Pelo Mundo

O levante sírio pode levar a uma guerra regional

20/08/2011 00:00

Zvi Bar’el - Haaretz

Milhares de egípcios já assinaram uma petição que circula pelo Facebook que pede a expulsão do embaixador sírio no seu país. Pela primeira vez, não se trata de um embaixador de Israel que recebe tamanha atenção. Quem deu início à petição espera a assinatura de mais de um milhão de egípcios, o que pode pressionar o atual governo militar do Egito a condenar publicamente o presidente da Síria, Bashar Assad.

As páginas mais recentes no Facebook sobre a Síria decidiram usar o humor para recrutar pessoas da oposição, descrevendo ironicamente os acontecimentos recentes no país como tivessem ocorrido na Inglaterra, na Turquia. No entanto, a situação da Síria não é engraçada assim.

Nos últimos dias, o exército turco recrutou centenas de militares da reserva, situando-os em bases próximas à fronteira com a Síria. Fontes turcas informam que os militares estão em alerta máximo em toda a fronteira, para preparar um vôo massivo sobre os campos de refugiados da Síria, assim como para a possibilidade de a OTAN atacar o país. Só algumas horas depois do ministro de Relações Exteriores visitar Damasco foi que o governo entendeu que o ultimato do Primeiro Ministro Edrogan a Assad destinou-se a ouvidos moucos, depois das notícias de que a cidade de Homs estava sendo atacada pelas forças de segurança sírias.

Os protestos e o banho de sangue continuaram na sexta, quando militantes dos direitos humanos afirmaram que as forças de segurança atiraram e mataram 13 manifestantes. De acordo com informes, tiros foram disparados contra milhares de participantes de cidadãos que voltavam para casa depois da sexta-feira de orações na cidade de Dir al-Zur. Multidões foram para as ruas pelo país contra Assad.

Enquanto a Turquia se prepara para o pior, o Irã se recusa a publicar qualquer notícia relativa aos levantes árabes nos seus jornais controlados pelo Estado, enquanto o governo advertiu que a Síria pode se tornar o centro de uma guerra internacional. O Irã também transferiu aproximadamente 5 bilhões de dólares para a Síria nas última semanas e, de acordo com fontes iraquianas, o país solicitou ao Iraque que transferisse 10 bilhões de dólares ao governo Sírio.

O envolvimento do Irã, da Turquia, da Arábia Saudita e de outros países do Golfo transformaram o levante na Síria num acontecimento internacional – resultado da pobreza em massa, da opressão e da falta de futuro político e econômico no país – numa guerra regional potencial. A Síria, cuja importância estratégica está menos baseada em petróleo e recursos naturais, e mais em sua forte relação com o Irã e na capacidade de interferir nos assuntos iraquianos, tem se mostrado hábil em evitar um levante militar contra si. Ao contrário do imediato consenso internacional que autorizou uma ofensiva militar na Líbia, não tem havido iniciativa similar, no que concerne ao Conselho de Segurança da ONU, em relação a Síria.

Em contraste com a Líbia, em que a resistência das forças armadas poderia servir como uma alternativa de poder político, não há notícia para onde a Síria vai. Vai terminar ficando caótica como o Iraque, que padeceu com um período difícil de conflitos internos depois da queda de Saddam? Um novo regime sírio buscaria apoio do Irã ou do Ocidente? Será a Turquia capaz de confiar num novo regime que comporte um bloco militar sólido o suficiente para evitar que o Partido Curdo PKK tome o poder? O monarca saudita prefere um líder odiado, embora bem conhecido, com quem negociaria pesadas quantias em dinheiro? Essas questões também preocupam o Ocidente, que ainda não pediu que Assad deixe o seu castelo.

Na ausência de quaisquer pressões militares externas, e à medida que a Síria pode se amparar no poder iraniano de dissuasão, é difícil determinar se os dias de Assad estão contados. O exército sírio implementou a estratégia de separar o país em diferentes cidades isoladas, dando a cada uma um “tratamento” especial, que o governo espera sirva como lição para as outras cidades. Esta é a história do que está se passando em cidades como Dara, Dir al-Zur, Idlib, Hama e outras, que se tornaram essencialmente cidades-fantasma, ou áreas em que levar uma vida normal se tornou bastante difícil.

Essa estratégia, que presume que o levante durará ainda algum tempo, desenvolveu-se com força ao longo dos últimos 5 meses. O próprio Assad chegou a dizer que a rebelião pode durar mais de 2 anos. E a despeito do número de desertores (aproximadamente 2 mil), o presidente está sendo capaz de preservar a unidade nos fronts militares. Até agora, ao menos, é como se Assad estivesse aqui para ficar.

Tradução: Katarina Peixoto

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