Pelo Mundo

O futuro de Julian Assange

Lenín Moreno entregou o fundador do WikiLeaks para se aproximar de Washington e se soltar definitivamente do legado de seu antecessor, Rafael Correa. Nos Estados Unidos, já se apresentou uma acusação por suposto complô. Falta saber se Trump pretende mesmo pedir a extradição de Assange

11/04/2019 14:29

 

 
Começam as horas cruciais para definir o destino de Julian Assange. Nesta manhã de quinta-feira (11/4), ele foi expulso da Embaixada do Equador em Londres. O presidente Lenín Moreno se encarregou de dar o anúncio. A justificativa para a decisão está baseada em supostas desobediências do asilado a um protocolo impossível de seguir (Assange estava proibido de opinar sobre qualquer assunto, e também o meio que ele fundou, o WikiLeaks, não podia publicar sobre temas de interesse do país). Portanto, a prisão tem razões claramente políticas, já que Moreno pretende, com isso, se aproximar dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, e se desmarcar definitivamente do legado anti-imperialista do seu antecessor, Rafael Correa.

Sua detenção em território britânico não deveria durar muito. Assange é acusado de um cuja pena não deveria ser necessariamente a prisão: violar as condições de sua liberdade condicional, baseada em uma ordem de captura do governo sueco, por uma investigação sobre supostos delitos sexuais, a qual já foi arquivada e na qual Assange nunca foi formalmente acusado. Se não há qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos, o processo deveria ser o seguinte: ele se apresenta ao juiz, dá sua declaração, paga uma multa e continua respondendo ao processo em liberdade.

Contudo, o mais provável é que os Estados Unidos intervenham sim no caso, e peçam a extradição de Assange, para enfrentar as acusações de espionagem, pelo vazamento dos cabos diplomáticos relacionados ao caso conhecido como “Cablegate”. Um jurado convocado na cidade de Alexandria, no Estado da Virginia – curiosamente, o distrito estadunidense onde convivem mais militares, espiões e policiais por metro quadrado – apresentou uma denúncia contra Assange por suposto complô, junto com sua fonte, a ex-oficial e ex-agente de inteligência Chelsea Manning, para extrair os cabos e publicá-los. Manning foi condenada a 35 anos se prisão por este caso, e logo perdoada durante o governo de Barack Obama depois de sete de prisão e torturas. Grande parte do juízo contra Manning girou em torno da dúvida sobre se o WikiLeaks havia sido um receptor passivo dos cabos ou se confabulou de alguma forma para obter o acesso a eles.

Embora seja tênue a linha que separa o jornalismo investigação e o terrorismo através do roubo de informações secretas – assim como a que diferencia a espionagem e a diplomacia – seria uma hipocrisia dizer que os jornalistas são meros receptores passivos dos segredos que esperamos que as fontes nos contem. Explicar a uma fonte como ela pode fornecer um material de forma segura e anônima não é o mesmo que tramar um plano criminoso para atingir um governo. Isso foi o que entendeu o promotor-geral de Obama, Eric Holder, e por isso ele se negou a avançar com a acusação contra Assange.

Em entrevista ao The Washington Post, ele disse que não poderia julgar Assange sem entrar em conflito com a primeira emenda da Constituição estadunidense, que garante a liberdade de expressão. Já durante o governo de Trump, as coisas começaram bem, porque as publicações do WikiLeaks sobre Hillary Clinton ajudaram o então candidato a ganhar as eleições. Na ocasião, o hoje presidente chegou a tuitar “Eu amo o WikiLeaks”. Mas as coisas mudaram rapidamente quando o sítio de Assange publicou o “Vault 7”, o maior vazamento de documentos da CIA na história da agência. A partir de então, o governo de Trump definiu o WikiLeaks não mais como um meio de comunicação, e sim como “um serviço de inteligência hostil, não estatal” e a investigação de Alexandria ganhou mais força, com novas medidas e convocação de testemunhas, incluindo Chelsea Manning, que se negou a declarar, e por isso teve que voltar à prisão, em março passado.

O futuro da causa agora passa pela Casa Branca. Caberá a Trump decidir se pede a extradição de Assange e inicia um julgamento que será histórico e seguido por todo o mundo. Seria um capítulo a mais na briga que o mandatário vem travando com os meios de comunicação e com as organizações de direitos humanos e liberdade de expressão em seu país. Ninguém ignora o fato de que praticamente todos os meios de comunicação do mundo publicaram as informações pelas quais Assange foi acusado, e que vários desses meios – incluindo The New York Times, The Guardian, El País e Página/12, entre outros – foram sócios do WikiLeaks em diversos projetos jornalísticos.

Além disso, o juízo serviria para gerar um grande debate sobre o que significa ser jornalista na era da internet, das redes sociais, da concentração midiática e dos mega vazamento, e quais são os limites ao direito a informar nas atuais sociedades democráticas, o que significa a noção de privacidade na era da hiper transparência.

Nas próximas horas, saberemos se Trump está disposto a permitir esse debate. Tudo parece indicar que é o tipo de conflito que ele gosta de encarar, e sabemos que Assange vem se preparando para este momento há muito tempo.

Sejam quais forem os próximos movimentos desse xadrez geopolítico, o fato é que em um dia como hoje, não se pode deixar de pensar que por trás da figura está um ser humano. Assange é um sujeito terno, astuto e com uma timidez bastante particular, e ao mesmo tempo obstinado, planificador, amante do queijo francês e do malbec argentino, que para poder publicar o que publicou, não teve medo de enfrentar o poderoso Pentágono, nem de queimar pontes com China, Rússia e a União Europeia, até ficar completamente isolado. Uma pessoa que passou seis anos e dez meses em um cativeiro atroz, vigiado, espionado, incomunicável. Aprendi muito com ele. Em um de nossos encontros, pudemos conversar durante 14 horas seguidas - Quatorze horas! –, acompanhados por seu pai, John Shipman, na sala de conferências da Embaixada do Equador. Em outra ocasião, me entregou uma frase que nunca esqueci: “conseguir informação é fácil, o difícil é publicá-la”.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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