Pelo Mundo

O peronismo não kirchnerista com cada vez menos espaço

O voto opositor cresce cada vez mais, segundo o revelado na última pesquisa do instituto CEOP exclusiva para o Página/12. Dois de cada três argentinos avaliam mal a gestão de Mauricio Macri, cujo teto eleitoral é mais baixo que o de Cristina Kirchner. Os setores peronistas reunidos chegam a ter 40% de voto favorável. Especulações sobre Lavagna, Solá, Urtubey e Rossi

11/02/2019 08:59

 

 
Cresce a intenção de votos a favor da oposição. Cai o apoio eleitoral ao macrismo, e dentro dos sectores que nos últimos anos estiveram mais próximos do governismo, se desinflou o que se chama da Argentina de “avenida do meio”, as opções centristas, que hoje são representadas pela frente Alternativa Federal. Os movimentos eleitorais não são bruscos, mas no meio desta cena continua sendo evidente os efeitos do desgaste da economia, dos quais se queixam 8 de cada 10 argentinos. Isso afeta de maneira notória a imagem do presidente Mauricio Macri, avaliado negativamente por 2 de cada 3 argentinos. Hoje, o mandatário tem menos imagem positiva que sua antecessora. Cristina Fernández de Kirchner está exposta aos bombardeios dos aparatos judiciário, midiático e político, aliados da coalizão macrista. O impactante disso tudo é que se fale tanto do “teto eleitoral” da ex-presidenta, embora Macri tenha agora um teto que é 7 pontos mais baixo que o dela.

As conclusões surgem da pesquisa mensal, exclusiva para Página/12, realizada pelo Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP), comandado por Roberto Bacman. No total, foram 1123 entrevistas (feitas por telefone) em todo o país. O CEOP respeitou as proporções por idade, sexo e nível socioeconômico.

INTENÇÃO DE VOTO POR CANDIDATO



Bacman analisa que “como ponto de partida, vale a pena mostrar que perdura a tendência que favorece amplamente a oposição, e é a mesma evolução observada no mês anterior, com mais de 50% dos eleitores dizendo que votariam por uma candidatura opositora, enquanto pouco mais de 30% se inclinariam por uma opção ligada ao governo, uma predisposição que até o momento parece não se modificar: o voto opositor tende a crescer (quase nove pontos mais que em março de 2018) e o voto oficialista perdeu quase cinco pontos durante a corrida cambiária (que começou no final de abril)”. Segundo o sociólogo “embora o macrismo tenha conseguido alguma recuperação do apoio depois da primeira corrida, o fato é que depois passou a mostrar claros sinais de estagnação, a partir de 2018. Se consideram a composição do voto opositor, os dois setores do peronismo justos representam uma maioria, somando entre ambos cerca de 40% das intenções”.

Massa em menos

Na comparação dos últimos dois meses, o CEOP percebe uma queda da frente Alternativa Federal (peronismo centrista). Quando seu candidato é Sergio Massa, esse bloco cai de 13,1% a 8,6. É uma campanha que recém começa, e certamente pode mudar, mas parece haver certa deterioração. Na oposição, Cristina Kirchner aparece com uma intenção de votos de 34%. O analista do CEOP vê essa questão da seguinte forma: “O saldo a favor do espaço liderado por Cristina é de mais de 4 contra 1, em cada 5. Nada é produto do acaso: governadores que começam a abandonar seus projetos pessoais (um deles é Juan Manzur, de Tucumán) e até as duras críticas de Roberto Lavagna no ato de Mar del Plata, a respeito do relançamento da sua frente. Sem dúvidas, é um problema difícil de solucionar”.

As outras quatro alternativas opositoras – Nicolás Del Caño (Frente de Esquerda, socialista), Margarita Stolbizer (Encontro Nacional, socialdemocrata), José Luis Espert (Partido Libertário, neoliberal), Alfredo Olmedo (Agora Pátria, ultranacionalista de extrema direita) – têm cada um cerca de 2%, porcentagem que pode diminuir ainda mais devido à polarização que costuma de agudizar com a aproximação do período de campanhas presidenciais.

IMAGEM DE MAURICIO MACRI



“Cristina continua liderando a intenção de voto das presidenciais, incluso potenciando a sua própria marca de Unidade Cidadã, e crescendo quase três pontos com relação no final do ano passado”, analisa Bacman.

“Embora Mauricio Macri também tenha crescido alguns pontos, também devido ao efeito polarizador que vemos presente, Cristina aumenta a diferença a seu favor e começa a se diferenciar, e a sair da zona de empate técnico. É mais que evidente que Mauricio Macri está sendo afetado pelo impacto da economia nas vidas das pessoas. Como já mostramos, a frente Alternativa Federal começou a sentir os efeitos da polarização. Em tal sentido, Sergio Massa consegue superar essa porcentagem, mas a diferença com Cristina ainda é alta, inclusive mais significativa que no mês anterior”, completa o sociólogo.

Este quadro pressagia que a furibunda campanha judiciária-midiática-política contra a ex-presidenta tende a se intensificar, com uma provável pressão do comitê político do macrismo que funciona dentro da sede do Poder Judiciário, em Comodoro Py, e pressiona os juízes que lideram as causas ligadas a Cristina Kirchner. Aliás, ela está citada para dois depoimentos na Justiça Federal, nos dias 25 e 26, quando estará sentada no banco dos réus, acusada por casos relacionados a obras públicas na Província patagônica de Santa Cruz. Aquela ameaça de “fazê-la passar todos os dias pelos tribunais está se tornando realidade. O modelo parece ser o do Brasil. Lula está preso por um apartamento que não está em seu nome e que nunca habitou. Nos últimos dias, recebeu outra sentença, por reformas em uma casa que não é dele, que nunca esteve em seu nome, e que só visitava porque era de propriedade de um amigo. É preciso ver quanto poderá suportar Cristina, e especialmente quanto dessa investida quase diária da Casa Rosada poderão suportar os seus potenciais eleitores.

Núcleo duro

Vale a pergunta de como se sustenta o voto em Macri diante de semelhante quadro econômico. “Que características tem esse eleitorado que ainda continua apoiando fielmente a Macri, mesmo com a economia atravessando uma de suas crises cíclicas?”, questiona Bacman. “É um eleitorado substancialmente de direita e centro-direita, nutrido por dois tipos de perfis: por um lado, os radicais mais de direita conservadora, e por outro, os velhos liberais, os produtores agropecuários e a nova direita associada ao corporativismo empresarial e ao sistema financeiro dos nosso país. Esse núcleo duro de sustentação ideológica, que jamais poderia chegar a votar em um candidato populista, peronista ou kirchnerista, é consciente da gravidade da situação econômica, das dificuldades, da instabilidade na que se vive em nosso país. O kirchnerismo para eles é um palavrão e Cristina é o símbolo do mal. Jamais votariam por ela, tampouco em alguém parecido”, agregou.

SE A ELEIÇÃO FOSSE NO PRÓXIMO DOMINGO, VOCÊ VOTARIA POR UM CANDIDATO GOVERNISTA OU OPOSITOR?



Para Bacman, “hoje Macri tem 30% de intenção de voto e este núcleo duro representa pouco mais que o seu piso, que é de cerca de 25%. É verdade que existem votantes vulneráveis muito afetados pela economia, mas também é real o fato de que a questão ideológica e o ódio político seguem tendo uma importante incidência no cenário”.

Sem Cristina

“Na hipótese de que Cristina Kirchner e Sergio Massa desistam ou não possam seguir na disputa eleitoral, não se detecta um dirigente que, de forma mais contundente, concentre a maior parte das intenções”, analisa Bacman.

“Com percentuais muito menores, aparecem diferentes expressões do peronismo, como Roberto Lavagna, Felipe Solá, Juan Manuel Urtubey e Agustín Rossi. Cada um deles possui fortalezas e debilidades: Roberto Lavagna é um candidato com boa imagem positiva, mas ainda não vê essa simpatia a seu favor refletida em intenções de voto. É visto mais como uma espécie de `ministro de Economia de luxo´, más que como candidato à Presidência”. Felipe Solá continua em sua batalha por se posicionar como o candidato que melhor interpreta a oportunidade de potenciar o consenso opositor, caso Cristina não seja candidata, e recebeu o apoio de dirigentes peronistas e organizações sociais. Agustín Rossi é percebido como muito próximo a Cristina e Juan Manuel Urtubey é uma incógnita. É preciso ver como eles tentam resgatar os votos de Sergio Massa, se este também decide não se apresentar”.

Bacman finaliza com a seguinte observação: “em um possível segundo turno, o cenário se torna imprevisível, e até o momento é difícil estimar. Se o segundo turno for entre Cristina Kirchner e Mauricio Macri, a situação se mantém em empate técnico (em comparação com a medição anterior). Obviamente, a situação de Cristina melhorou, já que até outubro do ano passado ela perdia por cerca de 5 pontos. Por outro lado, o atual presidente se mostra estagnado”.

Na medição anterior, o CEOP avaliou as chances dos demais candidatos em um segundo turno: Lavagna, Solá, Rossi, Massa e Urtubey. Todos têm possibilidades contra Macri. Partem de uma situação na que estão alguns pontos atrás do presidente, mas com altas chances de crescer. Nesta medição, o CEOP testou apenas Lavagna, que começaria um possível segundo turno com uma desvantagem de 33% a 29%, o que é absolutamente reversível.

Perguntas

Duas grandes dúvidas complicam todo o quadro do macrismo. Em primeiro lugar, o que acontece com as candidaturas que não estão definidas. Em segundo lugar, a existência ou não de um voto oculto.

CENÁRIOS DE SEGUNDO TURNO



O CEOP mostra que entre os indecisos tanto a imagem de Macri quanto a de Cristina é negativa. Por enquanto, esses cidadãos afirmam que não votarão ou anularão o seu voto. Bacman não arrisca prognóstico sobre esse quase 20%, que diz não saber, ou que prefere não responder.

A questão então abre uma segunda dúvida, sobre a existência ou não de um voto oculto, especialmente a favor de Cristina. Gente que não assume abertamente que apoiará a ex-presidenta, mas que poderia fazê-lo num último minuto, se a vê como a melhor alternativa de mudança. O analista considera que a polarização provocou um forte sentimento de ódio contra Cristina, mas que, ao mesmo tempo, há um impacto tremendo da situação econômica, e acredita que este é um processo que só vai se mostrar mais claro com o decorrer dos meses, pois tudo dependerá dos sinais que continuarão chegando da economia. Mesmo o sujeito que está dominado por certo ódio poderia se inclinar a favor de uma alternativa – neste caso, o peronismo, e diretamente Cristina –, que alivie a angústia econômica.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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