - 57%, segundo uma pesquisa da Universidade de Monmouth - disse que os policiais têm maior probabilidade de usar força excessiva contra os "culpados" negros do que contra os brancos. Isso representa um aumento, saindo de apenas 33% em dezembro de 2014, depois que um grande júri se recusou a indiciar um policial de Nova York pelo assassinato de Eric Garner.

Além disso, no início de junho, cerca de três em cada quatro norte-americanos estavam dizendo que "discriminação racial e étnica" é um "grande problema" nos Estados Unidos - percentual que era de apenas metade dos norte-americanos em 2015, quando Trump lançou sua campanha presidencial.

Seria fácil ver essas mudanças como o resultado direto dos horríveis eventos que ocorreram em 2020: uma pandemia que teve um efeito desproporcional nas pessoas não brancas; o vídeo de George Floyd morrendo embaixo do joelho de um policial impassível de Minneapolis; o terrível assassinato de Breonna Taylor, morta a tiros em sua própria casa.

No entanto, mudanças fundamentais nas opiniões dos norte-americanos sobre raça  já estavam em andamento antes que as disparidades da COVID-19 se tornassem claras e antes que esses exemplos mais recentes de violência policial aparecessem. A porcentagem de norte-americanos que disseram aos pesquisadores da Monmouth que a discriminação racial e étnica é um grande problema deu um salto maior entre janeiro de 2015 (51%) e julho de 2016 (68%) do que entre julho de 2016 e junho de 2020 (76%). O que estamos testemunhando agora é o culminar de um processo mais longo - um processo que acompanha de perto a carreira política de Donald Trump.

III.

Nos dias que antecederam o ataque de Trump a Omar, Pressley, Tlaib e Ocasio-Cortez, a Fox News atacou o “Esquadrão” [como é chamado o grupo das quatro parlamentares], especialmente Omar. Todas as quatro estavam discutindo publicamente com a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, sobre um pacote de ajuda às operações de fronteiras de US$ 4,6 bilhões que elas achavam que não restringia suficientemente as políticas de imigração de Trump.

Ainda assim, Pelosi defendeu prontamente suas colegas democratas em 14 de julho de 2019. “Quando @realDonaldTrump diz a quatro congressistas norte-americanas para voltarem a seus países”, Pelosi tuitou, “ele reafirma que seu plano de 'Make America Great Again' [tornar os EUA grandes novamente] sempre foi sobre tornar a América branca novamente.”

Sempre foi um insulto racial os norte-americanos brancos dizerem aos norte-americanos não brancos: "Voltem para o seu país". Porque seu país é Nova York, onde Ocasio-Cortez nasceu. Seu país é Detroit, a cidade natal de Tlaib. Seu país é a grande Boston, onde Pressley mora. O país delas são os Estados Unidos, para onde a família de Omar imigrou quando ela era jovem.

Enquanto os políticos democratas se enfureciam com o presidente naquele domingo, os republicanos ficaram em silêncio. “Tornou-se assustadoramente comum para muitos de meus colegas republicanos deixar esses momentos passarem sem dizer uma palavra”, disse o líder da minoria, Chuck Schumer, no plenário do Senado.

Para ser justo, na segunda-feira, alguns republicanos, incluindo os deputados Mike Turner, de Ohio, e Will Hurd, do Texas, chamaram os tuítes do presidente de racistas. Mas Trump, encorajado pelo silêncio do resto de seu colegas de partido, dobrou seus ataques.

“SE VOCÊS NÃO ESTÃO FELIZES AQUI”, Trump escreveu para as quatro mulheres no Twitter, “VOCÊS PODEM IR EMBORA.”

O Presidente acrescentou: “Se os democratas quiserem se unir em torno da linguagem obscena e de ódio racista expelido pelas bocas e ações dessas congressistas impopulares e pouco representativas, será interessante ver como isso vai se desenrolar.”

Na noite de segunda-feira, os democratas da Câmara deram um basta. Eles apresentaram uma resolução para condenar “veementemente” os tuítes racistas do presidente.

Trump acordou na manhã seguinte mais uma vez em um estado de negação raivosa. “Aqueles tuítes NÃO foram racistas”, ele tuitou. “Eu não tenho um osso racista no meu corpo!”

IV.

Para o bem ou para o mal, os norte-americanos veem a si próprios - e a seu país - no presidente. Desde os dias de George Washington, o presidente personificou o corpo norte-americano. O lema dos Estados Unidos é E pluribus unum - “De muitos, um”. O “um” é o presidente.

Para Trump, e para muitos de seus apoiadores, o corpo norte-americano deve ser um corpo branco. Quando lançou sua campanha presidencial, em 16 de junho de 2015, ele começou com os ataques a imigrantes não brancos e à pessoa cuja cidadania ele falsamente questionou: Barack Obama, apregoando o ‘birtherism’ como um mascate. [‘birtherism’ é o termo usado para designar a teoria da conspiração, popular na direita dos EUA, que alardeava que Obama não era norte-americano, mas que tinha nascido no Quênia] Todos eles estavam profanando o corpo americano. A respeito dos imigrantes mexicanos, ele disse: “Eles estão trazendo drogas. Eles estão trazendo o crime. Eles são estupradores.” De Obama, ele disse: “Ele tem sido uma força negativa. Precisamos de alguém que possa tomar a marca dos Estados Unidos e torná-la grande novamente.”

Trump se apresentou como esse alguém. Para tornar a 'América Grande Novamente" [MAGA, ou Make America Great Again], ele faria parecer que um homem negro nunca tinha sido presidente, apagando-o da história ao revogar e substituir suas conquistas, da Affordable Care Act [Lei de Planos de Saúde Acessíveis] ao DACA, Deferred Action for Childhood Arrivals [a política que adiava a ação da Imigração contra pessoas que não tivessem seus documentos em ordem, mas que tivessem chegado como crianças aos EUA]. Ele também construiria um muro para impedir a entrada de imigrantes e proibiria os muçulmanos de entrar no país.

Dias depois de propor pela primeira vez sua proibição da entrada de muçulmanos, em dezembro de 2015 - ainda no início de sua candidatura - Trump disse a Don Lemon, da CNN: “Sou a pessoa menos racista que você já conheceu”.

A negação de Trump foi audaciosa, mas, naquela época, sua audácia apenas contribuía para o sentimento complacente entre muitos norte-americanos de que esse intruso da televisão real não representava uma ameaça séria. No entanto, os norte-americanos que desprezaram as chances de Trump estavam, eles mesmos, vivendo na negação.

Para muitos, a presidência de Obama foi a prova de que o país estava alcançando seus ideais de liberdade e igualdade. Quando um homem negro ascendeu ao cargo mais alto do país, significava que a nação era pós-racial, ou pelo menos que a história estava inexoravelmente se curvando nessa direção. O próprio governo Obama se gabava de estar lutando contra os resquícios do racismo - uma operação de conclusão de uma guerra que estava praticamente ganha.

Eu estava menos otimista. Nos meses que antecederam a eleição de 2016, disse à família e aos amigos que Trump tinha uma boa chance de vencer. Ao longo da história norte-americana, o progresso racial normalmente foi seguido por seu oposto.

Por isso, fiquei feliz por estar sozinho na noite da eleição. Eu não queria ver as pessoas que eu amava chocadas com o fato de uma nação racista ter eleito um presidente racista. Em 8 de novembro de 2016, observei sozinho a chegada dos resultados, no sofá. Minha filha, Imani, estava dormindo em seu berço. Minha esposa, Sadiqa, estava no hospital, tratando de pacientes durante o plantão noturno no departamento de emergência pediátrica.

Fiquei acordado até 1h35, quando Trump levou a Pensilvânia, desliguei a televisão e liguei para Sadiqa para saber como estava seu plantão. Nossa conversa foi breve; ela tinha que voltar para seus pacientes. Mais tarde, eu leria sobre como, por volta de 2h50, Trump cumprimentou seus exuberantes apoiadores na cidade de Nova York com um discurso de vitória. Ele prometeu ser “um presidente para todos os norte-americanos”.

V.

Poucos dias depois de prestar juramento, Trump quebrou essa promessa. Ele reverteu o controle de dois projetos de oleodutos, incluindo um que passaria pelo meio da Reserva Indígena Standing Rock, que era contestada por mais de 200 nações indígenas. Ele emitiu ordens executivas determinando a construção de um muro ao longo da fronteira sul e a deportação de indivíduos que “representam risco para a segurança pública ou nacional”. Ele decretou sua primeira das três proibições à entrada de muçulmanos no país.

No final da primavera, o procurador-geral Jeff Sessions instruiu os promotores federais a buscar sentenças de prisão mais severas, sempre que possível. Sessions também estabeleceu as bases para a suspensão de todos os decretos instaurava supervisão federal para as agências de aplicação da lei que houvessem demonstrado algum padrão de racismo.

Liderado por Steve Bannon e Stephen Miller, o governo trabalhou em formas de restringir a imigração de pessoas não brancas. Havia um senso de urgência, porque, como Trump disse em uma reunião privada na Casa Branca em junho de 2017, os haitianos “todos têm AIDS” e os nigerianos nunca “voltariam para suas cabanas” quando viessem para os Estados Unidos.

Então veio Charlottesville. Em 11 de agosto de 2017, cerca de 250 supremacistas brancos marcharam no campus da Universidade da Virgínia, carregando tochas que iluminaram o céu noturno com racismo e antissemitismo. Manifestando-se contra o plano de Charlottesville de remover as estátuas em homenagem aos confederados. Eles gritavam: "Sangue e solo!" Eles gritavam: "Os judeus não vão nos substituir!" Eles gritavam: "Vidas brancas importam!"

Os supremacistas brancos entraram em confronto com manifestantes antirracistas naquela noite e na tarde seguinte. As vidas de brancos não importavam para o supremacista branco James Alex Fields Jr. Ele jogou seu Dodge Challenger contra uma multidão de Manifestante contrários, matando Heather Heyer e ferindo 19 outras pessoas.

“Condenamos, nos termos mais fortes possíveis, essa exibição flagrante de ódio, intolerância e violência em muitos lados, em muitos lados”, disse Trump em resposta. Ele falou sobre a existência de “pessoas muito boas” em “ambos os lados”.

Em 5 de setembro de 2017, Trump começou sua longa e malsucedida tentativa de eliminar o DACA, que adiou as deportações de cerca de 800.000 imigrantes sem document

os que chegaram aos EUA quando crianças. O governo Trump também começou a rescindir o Status de Proteção Temporária de milhares de refugiados de guerras e desastres naturais anos atrás no Sudão, Nicarágua, Haiti, El Salvador, Nepal e Honduras.

Perto do final de seu primeiro ano no cargo, Trump se perguntou em voz alta em uma reunião na Casa Branca: “Por que todas essas pessoas de países merdosos vêm para cá?” Ele estava se referindo ao Haiti, El Salvador e nações da África. Ele sugeriu que os EUA deveriam trazer mais pessoas de países como a Noruega.

Três dias depois, em 14 de janeiro de 2018, falando para repórteres em West Palm Beach, Flórida, ele foi novamente questionado se era racista. “Não, não sou racista”, respondeu ele. “Eu sou a pessoa menos racista que você já entrevistou.”

VI.

Os Estados Unidos, que negaram seu racismo durante os anos de Obama, têm lutado para negar seu racismo durante os anos de Trump. De 1977 a 2018, a Pesquisa Social Geral perguntou se os negros norte-americanos "têm piores empregos, renda e moradia do que os brancos ... principalmente devido à discriminação". Só há duas respostas para esta pergunta. A resposta racista é "não" — presume que a discriminação racista não existe mais e que as iniquidades raciais são o resultado de algo errado com os negros. A resposta antirracista é "sim" — presume que nada é certo ou errado, inferior ou superior, em qualquer grupo racial, então a explicação para as disparidades raciais deve ser atribuída à discriminação.

Em 2008, quando Obama estava indo para a Casa Branca, apenas 34,5% dos entrevistados responderam "sim", um número que chamarei de taxa antirracista. Esta foi a segunda menor taxa antirracista de todo o período de 41 anos em que a pesquisa é executada. A taxa subiu para 37,7% em 2010, talvez porque o surgimento do Tea Party forçou um acerto de contas para alguns norte-americanos brancos, mas caiu para 34,9% em 2012 e 34,6% em 2014.

Em 2016, enquanto Trump rondava a política norte-americana, a taxa antirracista subiu para 42,6%. Subiu para 46,2% em 2018, um aumento de dois dígitos em desde o início do governo Obama. Em grande parte, mudanças na opinião pública branca explicam o salto. A taxa antirracista branca era de apenas 29,8% em 2008. Saltou para 37,7% em 2016 e para 40,5% em dois anos na presidência de Trump.

Entre os que negam a existência do racismo, aqueles que culpam as pessoas não brancas pela desigualdade racial e injustiça, têm sido em sua maioria brancos, mas não exclusivamente. Entre 1977 e 2018, a menor taxa antirracista entre os entrevistados negros - 47,2% - ocorreu em 2012, o ponto médio da presidência de Obama. Essa taxa subiu para 61,1% em 2016 e 66% em 2018, uma oscilação de quase 20 pontos em relação aos anos Obama.

Tornou-se mais difícil, nos anos Trump, culpar os negros pela desigualdade racial e pela injustiça. Também tornou-se mais difícil dizer aos negros que a culpa é deles, e incentivá-los a melhorar sua postura, comportando-se de forma íntegra ou respeitável. Nos anos Trump, o problema é óbvio, e não é o comportamento dos negros.

VII.

Os Estados Unidos têm sido frequentemente chamados de uma terra de contradições, e com certeza, suas falhas estão ao lado de algumas conquistas notáveis - um New Deal para muitos norte-americanos na década de 1930, a derrota imposta ao fascismo no exterior na década de 1940. Mas em questões raciais, os EUA poderiam ser descritos de modo extremamente acurado como uma terra negaçionista. Uma nação massacrante que dizia preservar a vida, uma nação escravocrata que alegava valorizar a liberdade, uma nação hierarquizada que declarava valorizar a igualdade, uma nação que privava o direito de votar r se autodenominava uma democracia, uma nação segregada que se proclamava separada mas igual, uma nação excludente que se gabava de oferecer oportunidades para todos. Uma nação é o que faz, não o que originalmente alega ser. Muitas vezes, uma nação é precisamente o que ela se nega ser.

Houve um grande momento, no entanto, quando uma grande parcela de norte-americanos se afastou de uma história de negação racial. Na década de 1850, os proprietários de escravos expandiram seu alcance para o Norte. Seus caçadores de escravos, apoiados pelo poder federal, estavam substituindo a lei estadual e local para capturar fugitivos (e negros livres) que haviam escapado através da Linha Mason-Dixon. Pessoas anteriormente escravizadas como Frederick Douglass e Sojourner Truth, bem como jornalistas como William Lloyd Garrison, estavam em púlpitos em todo o Norte e Oeste descrevendo a brutalidade e a desumanidade da escravidão. Enquanto isso, os proprietários de escravos lutavam para expandir seu poder para o oeste — onde os brancos que não queriam competir com o trabalho negro escravizado estavam exigindo solo livre [de escravidão]. A partir de 1854, os proprietários de escravos entraram em guerra com adeptos do solo livre (e abolicionistas como John Brown) no Kansas sobre se o estado — e os Estados Unidos — seria livre ou escravocrata. A decisão de Dred Scott da Suprema Corte, em 1857, implicava que os negros e os estados do norte "não tinham direitos" que os proprietários de escravos fossem "obrigados a respeitar".

Os proprietários de escravos pareciam empenhados em espalhar suas plantations de costa a costa. Como resultado, mais e mais norte-americanos brancos tornaram-se antiescravismo, seja por preocupação com os escravizados ou por medo do poder do escravo invasor. Os negros norte-americanos, por sua vez, fugiam do país para o Canadá e a Libéria — ou permaneciam e pressionavam a causa do abolicionismo radical. Uma massa crítica de norte-americanos rejeitava a alegação do Sul de que a escravidão era boa e passou a reconhecer a instituição peculiar como completamente danosa.

As tentativas dos proprietários de escravos de perpetuar seu sistema saiu pela culatra; nos anos antes da Guerra Civil, a desumanidade e crueldade da escravidão tornaram-se descaradas demais para os nortistas as ignorarem ou negarem. Da mesma forma, o racismo de Trump — e o de seus aliados e facilitadores — tem sido muito flagrante para os norte-americanos o ignorarem ou negarem. E assim como a década de 1850 abriu caminho para a revolução contra a escravidão, a presidência de Trump abriu caminho para uma revolução contra o racismo.

VIII.

Em 16 de julho de 2019, a Câmara debateu duramente a resolução para repreender Trump por seus tuítes racistas contra as quatro congressistas não brancas. As quatro eram membros da classe mais diversificada de democratas da história norte-americana, que havia retomado a Câmara em um repúdio ao presidente.

"Todos os membros desta instituição, democratas e republicanos, devem se juntar a nós para condenar os tuítes racistas do presidente", disse Pelosi, presidente da Câmara. Os republicanos reclamaram em protesto. Pelosi virou-se para eles, voz subindo, e acrescentou: "Fazer menos seria uma rejeição chocante de nossos valores e uma abdicação vergonhosa do juramento que fizemos quando tomamos posse de proteger o povo norte-americano."

Os republicanos alegaram que Pelosi havia violado uma regra da Câmara ao caracterizar uma ação como "racista". Eles se mobilizaram para ter a palavra retirada do registro do Congresso.

A moção para alterar o registro falhou ao longo de ambas as linhas partidárias. "Eu conheço o racismo quando o vejo, conheço o racismo quando o sinto, e no mais alto nível do governo, não há espaço para o racismo", disse o representante John Lewis, ícone dos direitos civis, durante o debate.

Um após o outro, os republicanos se levantaram para defender seu presidente. "O que realmente aconteceu aqui é que o presidente e seus apoiadores foram forçados a suportar meses de alegações de racismo", disse o representante Dan Meuser, da Pensilvânia. "Esta calúnia ridícula faz um desserviço à nossa nação."

No final, apenas quatro republicanos e independentes solitários da Câmara votaram com todos os democratas para condenar o presidente dos Estados Unidos. Isso significa que 187 republicanos da Câmara, ou 98% da bancada, negaram que dizer, a quatro congressistas não brancas, para voltarem para seus países era racista. Eles acreditavam, como disse o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, que "o presidente não é racista".

Criticar publicamente o racismo do presidente teria sido criticar o seu próprio racismo. McConnell vinha matando silenciosamente projetos de lei antirracistas que saíam da Câmara desde janeiro de 2019, começando com o primeiro projeto de lei da Câmara, que visava proteger os norte-americanos contra a supressão de eleitores.

Um dia depois de ser repreendido pelos democratas da Câmara, Trump realizou o primeiro comício de sua campanha de reeleição. Ele passou grande parte de seu discurso em Greenville, Carolina do Norte, protestando contra as quatro congressistas. Enquanto ele enxovalhava Omar com uma rodada de ataques, a multidão começou a gritar: "Mande-a de volta! Mande-a de volta! Mande-a de volta!

Trump parou de falar. Ele não fez nenhum esforço para parar o grito da multidão à medida em que ele ficava mais alto. Ele se aproveitou da calúnia racial por 13 segundos.

Mande-a de volta! Mande-a de volta! Mande-a de volta!

Na quinta-feira, os republicanos foram rápidos em denunciar o coro. "Não há lugar para esse tipo de conversa", disse Tom Emmer, de Minnesota, a repórteres. Mas, acrescentou, "não há um osso racista no corpo do presidente."

Trump repudiou o coro de "mande-a de volta", mas na sexta-feira ele havia repudiado o repúdio ao corro, chamando os que gritaram a frase de "patriotas incríveis" e negando o racismo deles junto com o seu próprio. No entanto, muitos norte-americanos viram através dessas alegações manifestamente falsas. No final de julho, pela primeira vez, a maioria dos eleitores disse que o presidente dos Estados Unidos era, de fato, racista.

IX.

Pensei que compreendia o poder da negação por ter estudado a história das ideias racistas. Mas aprendi a entendê-lo de forma pessoal durante o primeiro ano da presidência de Trump. Em 2017, adoeci. Eu nunca tinha me sentido tão mal. Mas eu disse a mim mesmo que as idas de hora em hora ao banheiro não eram nada. O sangue não era nada sério. Ignorei os sintomas por meses.

Esperei até que a dor fosse insuportável antes de admitir que tinha um problema. E mesmo assim, eu não fui capaz de reconhecer isso sozinho. Minha parceira salvou minha vida.

Sadiqa viu a totalidade dos meus sintomas durante uma semana de férias durante o Ano Novo. Foi a primeira vez em meses que ficamos juntos o dia todo, todos os dias. Assim que voltamos para casa, em janeiro de 2018, ela me arrastou para o médico.

Eu concordei com a consulta, mas eu ainda não me permitiria o pensamento de que minha condição era grave. Eu não tinha nenhum dos fatores de risco comumente conhecidos para a pior possibilidade - câncer de colo. Eu tinha 35 anos, e me exercitava regularmente, não fumava, raramente bebia, e não tinha histórico familiar. Eu era vegetariano, pelo amor de Deus.

Agora percebo que estava envolvido em uma poderosa crise de negação. Os norte-americanos, também, podem facilmente invocar uma ladainha de razões que seu país não é racista: Olhe para os princípios iluminados sobre os quais a nação foi fundada. Veja o progresso que o país fez. Veja a eleição de Barack Obama. Olhe para os rostos escuros em altas posições. Veja a diversidade do campo democrático de 2020.

Mesmo depois que o médico encontrou o tumor, minha negação persistiu. Uma vez que aceitei que tinha câncer, estava convencido de que tinha que estar no estágio 1, por todas as razões que eu tinha sido convencido de que não tinha câncer nenhum. Uma cirurgia de rotina e tudo estaria em ordem, e então tudo estaria bem.

Temo que é assim que inúmeros norte-americanos estão pensando agora: a cirurgia de rotina — a derrota de Donald Trump nas urnas — curará o corpo norte- americano. Não há necessidade de olhar mais profundamente, nos departamentos de polícia, nas escolas, na habitação. Os norte-americanos estão agora reconhecendo o racismo, mas dizendo a si mesmos que o problema está contido? Eles estão dizendo a si mesmos que é um grande problema, mas que não pode ter se espalhado para quase todas as partes do corpo político? Será que esta será a nova forma de negação norte-americana?

Falsa esperança era meu novo normal, até deixar de ser. Quando examinaram meu corpo, os médicos descobriram que o câncer havia se espalhado. Eu tinha câncer de colo estágio 4. Eu tinha duas escolhas: negação e morte, ou reconhecimento e vida. Os Estados Unidos agora têm duas opções.

X.

As negações de Trump sobre seu racismo nunca vão parar. Ele continuará a afirmar que ama pessoas não brancas, as mesmas pessoas que suas políticas prejudicam. Ele continuará a chamar a si mesmo de "não racista", e devolver o termo descritivo racista para qualquer um que tenha a temeridade de apontar seu próprio preconceito. Trump espera claramente que ideias racistas — associadas com políticas destinadas a suprimir o voto — levem à sua reeleição. Mas agora que Trump empurrou uma massa crítica de norte-americanos a um ponto onde eles não podem mais explicar os pecados da nação, a questão é o que esses norte-americanos farão a respeito.

Um caminho para a frente leva a uma mera restauração. O vice-presidente de Barack Obama destitui Trump, removendo a maçã podre do barril. Com Trump despachado, a nação acredita que estará novamente indo na direção certa. Nesse caminho, os norte-americanos consideram o racismo um problema significativo. Mas eles negam a verdadeira gravidade do problema e a necessidade de uma ação drástica. Nesse caminho, monumentos ao racismo são desmantelados, mas os norte-americanos se furtam da incrível tarefa de remodelar o país com políticas antirracistas. Sem Trump, os norte-americanos decidem que não precisam mais ser ativamente antirracistas.

Ou os norte-americanos podem perceber que estão em um ponto sem retorno. Nada de voltar ao mau e velho hábito da negação. Nada de voltar ao cinismo. Não voltar ao normal — o normal em que políticas racistas, defendidas por ideias racistas, levam a iniquidades raciais.

Nesse caminho, o negacionismo de Trump terá mudado permanentemente a forma como os norte-americanos se veem. O efeito Trump será real e duradouro. O acerto de contas que testemunhamos nesta primavera e verão em manifestações públicas se transformará em um acerto de contas em legislaturas, em salas de alto executivos, em escritórios de admissão universitária.

Nesse caminho, o povo norte-americano exigirá resultados equitativos, não discursos que os façam sentir bem consigo mesmos e com seu país. O povo norte-americano dará aos formuladores de políticas um ultimato: usem seu poder para reduzir radicalmente a desigualdade e a injustiça, ou serão eliminados.

A abolição da escravidão parecia tão impossível na década de 1850 quanto a igualdade parece hoje. Mas assim como os abolicionistas da década de 1850 exigiram a erradicação imediata da escravidão, a igualdade imediata deve ser a demanda hoje. Abolir a violência policial. Abolir o encarceramento em massa. Abolir a disparidade de riqueza racial e a disparidade na alocação de financiamento escolar. Abolir barreiras à cidadania. Abolir a supressão de eleitores. Abolir as disparidades de saúde. Não em 20 anos. Não em 10 anos. Agora.

Ibram X. Kendi é um escritor colaborador da revista The Atlantic e professor da cátedra Andrew W. Mellon em Humanidades e diretor do Centro de Pesquisa Antirracista da Universidade de Boston. Ele é autor de vários livros, incluindo o vencedor do Prêmio Nacional do Livro, Marcado desde o início: A História Definitiva das Ideias Racistas na América e Como Ser Um Antirracista.

*Publicado originalmente em 'The Atlantic' | Tradução de César Locatelli

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