Pelo Mundo

O primeiro cidadão ilustre do Mercosul

Em 2008, Galeano recebeu, de forma inédita, a distinção do bloco regional, e fez um inesquecível discurso. Leia aqui.

16/04/2015 00:00

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Créditos da foto: Arquivo

Em 2008, Galeano recebeu, de forma inédita, a distinção do bloco regional, e fez um inesquecível discurso, no qual disse ser um “patriota de várias pátrias”. “Somente sendo juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amaestrou para o medo, a resignação e a solidão, e que cada dia nos ensina a que nos desamemos”, expressou.

Por Eduardo Galeano

Nossa região é um reino de paradoxos.

Brasil, para ir caso a caso: paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas formações da arte da época colonial; paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomelite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais graça ofereceu em toda a história do futebol e, paradoxalmente, quando completou cem anos de idade, Oscar Niemeyer era mais novo e mais jovem arquiteto brasileiro.

Ou falemos do caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres deram fim a uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia se burlou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda Bolívia terminou jejuando com elas, ate a ditadura cair.

Eu conheci uma dessas cinco teimosas, Domitila Barrios, na pequena vila mineira de Llallagua. Numa assembleia de operários de minas, todos homens, ela se levantou e fez todos se calarem.

Quero dizer com isso que nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso principal inimigo é o medo, esse que levamos dentro de nós.

E anos depois, reencontrei a Domitila em Estocolmo. Foi expulsa da Bolívia, terminou no exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava sua liberdade, mas eles lhe davam pena, tão solitários que eram, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E lhes dava conselhos:

– Não sejam bobos – dizia ela – juntem-se. Nós, lá na Bolívia, nos juntamos. Nem que seja para brigar, nos juntamos.

E quanta razão ela tinha. Por que, me pergunto eu, existem os dentes, se não se juntam na boca? Se existem os dedos, por que não se juntam as mãos?

Estar juntos: e não somente para defender o preço de nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor de nossos direitos. Bem juntos estão, ainda que de vez em quando simulem rancores e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. Sua riqueza come pobreza e sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, para dar um caso exemplar, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta na cara dos necessitados, quando eles retribuem a visita. Essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que poderia parecer inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região forma parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas só sendo juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos vem amaestrando para o medo e a resignação e a solidão, e que cada dia nos ensina a desamarmos a nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

Durante toda a primeira metade do Século XIX, um venezuelano chamado Simón Rodríguez (NOTA TRADUÇÃO: não será Bolívar? Simón Rodríguez morreu 115 anos antes da Guerra do Paraguay, e não 15, como o texto diz) andou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os donos do poder:

– Vocês – clamava dom Simón –, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o que eles têm de mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, ninguém escutava esse homem que merecia tanto ser escutado. Paradoxalmente, o chamaram louco, porque tinha a sanidade suficiente para crer que devemos pensar com nossas próprias cabeças, porque era são o suficiente para propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que qualquer um engana aquele que não sabe, e qualquer um compra aquele que não tem nada. Cometia a sanidade de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:

– Não somos donos de nós mesmos – dizia – somos independentes, mas não somos livres.

Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano que de verdade era livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula de uma dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de “impostação”.

Paradoxalmente, ao cabo de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte, sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios haviam nascido da língua que lhes deu o nome, entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E os paraguaios ainda falam em guarani na hora de dizer a verdade, na hora do amor e do humor.

Em guarani, ñeñé significa palavra, e também significa alma. Quem com a palavra mente trai também a alma.

Se te dou minha palavra, te dou a mim.

Um século depois da Guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu a si mesmo.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas em terra. Ele havia dito:

– Daqui eu não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase frequente. Já foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para seguir pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile se chama, ainda, 11 de Septiembre. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Se chama assim em homenagem aos carrascos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, me atrevo a perguntar, por puro sentido comum: não seria a hora de mudar esse nome? Não seria a hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra? (nota da tradução: evidentemente se chamava assim quando Galeano escreveu e pronunciou esse discurso, mas teve seu nome alterado em 2013, hoje se chama Nueva Providencia)

E saltando a cordilheira, me pergunto: por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem esse costume de continuar nascendo? Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais traem o seu legado, mais ele renasce. O homem mais nascedor de todos.

E me pergunto: não será por que ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso segue sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os feitos muito raramente se encontram, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?

Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar esta viagenzinha pelas terras da região, evocando a um homem nascido, como eu, aqui pertinho, no Uruguai.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar uruguaia não pode encontrar nenhuma frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar o mausoléu erguido, para ofender a sua memória, com datas e nomes de batalhas.

A ele, que se negou a aceitar que nossa pátria se rompesse em pedaços, a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que escrevi a ele faz algum tempo:

Era 1820, quando você cruzou a fronteira do Boquerón. Sem olhar para trás, se submergiu no exílio. Eu o vejo, o estou vendo: se desliza pelo Paraná com a paciência de um lagarto e se afasta flameando seu poncho rasgado, trotando o cavalo, e se perde mata adentro.

Você não diz adeus à sua terra. Ela não acreditaria. Ou talvez você não saiba, ainda, que está partindo para sempre.

A paisagem vai ficando cinza. Você vai, vencido, e sua terra fica sem fôlego.

Poderão lhe devolver a respiração os filhos que dela nasçam? Os amantes que nela cheguem? Quem dessa terra, quem nessa terra entre? Serão dignos de tristeza tão profunda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você aqui sempre será tão necessário, dom José. Cada vez que os gananciosos a machuquem e a humilhem, cada vez que os tontos pensam que ela é muda ou estéril, você fará falta. Porque você, dom José Artigas, general dos mais humildes, é a melhor palavra que ela já disse.



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