Pelo Mundo

O povo o invoca, companheiro Allende!

 

11/09/2020 17:14

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Salvador Allende foi, sobretudo o companheiro presidente da pessoas boas, essas que ainda o mantêm em sua memória, as que jamais o traíram, as que guardaram, em segredo, um pequeno retrato seu, as que acenderam uma vela a cada ano neste dia da infâmia, as que ainda se emocionam com seu discurso direto e sem sombras.

As que não tergiversam o seu exemplo.

Salvador Allende, é antes de tudo, uma forma de compreender a lealdade ao extremo, de oferecer sua vida por quem acreditou em seu compromisso. Para aqueles que renunciaram aos privilégios da sobrevivência fácil e confortável, de quem evita a morte em meio a explicações covardes e renúncias miseráveis.

Salvador Allende encarnou o esforço centenário de um povo atormentado pela exploração, pobreza e desespero, em seu projeto, manteve sua palavra de lutar por eles, algo que nunca aqueles miseráveis que se atrevem a atacar sua memória!

O governo de Salvador Allende foi derrubado pelo ódio centenário de uma direita ruim e covarde, entregue ao império inimigo dos povos, e não tanto por seus erros ou falhas.

A recente paralisação de caminhoneiros ocorrida no Chile, em agosto de 2020, lembrou precisamente como foi aquele dos sindicatos da época, que fez estourar a frágil economia assediada pelo império. A ambição sempre desmedida dos ricos e a sabotagem criminosa, executada ou ordenada por alguns que hoje se apresentam como democratas.

E também por pressão de muitos que se diziam seus amigos.

Também, aliás, por muitas incertezas e cálculos que, ao longo da história, se mostrariam errôneos, como a crença na honestidade dos generais e o descaso das Forças Armadas, que são, até hoje, o braço armado dos poderosos.

A ideia de que uma revolução desarmada era possível parecia certa, mas só foi mesmo até o momento em que foi necessário armar o povo.

Um custo enorme foi pago, por não levar em consideração o direito legítimo do povo de defender seu governo, sua vida, sua liberdade e a dignidade de um país atacado por potências estrangeiras, com a aprovação e colaboração dos traidores que juraram defendê-lo todos os anos, até dar sua vida se necessário.

Definitivamente, não houve três anos mais extraordinários do que aqueles em que cada dia era como o primeiro, e, ainda assim, parecia ser o último.

Nunca os trabalhadores tiveram a chance de tomar seu destino em suas próprias mãos.

Nunca, como naquele então, as mulheres foram integradas em um processo político, na perspectiva do respeito aos seus direitos. Nunca, como naquele então, os camponeses tiveram uma verdadeira justiça no acesso à terra. Nunca as crianças haviam sido as primeiras prioridades das políticas públicas. Nunca a juventude chilena brilhou tanto. Nunca se tentou um entendimento real da dívida do Estado com o povo Mapuche. Nunca a cultura do povo cumpriu tão plenamente sua função libertadora.

Vista em um formato ideológico, nunca na história a luta de classes no Chile se expressou de forma mais aguda do que naquele breve período.

A direita (que é a mesma de agora) e o imperialismo dos Estados Unidos (que é o mesmo de antes) interpretaram o momento histórico melhor do que muitos setores esquerdas.

Eles perceberam que, se não reagissem de forma brutal e definitiva, o processo de mudança chileno não poderia ser interrompido, nem por seus próprios erros. E eles agiram de acordo às circunstâncias.

Esse suposto patriotismo da fachada e de esgoto, que só serve para gargarejar, propositalmente confundido com mesquinhos interesses, servia para justificar o mal, a crueldade e a covardia.

Só um soldado sem honra é capaz de atacar um prisioneiro rendido, desamparado, ferido e à beira da morte.

Salvador Allende, na sua última hora, se entregou completamente ao exemplo.

Não tinha muito mais como legado para seu povo, que não o traiu, que o defendeu dia após dia durante a ditadura, e que pagou o maior preço, na forma de sofrimento e morte. Embora muitos daqueles que se diziam seus amigos, logo o trairiam.

Haverá um futuro Salvador Allende, uma bela maneira de homenagear seu exemplo, as crianças vão sorrir de alegria, contagiadas pela coragem de um homem que ficou sozinho e que, ainda assim, entendeu o que o futuro reservava, e não desistiu.

Há uma memória genuína e pura de Salvador Allende nas pessoas mais humildes e silenciosas. Em meio à dor de suas infinitas mortes e castigos, viverá o prestígio de uma enorme humanidade que ainda não se desdobrou com todas as suas forças, pelas misérias que não conseguimos varrer.

Haverá também uma vingança de Salvador Allende pelas ruínas do fogo que jamais foram recuperadas no reconstruído Palácio de La Moneda, deixadas no dia da infâmia e da vergonha. Mas a criança que um dia irá para a escola feliz e segura também contará como vingança o fato de que sua memória não conhecerá o medo ou a fome.

Todas as honras ao homem que continua a ser um exemplo que o covarde não consegue entender. Toda a honra aninhada no colo da mulher que acreditou firmemente na sua franqueza, nas pessoas que viram, em seu martírio, o reflexo de tudo aquilo pelo que vale a pena lutar.

Honra e glória a esse homem ao qual o povo invoca como seu companheiro!



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