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O que Biden deve aos palestinos

Ao contrário da crença popular, um acordo permanente do conflito Israel-Palestina não é uma causa perdida. Mas exigirá liderança corajosa e resoluta dos EUA. Permanece um mistério se o presidente eleito Joe Biden fornecerá isso, mas prometer garantir que Israel imediatamente pare a construção dos assentamentos nos territórios ocupados seria um bom começo

20/11/2020 16:39

(Nedal Eshtayah/Anadolu Agency via Getty Images)

Créditos da foto: (Nedal Eshtayah/Anadolu Agency via Getty Images)

 
AMÃ – Quase três anos atrás, o presidente palestino Mahmoud Abbas tomou o passo extraordinário de encerrar todas as negociações com o presidente dos EUA Donald Trump, devido ao seu explícito viés pró-Israel. Com o presidente eleito Joe Biden, a liderança palestina está esperançosa com a volta das negociações. No topo de sua agenda estará o fim das construções de assentamentos israelenses ilegais em território palestino nos territórios ocupados.

O viés da administração de Trump a favor de Israel não poderia ter sido mais explícito. Aqueles que comandaram o “processo de paz” – como o genro de Trump, Jared Kushner, e o embaixador David Friedman – apoiaram publicamente a construção dos assentamentos israelenses e violações aos direitos humanos palestinos.

Não surpreendentemente, o chamado plano de paz que esse time estabeleceu concedeu praticamente tudo o que Israel queria, enquanto não ofereceu concessões aos palestinos. Ao invés, a administração Trump tentou comprar o consentimento dos palestinos – ou sua rendição – com promessas de investimento. Ao invés de se submeter, Abbas cancelou as discussões com os EUA – uma decisão incrível quando consideramos que, nos anos 80, os palestinos imploravam por conversas diretas com os líderes estadunidenses.

Mas Abbas não teve opção. Com a principal superpotência mundial ao seu lado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e seu governo de direita não precisaram da aprovação dos palestinos para iniciar a construção do assentamento e preparar o terreno para mais. Nos últimos meses, Israel vem conduzindo muitas demolições de lares e estruturas palestinas.

Não há dúvidas de que tais atividades violam a lei humanitária internacional. O Conselho de Segurança da ONU confirmou tal fato quatro anos atrás, quando unanimemente aprovou a Resolução 2334. O preâmbulo da Resolução condenava explicitamente “todas as medidas focadas em alterar composição demográfica, caráter e status do território palestino ocupado desde 1967”, incluindo “a construção e expansão de assentamentos” e “a demolição de casas e desalojamento de civis palestinos”.

Ainda assim, a administração Trump permanece comprometida a apoiar as violações de Israel. Mike Pompeo secretário de Estado, que pode estar analisando sua própria candidatura à presidência para 2024, está pronto para visitar um assentamento israelense ilegal na Cisjordânia ocupada, tornando-o o primeiro secretário de Estado dos EUA a fazer isso. Essa é uma violação explícita da Resolução 2334, que pede que os países “façam a diferenciação, em seus acordos relevantes, entre o território do estado de Israel e os territórios ocupados desde 1967”.

Desde a traição da administração Trump, os palestinos têm se defendido sozinhos. Em protesto à atividade de assentamentos de Israel, eles se recusaram a aceitar impostos coletados por Israel em seu nome – uma decisão que, junto com uma redução dramática do auxílio dos EUA, colocou a Autoridade Palestina à beira da falência.

Isso mostra quão crucial é a questão do assentamento para os palestinos – e por uma boa razão. Além de violar lei internacional e os direitos dos palestinos, a expansão dos assentamentos impede o estabelecimento de um estado palestino independente com as fronteiras pré-1967.

Felizmente, existem sinais promissores de que Biden terá uma abordagem bem diferente da do seu antecessor. A Resolução foi aprovada porque a administração do presidente dos EUA Barack Obama, em seus dias finais, decidiu não vetá-la. A ordem veio de Susan Rice, a conselheira nacional de segurança de Obama na época, que agora supostamente está na lista para a secretaria de Estado de Biden.

É claro, o próprio Biden era vice-presidente na administração Obama, e em 2014, ele disse à Netanyahu, “Eu não concordo com nada do que você diz”. Outras opções para a administração de Biden – incluindo o futuro chefe de gabinete Ron Klain – se opõem à atividade ilegal de assentamentos israelense.

Abbas claramente espera que isso significará progresso. Depois de parabenizar Biden pela vitória, Abbas pediu que sua administração “fortaleça as relações palestino-americanas”, busque “liberdade, independência, justiça e dignidade” para os palestinos, e “trabalhe pela paz, estabilidade e segurança para todos” no Oriente Médio e no mundo.

Mesmo antes de Biden ser eleito, Abbas estava tentando iniciar o progresso. Em seu discurso na Assembléia Geral da ONU em setembro, ele pediu ao quarteto – EUA, Rússia, UE e ONU – para realizar uma conferencia internacional no ano que vem para “engajar em um processo genuíno de paz, baseado na lei internacional, resoluções da ONU, e em termos relevantes de referência, levando ao fim da ocupação”.

Para realizar tal conferência, e mesmo produzir resultados, nos primeiros dias da administração Biden é um pedido exigente. Mas não é insensato esperar que a nova administração implemente a Resolução imediatamente – e isso significa terminar com a construção de assentamentos israelenses.

Ao contrário da crença popular, um acordo permanente do conflito Israel-Palestina não é uma causa perdida. Mas exigirá liderança corajosa e resoluta dos EUA. Permanece um mistério se o presidente eleito Joe Biden fornecerá isso, mas prometer garantir que Israel imediatamente pare a construção do assentamento nos territórios ocupados seria um bom começo.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares

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