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O passado do Oriente Médio nunca está morto

A normalização das relações entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (seguida rapidamente pelo Barém) indica que o Oriente Médio está passando por uma mudança estratégica de paradigma com os palestinos deixados para fora no frio. Mas qualquer um que pense que o conflito mais antigo da região foi descartado, deveria pensar de novo

27/10/2020 13:36

(Michele Tantussi/Pool/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Michele Tantussi/Pool/AFP via Getty Images)

 
BERLIM – As imagens eram chocantes. No início de outubro, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha Heiko Maas visitou o memorial do Holocausto em Berlim com seus homólogos israelense e emiradense. Que jeito melhor de celebrar a recente normalização das relações entre Israel e os EAU? Na realidade, o estabelecimento dos laços diplomáticos com base nos Acordos de Abraão desse verão teve pouca relação com honra ao passado. O acordo é uma tentativa de escapar da história por completo.

Por boa parte da minha vida, o conflito israelense-palestino era uma questão decisiva no Oriente Médio. Da perspectiva ocidental, garantir o direito de existência a Israel era um jeito de recompensar uma dívida histórica ao povo judeu: Israel, como lar do povo judeu do mundo todo, era uma garantia contra o futuro anti-semitismo. Mas no mundo árabe, o desalojamento dos palestinos em 1948, e a experiência atual da ocupação israelense desde 1967, foram um grito de guerra perpétuo de regimes sucessivos, muitos dos quais capitalizaram com o sofrimento palestino para desviar a atenção dos seus próprios fracassos em casa.

Com essas linhas desenhadas na areia, a sabedoria convencional era a de que ambos israelenses e palestinos precisariam ser compensados por erros históricos de maneira a garantir estabilidade e paz no Oriente Médio. O conflito israelense-palestino foi a chave para destravar um processo de normalização diplomática ao longo da região. Com isso, ao concordar em normalizar relações com Israel na ausência de um acordo para os palestinos, os EAU oficialmente varreram toda essa história para debaixo do tapete. Sua aceitação do Acordo de Abraão, que foi rapidamente adotado pelo Barém, marca uma mudança de paradigma regional.

Nos últimos anos, as percepções de ameaça das elites árabes mudaram. Se seu inimigo principal nos anos 60 e 70 era Israel, hoje é o Irã, seguido pela Turquia. Enquanto os EUA saíram da região, muitos líderes do Golfo começaram a acreditar que um eixo com Israel será crucial para salvaguardar seus interesses. E nas ruas árabes – onde boa parte da população não tinha ainda nascido quando Yasser Arafat e Yitzhak Rabin concordaram com uma solução de dois estados – a opinião pública seguiu o mesmo caminho. Além disso, nos últimos anos, os palestinos foram vítimas de outras ondas de opressão e violência, seja no Iraque depois da invasão dos EUA, na Líbia com Muammar el-Qaddafi, ou nos conflitos no Iêmen e na Síria.

A liderança dos EAU é surpreendentemente honesta sobre sua decisão de selar a paz com Israel. Enquanto continua a apoiar a ideia de um estado palestino, não confia mais na capacidade da liderança palestina de aproveitar efetivamente o apoio emiradense. Em resposta, críticos palestinos argumentam que os EAU jogaram fora a carta mais poderosa que poderia ser usada em seu benefício. Mas a realidade é que os EAU, como a maioria na região, possuem interesses que vão além da criação de um lar palestino. Fortalecer laços com os EUA, e garantir jatos de combate F-35 feitos nos EUA, são prioridades maiores. Como disse o príncipe saudita Bandar bin Sultan bin Abdulaziz esse mês, “a causa palestina é só uma causa, mas seus defensores são fracassados, e a causa israelense é injusta, mas seus defensores provaram ter sucesso.”

De sua parte, os israelenses esperam que o Acordo de Abraão abra o caminho para uma nova onda de normalização com outras potências árabes, de modo que a estrada para a segurança regional não corra mais por Jerusalém. Ao separar a questão palestina das relações com outros países da região, Israel conseguiu transformá-la em um mero problema interno. A posição da “comunidade internacional” sobre a questão será agora mais difusa, e, com isso, mais fraca. Com cada novo acordo de normalização que Israel assegura, ganhará um apoio cada vez mais explícito do mundo árabe.

Os acordos com os EAU e o Barém, com isso, são tidos como um triunfo para o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu e sua política da última década. Mas Netanyahu faria bem em lembrar que uma vitória no Oriente Médio sempre contém as sementes do seu desfecho. Se ele fizer da solução de dois estados algo impossível, ele terá preparado o terreno para um desafio ao futuro de Israel enquanto um estado democrático de maioria israelense.

Afinal, se os palestinos não podem mais negociar pelo seu próprio estado, sua melhor alternativa será perseguir uma solução de um estado pressionando por direitos civis dentro de Israel. De acordo com o perfil demográfico da ONU de 2019 sobre os territórios palestinos, existem cinco milhões de palestinos que potencialmente se uniriam aos 1.916.000 árabes que moram em Israel, com isso superando o número de judeus israelenses (6.772.000).

Considerando o quão ineficaz e dividida é a liderança palestina, um desafio organizado parece improvável. Ainda assim, bem antes de os palestinos se tornarem capazes de ganhar uma maioria eleitoral em Israel, uma liderança mais competente poderia começar a levantar sérios questionamentos sobre a saúde da própria democracia israelense. Tais argumentos iriam reincitar debates sobre se Israel é um estado segregacionista, potencialmente levando a uma renovação da pressão internacional. E isso, em troca, pode ter implicações amplas no modo como as potências se relacionam com Israel, sobretudo a União Europeia, que é responsável por cerca de um terço do comércio total do país.

Por essas razões, analistas israelenses de segurança nacional argumentam que se uma solução de dois estados não é possível, Israel deveria desenvolver uma solução não negociável, ao estabelecer um estado palestino unilateral viável. Mas essa aproximação parece exigir uma completa reconfiguração da ocupação à interesse da maximização dos colonos, que pode fatalmente prejudicar a legitimidade de qualquer eventual estado palestino. É por isso que outros líderes israelenses com uma visão mais estratégica – incluindo seis ex-diretores do Mossad – começaram a procurar meios de desenvolver um estado real para os palestinos por meio de um processo de desocupação.

Se Netanyahu falhar em desenvolver um estado palestino viável, sua fuga da história pode provar ser bem curta. Como observou William Faulkner, “o passado nunca está morto. Nem é passado ainda”.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares





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