Pelo Mundo

O presidente mais perigoso de todos os tempos ameaça não deixar o cargo, de novo

 

21/07/2020 17:28

Trump no gabinete da Casa Branca (Jim Watson/Getty Images)

Créditos da foto: Trump no gabinete da Casa Branca (Jim Watson/Getty Images)

 
Donald Trump fez uma entrevista de uma hora na Fox News, com Chris Wallace, no domingo (19) e, se você acha que essa frase é chata de ler, imagine como é escrevê-la para ganhar a vida, de novo. Trump aparecer na Fox News é o equivalente a notícias como "Sol nasce no leste"; o homem não deu uma entrevista a um canal, que não fosse a da Fox, desde que Deus ainda usava calças curtas, por toda uma galáxia de razões profundamente covardes. Nada aparece nessas conversas em espaço seguro, e presumi que a de domingo não seria diferente.

Eu estava errado.

Primeiro de tudo, Chris Wallace veio para o jogo no domingo. Um grupo pateticamente pequeno, mas crescente, de republicanos finalmente está pressionando a presidência 'bola de demolição' e, durante uma hora no domingo, Wallace foi a voz deles. Trump, que claramente esperava receber uma série de perguntas sobre sua cor favorita, não estava preparado para ter suas falas confrontadas com a verdade, logo que começou com seu besteirol padrão. No momento em que terminou, Trump tinha entregado o que pode ser avaliado como o pior uso da mídia de toda a sua presidência até hoje, e amigos, isso realmente quer dizer algo.

Ele estava zangado. Ele estava suando. Ele estava na defensiva, surpreso por ter que fazer mais do que simplesmente desenrolar outra longa narrativa sobre sua grandeza. “A entrevista de Trump para Chris Wallace, da Fox, foi um evento doloroso do começo ao fim”, relata o jornal The Washington Post. “Wallace é sempre um entrevistador bom e duro, ao contrário dos âncoras da Fox que Trump frequenta, e ele está sempre preparado, mas essa entrevista foi em outro nível.”

A certa altura, Trump teve que perguntar à secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, enquanto ainda estava sendo focalizado pela câmera: "Você pode me dar as taxas de mortalidade?" porque Wallace não iria deixá-lo se safar com outro de seus refrões do tipo "Tudo está ótimo", que servem de substitutos para o diálogo real. "Não é verdade, senhor", insistiu Wallace na questão do aumento das mortes por COVID em todo o país. "Tivemos - tivemos 900 mortes em um único dia."

Lembra-se quando George HW Bush foi marcado por não saber quanto custava um galão de leite? Como isso foi estranho. Ali estava esse infeliz, suando através do pancake de sua maquiagem, incapaz de se lembrar imediatamente quantas pessoas haviam morrido sob sua supervisão. Wallace, por sua vez, esperou como um gato siamês infinitamente paciente, contorcendo a cauda, até Trump conseguir soltar os números errados e explicados incorretamente. Não muito tempo depois, Trump chamou Wallace de “fake news”. Foi assim.

Desde a questão da bandeira confederada - "eles amam a bandeira deles" - até o Black Lives Matter - "a coisa toda com o cancelamento da cultura, não podemos cancelar toda a nossa história” - Trump bateu em retirada para o terreno seguro do nacionalismo branco e da política de lamúrias. Além de suas respostas mais grotescas para o assunto do desaparecimento da COVID-19, Trump disse:

"Eu estarei certo no final. Você sabe que eu disse: 'Isso vai desaparecer'. Eu direi novamente. Vai desaparecer e eu vou estar certo ... Você sabe por quê? Porque estive certo, provavelmente mais vezes do que qualquer outra pessoa."

"Trump defende a gestão incorreta da pandemia de coronavírus com falsidades e alegações dúbias", diz uma manchete do Washington Post sobre a entrevista. Isso, ali mesmo, é cooperação profissional em nível mundial. Ele mentiu e falou bobagens para Wallace por uma hora com suor escorrendo pelo rosto. Ele era o homem mais culpado da América, e isso ficou evidente.

Ele estava zangado. Ele estava suando. Ele estava na defensiva, surpreso por ter que fazer mais do que simplesmente desvendar outra longa narrativa em seu registro contínuo de grandeza.

Mas não foi até Trump dizer que não aceitaria o resultado da próxima eleição presidencial que meus ouvidos realmente se animaram. “Quando Wallace perguntou a Trump se ele se considerava um perdedor 'bom' ou 'nobre', o presidente respondeu que não gosta de perder'', relata o Post. "Então ele acrescentou:'Você não sabe até ver. Depende. Acho que a votação por correspondência vai permitir a manipulação da eleição. Eu realmente acho'." Wallace pressionou: - "Você está sugerindo que pode não aceitar os resultados da eleição?" Trump respondeu: - "Não, eu tenho que ver."

Há uma história aqui. "Se tudo isso lhe parecer indevidamente paranoico", eu escrevi em março de 2019, "convido você a fechar os olhos e pensar em tudo o que aconteceu desde que a escada rolante dourada se moveu, quase quatro longos anos atrás. Pergunte a si mesmo: Você esperava que Donald Trump ganhasse a presidência? Em algum momento, mesmo por um momento, Donald Trump já colocou os melhores interesses do país na frente dos seus próprios? Um homem que engaiola crianças [migrantes] para marcar pontos com sua base tem um centro moral em que se pode confiar? Você realmente acha que ele é incapaz de deixar o país em pedaços, a fim de se apegar ao que ele acha que lhe pertence?"

Não estou sozinho em minha preocupação. “Quanto mais próxima a derrota, mais desesperada a agonia de uma administração perturbada”, escreve David K. Shipler para o Washington Monthly. "A administração investe sobre alavancas de poder e propaganda. Mina instituições que estão acima da política. Difama médicos que trabalham para a saúde pública. Ela tenta ocultar dados de pandemia, no estilo soviético. Emite decretos absurdos aos conselhos escolares locais para abrir no outono ou então. Envia forças federais não identificadas para sequestrar manifestantes pacíficos. Debate-se contra medidas para facilitar a votação. E estes são apenas os presságios. Um espasmo final - se for final - parece provável."

Há, é claro, remédios para esse golpe de último suspiro de Trump, caso ele sofra uma derrota em novembro. "O povo americano decidirá esta eleição", respondeu a campanha de Biden após a declaração de Trump no domingo. "E o governo dos Estados Unidos é perfeitamente capaz de escoltar invasores para fora da Casa Branca."

É justo, mas o dano que esse homem pode causar, se deixar marcas de garras nos batentes das portas no caminho de saída da ala oeste, vai durar muito além de seu mandato. Basta perguntar a Portland se você duvida. O período de tempo entre novembro e janeiro será uma das fases mais perigosas pelas quais este país já passou. A hora de nos prepararmos é agora.

*Publicado originalmente em 'Truthout' | Tradução de César Locatelli





Conteúdo Relacionado