Pelo Mundo

O governo do Reino Unido estava pronto para esta pandemia. Até que sabotou seu próprio sistema

Nós éramos o segundo país melhor preparado no mundo. Então Boris Johnson et al. deliberadamente nos desprepararam

20/05/2020 18:24

13 de março de 2020: quarto dia do festival de Cheltenham, 10 dias antes do início do lockdown no Reino Unido. (Andrew Matthews/PA)

Créditos da foto: 13 de março de 2020: quarto dia do festival de Cheltenham, 10 dias antes do início do lockdown no Reino Unido. (Andrew Matthews/PA)

 
Estamos presos em um túnel longo e escuro, com todas as saídas conhecidas bloqueadas. Não existe uma rota plausível para sair da crise do coronavírus no Reino Unido que não envolva sofrimento e morte em massa. Se, como alguns jornais e parlamentares conservadores insistem, o governo facilitar o bloqueio com a pandemia ainda em fúria, o número de mortos pode ser várias vezes maior do que o atual. Se, ao contrário, passarmos todos os meses quentes do ano em confinamento, o impacto em nossa saúde física e mental, empregos e relacionamentos pode ser catastrófico.

Foi-nos dito repetidamente que o Reino Unido não estava preparado para esta pandemia. Isso é falso. O Reino Unido estava preparado, mas depois se despreparou. No ano passado, o Índice Global de Segurança em Saúde classificou esta nação em segundo lugar no mundo em termos de prontidão para pandemia, enquanto os EUA foram os primeiros. De um modo geral, em ambas as nações os sistemas necessários estavam em vigor. Nossos governos optaram por não usá-los.

O modelador do clima James Annan usou seus métodos analíticos para mostrar o que teria acontecido se o governo do Reino Unido tivesse imposto seu bloqueio uma semana antes. Seu início em 16 de março, e não em 23 de março, sugere sua modelagem, teria, até o momento, salvo cerca de 30.000 vidas, reduzindo a taxa de doenças e mortes por coronavírus para um quinto.

Mas mesmo 16 de março teria sido extraordinariamente tarde. Sabemos agora que os ministros do governo foram informados em 11 de fevereiro que o vírus poderia ser catastrófico e que ações decisivas eram necessárias com urgência. Em vez disso, Boris Johnson nos disse para lavarmos nossas mãos e "seguirmos nossas vidas diárias normais".

Se o governo tivesse agido em fevereiro, podemos arriscar um palpite sobre qual teria sido o resultado, pois o mundo conduziu um experimento claro e controlado: avaliando a Coreia do Sul, Taiwan e Nova Zelândia contra o Reino Unido, os EUA e o Brasil. A Coreia do Sul fez tudo o que o governo do Reino Unido poderia ter feito, mas se recusou. Até agora, seu número de mortes: 263. Ela ainda apresenta um ou outro agrupamento ocasional de infecções, que prontamente contém. Por outro lado, todo o Reino Unido agora é um agrupamento de infecção.

Enquanto outros países fecharam suas fronteiras ou colocaram em quarentena todas as pessoas que chegavam, nos três meses entre o surgimento do vírus e o bloqueio do Reino Unido, 18 milhões de pessoas chegaram a essa terra, das quais apenas 273 ficaram em quarentena. Mesmo depois do anúncio do bloqueio, 95.000 pessoas entraram no Reino Unido sem restrições adicionais. Na verdade, em 13 de março, o Reino Unido abandonou até suas próprias orientações, que gentilmente solicitavam que viajantes da Itália e da China se autoisolassem. Essa decisão, tomada quando outras nações estavam intensificando seus controles, é incompreensível.

Da mesma forma, em 12 de março, Johnson abandonou a contenção e os testes e rastreamento em todo o país. Uma semana depois, o status da pandemia foi reduzido, o que significava que o governo poderia reduzir o padrão de equipamento de proteção individual exigido nos hospitais e transferir pacientes infectados para atendimento não especializado. Novamente, não havia justificativa médica ou científica para essa decisão.

O Exercício Cygnus, uma simulação de pandemia realizada em 2016, descobriu que os impactos nas casas de repouso seriam catastróficos, a menos que novas medidas fossem implementadas. O governo insiste que atendeu às conclusões deste exercício e mudou sua abordagem para estar de acordo com suas orientações. Se isso estiver correto, ao permitir que pacientes não testados fossem transferidos dos hospitais para os lares, sem fornecer o suporte e o equipamento extra necessários para os lares de idosos e permitindo que funcionários temporários, contratados de agências de emprego, se movimentassem livremente dentro e entre eles, violou conscientemente seus próprios protocolos. Dezenas de milhares de pessoas altamente vulneráveis foram expostas a infecções.

Em outras palavras, nada disso são falhas de conhecimento ou capacidade. São ‘des-preparações’, decisões conscientes de não agir. Elas começam a se tornar explicáveis apenas quando reconhecemos o que elas têm em comum: uma recusa em antecipar os custos. Essa recusa é comum em países cujos governos fetichizam o que chamamos de "mercado": o eufemismo que usamos para o poder do dinheiro.

O governo de Johnson, como o de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, representa um tipo particular de interesse econômico. Durante anos, políticos de sua espécie têm estado em conflito com pessoas que prestam serviços úteis: enfermeiros, professores, profissionais de saúde e outras pessoas mal remuneradas que mantêm nossas vidas pulsando, cujas tentativas de organizar e garantir melhores salários e condições são demonizadas pelos ministros e na mídia.

Esse conflito político é sempre travado em nome do mesmo grupo: aqueles que extraem riqueza. A guerra contra a utilidade é necessária se você a meta é privatizar serviços públicos, concedendo monopólios lucrativos ou disparando vendas de bens públicos a amigos do setor privado. Isso é necessário se você deseja manter baixos os salários do setor público e o salário mínimo, cortando os impostos e as contas para os mesmos financiadores e lobistas. É necessário que as empresas possam terceirizar e usar forças de trabalho de outros países, e as pessoas ricas possam levar suas receitas e ativos para o exterior.

Os interesses dos extratores de riqueza são, por definição, de curto prazo. Eles desviam dinheiro, que de outra forma poderia ter sido usado em investimento, para distribuição de dividendos e recompra de ações. Despejam custos, que deveriam legitimamente recair sobre as empresas, na sociedade em geral, na forma de poluição (carros e veículos) ou desastres de saúde pública (refrigerantes e produtores de comidas insalubres). Eles sugam dinheiro de uma empresa ou nação o mais rápido possível, antes que as autoridades fiscais, reguladores ou legisladores os alcancem.

Anos de experiência mostraram que é muito mais barato fazer doações políticas, empregar lobistas e investir em relações públicas do que mudar políticas comerciais lucrativas, mas prejudiciais. Trabalhando através da imprensa bilionária e dos sistemas políticos que são altamente vulneráveis a serem capturados pelo dinheiro, no Reino Unido, EUA e Brasil, eles ajudaram a garantir que pessoas negligentes e imprudentes fossem eleitas. Seus representantes escolhidos têm uma aversão quase instintiva ao investimento, a arcar hoje com um custo que pode ser adiado, atrasado ou repassado para outros.

Não é que nenhuma dessas empresas - seja o Daily Mail ou as empresas petrolíferas dos EUA - desejem que o coronavírus se espalhe. É que a abordagem que se mostrou tão desastrosa ao lidar com a pandemia foi altamente eficaz, do ponto de vista dos lobistas, quando aplicada a outras questões: adiar e frustrar ações para evitar o colapso do clima; poluição; a crise da obesidade; desigualdade; aluguel inacessível; e as muitas outras pragas espalhadas pelo poder corporativo e bilionário.

Graças em grande parte à sua influência, temos governos que, por construção, falham na proteção do interesse público. Este é o túnel. É por isso que as saídas estão fechadas. É por isso que lutaremos para emergir.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli



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