Pelo Mundo

O mundo perdeu sua bússola

 

06/06/2019 10:30

 

 

A terrível sensação que tive ao despertar e ver os resultados das votações italianas nas recentes eleições europeias foi que, de repente, meu país se encheu de estranhos. Como a maioria dos italianos pode reconfirmar um governo que tem sido o mais ineficiente da história? Um governo que briga contra tudo e contra todos, que mostra total indiferença diante de um problema como a de projetar um orçamento que não choque com a União Europeia nem mortifique os próprios cidadãos italianos. O irresponsável debate que a atual gestão mantém sobre as finanças italianas levou a uma brecha de 290 pontos na margem financeira (diferença de valor) com os alemães.

Além disso, os resultados têm recompensado o Ministro do Interior, Matteo Salvini, que gastou em 17 dias, e em plena campanha eleitoral, os recursos que se utilizam durante quase todo um ano. Talvez por isso os italianos duplicaram os seus votos no seu partido: de 17% a 34%, enquanto reduziram pela metade o apoio aos seus desorganizados sócios governamentais do Movimento 5 Estrelas (cujo líder, Luigi Di Maio, chegou ao posto de vice primeiro-ministro, embora o único trabalho registrado em seu currículo seja o de administrado do estádio de futebol da cidade de Nápoles). Contudo, o que Salvini fez concretamente, além de bloquear portos para imigrantes, exibir rosários, bíblias e crucifixos nos comícios, e imitar a linguagem corporal de Mussolini?

Assim, fica claro que Salvini não está sozinho, e a minha geração, que se baseia nos valores consagrados na Constituição (solidariedade, justiça social, equidade, paz e cooperação internacional), não é capaz de entender os tempos em que vivemos. No dia 31 de outubro de 2017, o diário Corriere del Trentino publicou uma entrevista na que afirma que necessitávamos populistas no governo da Europa, o antes possível, para que se torne evidente que, embora suas denúncias sejam corretas, eles não têm as respostas aos problemas. E, quando o entrevistador observou que as próximas eleições que virão são as italianas, respondi que, como italiano, eu estava triste, mas como europeu estava feliz, porque os populistas italianos fracassariam miseravelmente.

Pois bem, sob a lógica normal eles realmente falharam. O caótico governo tem cumprido com poucos dos pontos apresentados em seu programa, e a Itália é o país europeu com um crescimento mais próximo do 0%. Contudo, a maioria da população italiana viu as coisas de outra forma... e isso leva a uma pergunta crucial.

Aqueles que lucham pela democracia (observem a Polônia e a Hungria, com a eliminação progressiva dos controles e equilíbrios, tribunais, imprensa, sistemas de ensino, etc.), pela transparência e responsabilidade (pensem na negativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em revelar sua declaração de impostos), pela justiça social (hoje, somente 80 multimilionários possuem tanto como 2,3 bilhões de pessoas), pela paz (a corrida armamentista alcançou cifra sem precedentes, de 1,7 trilhões de dólares em 2018), e assim sucessivamente, entendem realmente por que nos tornamos uma minoria em muitos países, e a nível global?

Antecipando a muito provável reeleição de Trump e o avanço de Marine Le Pen sobre Emmanuel Macron na França, estamos seguros de que entendemos a nova política e que podemos proporcionar uma resposta válida? A pergunta é ainda mais importante, porque a maré é impressionante. Atrás dos que já estão no poder (os Trumps, Orbans, Kaczynskis, Erdogans, Putins, Salvinis, Bolsonaros, Dutertes, etc.) se aproximam os que está a ponto de chegar (como Marine Le Pen, Geert Wilders, Jussi Halla-aho, etc.).

Claro que cada um deles está envolvido em uma realidade diferente. Se chamamos essa nova onda de “nacionalista”, deveríamos incluir outros exemplos, como Narendra Modi, Shinz%u04D Abe, Xi Jinping e a grande maioria dos cidadãos do mundo.

Ao menos na Europa, eles são chamados de soberanistas. Isso facilita a compreensão do seu pensamento, já que eles basicamente se identificam pelos seguintes pontos: a) nacionalismo com instintos racistas; b) xenofobia, dentro da qual incluem seu preconceitos contra diversas minorias, incluindo os LBGT; c) o uso da superioridade moral para representar o adversário como um inimigo do povo ao qual representam; d) a luta contra qualquer tratado ou estrutura internacional que, segundo afirmam, roubou a soberania do seu país; y e) repetição da máxima de Trump: meu país primeiro. Então, a luta não es entre a esquerda e a direita; é entre os que dizem defender sua nação e os que estão associados à globalização.

Por certo, esta é uma burlesca manipulação. As nações são a base sobre a qual construímos as relações internacionais, e são a base da nossa identidade. O nacionalismo é um extremismo construído sobre um conceito legítimo. E os princípios sobre os quais se construíram as Nações Unidas, por exemplo, foram o conceito de desenvolvimento, que é exatamente o oposto à globalização, no conceito e na estratégia para eliminar a soberania nacional e aproveitar ao máximo o livre fluxo de capitais e investimentos, e apoiar o sistema transnacional. O desenvolvimento foi um conceito baseado na ideia de que, no final, todos os que participaram nele alcançariam mais.

Um mundo no qual o custo da publicidade per capita supera o da educação, e o sistema financeiro alcança volumes 40 vezes superiores aos da produção de bens e serviços, é um mundo claramente contrário ao conceito de desenvolvimento. Claramente, não é possível encaixar o soberanismo num mundo com os paraísos fiscais recheados de ao menos 40 bilhões de dólares, cujos impostos, si fossem pagos às nações, somariam mais que o custo total de todos os programas a longo prazo das Nações Unidas.

E recordemos também que antes da crise econômica de 2008, criada por um sistema bancário corrupto, não havia nenhum partido soberanista com grande visibilidade, à exceção do de Le Pen na França. Entretanto, o novo sistema político mal tem podido lutar contra o dramático poder das finanças: o primeiro ano de governo de Trump teve um gabinete com a maior participação de banqueiros na história dos Estados Unidos (que depois foram substituídos por figuras militares).

Não contamos aqui com suficiente espaço para um debate conceitual. Simplesmente, prestemos atenção ao fato de que os eleitores parecem ter chegado ao ponto de ignorar o elemento mais básico da ação política: desconfiar de quem mentiu, independentemente de qual seja sua inclinação política. Mostrarei somente três exemplos sobre isso: Itália, Grã-Bretanha e Lituânia.

Como se sabe, a Itália agora vive uma recessão, sem crescimento à vista. O governo tenta ignorar o limite máximo de 3% de déficit orçamentário, imposto pela Comissão Europeia e seu Conselho de Ministros. Vale a pena recordar que o Conselho, formado pelos governos, é o organismo que toma as decisões que devem ser executadas pela Comissão Europeia. O Parlamento Europeu foi criado para introduzir o necessário princípio dos controles e balanços. Mas os políticos de todas as tendências apresentaram convenientemente outras medidas, e leis impopulares, aprovadas na reunião do Conselho e provenientes da Comissão.

Salvini e Di Maio se viram obrigados a improvisar de forma dissimulada, e diminuir o déficit do orçamento italiano, depois de terem tentado obrigar a Comissão a aceitar um orçamento desequilibrado. Agora, Salvini afirma que, junto com os demais soberanistas europeus, forçará a Comissão a mudar as regras e aceitar o próximo orçamento italiano, que não ignora a economia, mas sim as matemáticas.

Há poucos dias, houve um recente debate televisivo entre a recentemente nomeada vice-ministra de Economia, Laura Castelli – jovem graduada em administração de empresas, e Carlo Padoan, um respeitado economista, professor universitário, membro do Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Banco Mundial. Quando Castelli disse que não causaria temor e que a brecha financeira que separa a Itália da Alemanha seguiria crescendo, porque isso não teria nenhum impacto na economia real nem no aumento dos juros da enorme dívida italiana, Padoan tratou de correr para corrigi-la. Depois de certo tempo, o moderador tentou mudar de assunto, observando que Padoan era uma autoridade mundial no tema. A resposta de Castelli foi emblemática, a respeito da desconfiança dos novos políticos com as elites: “por que você estudou mais que eu? Isso significa você sabe mais?”.

Logo, parece que os italianos confiam mais em Castelli que em Padoan. Depois das eleições, Salvini anunciou que destinará 30 bilhões de euros para as políticas de redução dos impostos, um claro presente ao setor empresarial do norte da Itália. Isso significa ao menos novos 80 bilhões de euros em recursos para o próximo orçamento, o que é claramente impossível de viabilizar sem um aumento nos impostos e uma séria redução nos gastos atuais. Como de costume, a educação, a investigação e a saúde serão as árias mais afetadas, a menos que a União Europeia aceite deixar a regra de 3% de lado.

Enfim, aqui temos uma previsão fácil: Salvini descobrirá que seus companheiros de viagem, os soberanistas da Áustria, dos Países Baixos, dos países nórdicos e da Europa Central e do Leste, sem contar os da Alemanha, não aceitarão destinar seu dinheiro para salvar o orçamento italiano. Isso ajudará os italianos a entender que não é possível confiar mais nos mitos que nas realidades?

Salvini ganhou graças ao medo da imigração. Pois bem, segundo as Nações Unidas, a população italiana tem mostrado uma queda desde 2015. No ano passado, perdeu 160 mil pessoas, e as projeções dizem que perderá mais 1,8 milhão de pessoas até 2025. A Itália agora tem 5 milhões de estrangeiros, que incluindo 500 mil estudantes italianos nascidos de pais estrangeiros. Se estima que há 670 mil estrangeiros ilegais no país, contra os quais Salvini não tomou nenhuma ação real: sua carta eleitoral vencedora foi a de fechar os portos aos imigrantes. Entretanto, no governo anterior, a imigração era de apenas 119 mil pessoas, em 2017, e pouco mais de 20 mil, em meados de setembro de 2018. Os imigrantes representam 7,5% do total da população italiana, que em 2018 se estimou em 59,9 milhões (dos quais 71,8% são urbanos). Segundo as estadísticas oficiais, a Itália tem 1,6 mil mortes por dia, contra 1,3 mil nascimentos… e 22% das pessoas têm 65 anos ou mais, enquanto somente 13,5% é menor de 15 anos.

Os imigrantes africanos e árabes representam 1,5% da população italiana, e 2,5% da europeia. Contudo, segundo uma pesquisa, os italianos pensam que os imigrantes representam entre 15 e 25% da população. Além disso, eles acreditam que grande maioria dos imigrantes é muçulmana, mas na verdade a maioria dos imigrantes na Itália é católica-ortodoxa.

É claro que sem a imigração a economia italiana e seu sistema previdenciário não são viáveis. Porém, dizer isso é inaceitável… tampouco ajuda dizer que no Japão, país onde a identidade e a cultura são intocáveis, o envelhecimento da população e a perda da produtividade obrigaram Abe a aceitar a 230 mil imigrantes este ano.

O segundo exemplo é a Grã-Bretanha, terra da mãe dos parlamentos, considerado um país politicamente civilizado. Pois bem, todo mundo conhece a saga do brexit, mas o que é impressionante é que, nas recentes eleições europeus, Nigel Farage ganhou mais votos que os partidos Conservador e Trabalhista juntos. Sendo que criou o Partido Brexit há apenas seis meses. Farage foi fundamental para forçar o famoso referendo do brexit, em 2016, cuja campanha se baseou em muita informação claramente falsa, algo que o próprio Farage admitiu depois de vencer. Parte desta informação produzida e difundida por Farage apostava na exageração em nome da sensação de caos, como os 76 milhões de turcos que se uniriam à Europa e invadiriam o Reino Unido, embora a Turquia não tenha nenhuma possibilidade de se unir à União Europeia. O líder conservador Boris Johnson afirmava todas as semanas a Grã-Bretanha dava à União Europeia 350 milhões de euros, que deveriam mudar de destino, e ir ao Serviço Nacional de Saúde do país: outra cifra tão falsa que a mentira está sendo levado aos tribunais. Em 26 de maio, os britânicos deram a Farage 31,6% dos votos (os trabalhistas tiveram 14,1% e os conservadores 9,1%), e Boris Johnson está a ponto de se tornar o próximo primeiro-ministro. Claro que há muitas explicações para isso, mas todas excluem qualquer consideração sobre a elegibilidade de mentirosos comprovados.

O terceiro exemplo é a Lituânia, que teve eleições gerais pouco antes das eleições europeias. O país tinha 3,7 milhões de pessoas quando acabou a União Soviética. Em 2018, o número já é de quase a metade, apenas 2 milhões. A razão é a constante emigração, especialmente dos jovens. O partido da União dos Agricultores e Verdes começou a defender a bandeira contra a imigração, e venceu facilmente. No ano passado, a “invasão” foi, na verdade, de 54 mil pessoas, das quais 69% eram lituanos que regressavam. Dos imigrantes reais, todos basicamente da Europa Oriental e Central, os árabes da África foram um total de 208, dos quais 120 já abandonaram o país. Como desculpa para os lituanos, podemos dizer que o país tem uma história de invasões, repressão e resistência, e que a identidade é um sentimento forte, como em outras partes da Europa Central e Oriental.

Aliás, a Alemanha Oriental é o coração da extremista Alternativa para a Alemanha (AfD, por sua sigla em alemão) e tem poucos imigrantes, diferente do que acontece no lado ocidental, onde a AfD não teve muitos votos. Contudo, desde qualquer ponto de vista lógico, é difícil acreditar que os sentimentos e não a realidade possam desempenhar um papel primordial. É evidente que há muitas perguntas difíceis. Observemos a Ucrânia, onde 73% dos eleitores escolheu como presidente um comediante inexperiente, Volodymyr Zelenksy. Isso mostra que os sentimentos são, de fato, uma realidade. Mas então, por que nos Estados Unidos, berço do feminismo, as mulheres foram 43% das pessoas que votaram por Trump, escolhendo um conhecido mulherengo e defensor da misoginia e mulherengo?

Em outras palavras, a realidade já não é um fator nas eleições. Os sentimentos, por exemplo, são fatores mais importantes. Embora não tenhamos espaço para uma análise séria sobre isso, oferecemos algumas considerações sobre as quais podemos refletir:

1) Os historiadores concordam em dizer que a cobiça e o medo são provavelmente os mais importantes elementos provocadores de mudanças. Se é assim, recordemos que com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e com as ideologias declaradas mortas, os vencedores introduziram a globalização como a rota para a qual não havia alternativas. Esso preceito foi incluído no chamado Consenso de Washington, que reduziu a função do Estado na medida do possível, para dar lugar a uma maior liberdade ao movimento de capitais. Os gastos sociais passaram a ser considerados improdutivos, e eliminou-se a diferença entre os bancos de depósito e os bancos de investimentos, o que deu origem ao sistema de finanças que temos agora. Entre outras mudanças favoráveis à cobiça não regulada, entre as quais não podemos deixar de mencionar a Terceira Via de Tony Blair, quando a esquerda aceitou a globalização para dar a ela um rosto humano, menos daninho. O resultado foi uma separação da esquerda europeia de sua base, e a progressiva desaparição de um debate baseado nos valores que colocavam os humanos no centro, dando lugar a novos valores: a competição, o sucesso individual, a riqueza como base das relações sociais e os mercados como centro das relações internacionais.

2) Isso tudo foi acompanhado por um declínio do multilateralismo, da paz e da cooperação internacional. Os Estados Unidos foram o principal motor para a criação das Nações Unidas, com um compromisso de proporcionar sua sede e pagar 25% do orçamento. Porém, em 1981, Ronald Reagan tomou distância do órgão, declarando que seu país não podia aceitar ter só um voto, como os demais, e que não aceitaria resoluções vinculantes de uma maioria composta por países menores. Logo, Trump veio com a última gota: a campanha “América Primeiro”, que na verdade significa “América Sozinha”, predicando que os Estados Unidos não têm amigos ou aliados, que só servem para limitar a sua ação. Este foi o ato final contra o multilateralismo.

3) Em 2008, a crise do sistema bancário estadunidense se estendeu por todo o mundo, criando uma onda de temor, desemprego, queda dos salários, perda dos postos de trabalho e precariedade, tudo o que o sistema político não foi capaz de enfrentar – em grande medida, porque sua dimensão global ia além da sua capacidade de resposta nacional, além da clara deterioração da sua competência política. Isso acontecia por causa de um aumento da corrupção, à medida que a política se limitava a curto prazo e se orientava a problemas administrativos, sem nenhum parâmetro ideológico.

4) Trump criou uma situação favorável à Nova Direita (ou Direita Alternativa, como chama Steve Bannon), livre das considerações morais e éticas que surgiram da II Guerra Mundial. A Nova Direita pode conduzir uma política baseada na cobiça e em muito mais medo, utilizando os imigrantes e as minorias como o inimigo que é preciso combater para defender as identidades e histórias nacionais. Esta narrativa criou novas divisões: mundo rural contra o urbano; a elite como inimiga das pessoas comuns; qualquer acordo internacional é visto como camisa-de-força da nação; a recuperação de um passado glorioso como base para o futuro. Trump legitimou o comportamento que antes se considerava inaceitável e, durante seu muito provável segundo governo, mudará ainda mais o mundo que foi criado a partir das ruínas da II Guerra Mundial.

5) A Internet seguiu um curso equivocado. Em vez de ser o novo instrumento para a comunicação horizontal e o intercâmbio de ideias, se transformou em um criador de mundos virtuais e fragmentados, onde as pessoas se agrupam ao longo de linhas partidárias e já não intercambiam pontos de vista e ideias. É cenário de insultos e de ódio, manejados por identidades falsas e através de notícias falsas, onde os cidadãos são vendidos como consumidores por uma série de algoritmos baseados na maximização dos lucros. Criou as maiores fortunas da história da humanidade: bilionários que não se sentem responsáveis pelos valores e interesses sociais. Isso ajuda a criar uma perda na qualidade do debate político, levando a que o sentimento e a agressividade tomem o lugar da racionalidade política. Trump tem 60 milhões de seguidores no Twitter, mais que todos os meios estadunidenses juntos. Essas pessoas não compram jornais, e acreditam no que Trump diz. Isso é o que o levará à reeleição, a menos que cometa um erro gravíssimo, e isso que conta com uma tolerância cada vez mais alta.

Vamos parar por aqui. É verdade que há muitos outros pontos de reflexão, mas qualquer que seja essa reflexão, deve considerar que as ideias políticas vêm e vão, como a História nos comprova. Certamente, o soberanismo não está tão estruturado como o comunismo ou o fascismo. Em outros tempos, era normal que os políticos escrevessem livros. Agora, Trump inclusive se gaba de não os ler, para evitar que suas ideias sejam influídas. A Nova Direita está basicamente livre de conteúdo, embora seja especialista em mobilizar os sentimentos das pessoas. Portanto, esta onda também terminará.

A pergunta é: a humanidade saberá criar, depois, um novo sistema político baseado em valores? E será que a Nova Direita criará guerras e derramará sangre com seu nacionalismo extremo, antes que seu declínio aconteça? Observando a mobilização a respeito da crise climática, liderada por uma adolescente sueca que é uma carta vencedora nas eleições europeias, há razões para alimentar a esperança (embora a questão climática tenha se tornado, somente agora, tema importante para a esquerda).

Nós enfrentamos um risco dramático: se fracassamos, uma vez que a mitologia do soberanismo se derrube diante uma realidade dramática, e sem apresentar soluções, é possível que as pessoas que perderão a esperança e a confiança na política busquem a saída do caos no “homem providencial”, como o Papa Pio XI chamava Mussolini.

Roberto Savio, presidente de OtherNews, é um economista e jornalista ítalo-argentino, além de especialista em comunicação, comentarista político, ativista pela justiça social e climática, e defensor de uma governança global anti neoliberal. Também é diretor de relações internacionais do Centro Europeu pela Paz e o Desenvolvimento. É co-fundador da agência de notícias Inter Press Service (IPS), a qual dirigiu durante quase quatro décadas, sendo atualmente o seu presidente emérito.

*Publicado originalmente em other-news.info | Tradução de Victor Farinelli


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