Pelo Mundo

O que Roosevelt faria?

 

20/03/2020 16:07

(MPI/Getty Images)

Créditos da foto: (MPI/Getty Images)

 
O governo dos EUA deve empenhar todos os esforços para mitigar as consequências econômicas do COVID-19, não apenas desembolsando dinheiro para todas as famílias, mas também implementando uma garantia federal de emprego e muitas outras políticas que há muito deveriam ter sido adotadas. Afinal, para um governo autofinanciado, dinheiro não é restrição.

As consequências da pandemia de coronavírus não serão nada semelhantes às da crise financeira de 2008, nem será alcançada uma recuperação em forma de V por meio de estímulos convencionais - nem mesmo por estímulos convencionais realmente massivos. Estamos em guerra com o COVID-19 e, em tempos de guerra, a produção civil para e o único trabalho necessário é o próprio esforço de guerra.

Além disso, infelizmente é necessária uma recessão para impedir a propagação deste vírus. Nos Estados Unidos, mais de 50% dos trabalhadores empregados correm risco de demissões, licenças não remuneradas, redução de salários e redução do número de horas trabalhadas. Praticamente todos os setores da economia estão em um situação em que é provável que percam grande parte de seus negócios, a renda das famílias será devastada e os gastos de consumidores e empresas diminuirão rapidamente. O colapso nas manufaturas já começou; a economia de serviços, que emprega 80% de todos os trabalhadores, será a próxima.

Uma pandemia, portanto, levará a outra - de desemprego. A avalanche de demissões trará uma onda de inadimplência, falências e lucros deprimidos. O efeito dominó continuará em muitos domínios, desde o colapso das receitas fiscais estaduais e municipais e as insolvências nos negócios até as comunidades empobrecidas, qualidade de saúde em declínio, falta de moradias e as “mortes do desespero”.

Como os governos deveriam responder? Da mesma forma que o governo dos EUA fez sob o presidente Franklin D. Roosevelt na era da Segunda Guerra Mundial.

A primeira prioridade é se mobilizar. Isso significa a construção de hospitais de campo temporários, clínicas drive-through e centros de saúde de emergência. Significa aumentar a produção de equipamentos e medicamentos essenciais, prover os serviços de saúde de pessoal adequado e estabelecer serviços de apoio aos famintos, desabrigados e mais vulneráveis. E significa destacar um exército para desinfetar aeroportos, escolas e locais públicos críticos.

Segundo, precisamos facilitar a permanência das pessoas em suas casas, com a implementação de diferimentos de dívida de curto prazo (inclusive para pequenas empresas e empréstimos hipotecários) e a suspensão das contas de serviços públicos, como alguns países europeus já estão fazendo. Os governos também devem fornecer apoio à renda na forma de seguro-desemprego estendido, vale-refeição e benefícios de moradia. Nos EUA, todos os requisitos de trabalho para se ter acesso aos benefícios públicos devem ser abolidos e o governo federal deve estender assistência financeira imediata aos governos estaduais aprisionados por leis que exigem equilíbrio orçamentário.

O pacote de resposta ao coronavírus recentemente adotado pelos EUA está longe de ser suficiente. Tal como está, a legislação ainda deixará 80% dos trabalhadores do setor privado sem cobertura médica e sem licença médica remunerada. A provisão para testes gratuitos não oferece consolo para aqueles que já estão gravemente enfermos ou que perderam seu seguro de saúde como resultado do desemprego.

Os EUA devem usar esta ocasião para estabelecer uma licença universal paga e um sistema universal de saúde permanentes. Outra prioridade é fornecer apoio financeiro emergencial às famílias. A conversa sobre um desembolso universal de US $ 1.000 deixou os americanos animados - US$ 2.000 seria melhor. Mas a ajuda em dinheiro por si só não será suficiente. Pelo contrário, sem as disposições mencionadas e medidas ousadas para tapar o buraco no mercado de trabalho deprimido, grande parte do pagamento em dinheiro será desperdiçado.

Quando as perspectivas de emprego e renda são incertas, enviar dinheiro para as famílias é como derramar água em um balde com vazamento. Os EUA e outros países realmente precisam de políticas para criar bons empregos depois que a crise passar.

É por isso que, depois de tomar todas as medidas necessárias para hoje, os governos devem se mobilizar novamente. Somente um governo grande, grandes investimentos públicos e grandes programas de emprego público garantirão uma rápida recuperação, em vez de outra demorada saída do desemprego. Na última crise, grande parte do estímulo alimentou a disparada da desigualdade; desta vez precisa ser diferente.

A situação exige não "empurrões" ou "incentivos", mas ações diretas aos moldes do New Deal [o programa proposto e executado por Roosevelt para sair da Grande Depressão dos anos 1930], do Sistema Rodoviário Interestadual dos EUA e o Programa Apollo. Os governos devem usar essa crise como uma oportunidade para lançar um ousado programa de investimentos em infraestrutura limpa e verde, conforme previsto no New Deal Verde. Afinal, outra epidemia viral é inevitável, e a crise climática exige ambição e resolução ao estilo de FDR [Franklin Delano Roosevelt].

Uma vez que a pandemia esteja para trás, precisamos começar a contratar. Os formuladores de políticas já deveriam estar preparando programas de serviço público e emprego garantido para quem aparecer no escritório de desemprego. E essa garantia de emprego deve ser combinada com treinamento e educação, para ajudar os trabalhadores a se qualificarem para um emprego no setor privado, com salários melhores, quando a economia se recuperar.

Até o mês passado, comentaristas nos EUA ainda estavam conversando sobre a subutilização da força de trabalho desde a crise financeira de 2008, apesar dos números oficiais historicamente baixos de desemprego. Quanto tempo levará para retornar aos níveis atuais de emprego após uma pandemia que expulsa uma parte significativa da economia do jogo?

Sem emprego direto e garantido, estamos falando de décadas de desemprego elevado. Como alternativa, uma pessoa com um salário digno pode pagar uma hipoteca, comprar uma passagem de avião e ir a restaurantes. Uma ampla oferta de bons empregos para todos que os desejam é a maneira mais segura de trazer todos os setores da economia de volta à saúde total.

Mas como o governo pagará por tudo isso? Da mesma forma que se paga por todo o resto. Não seria necessária uma pandemia ou uma guerra mundial para lembrar aos cidadãos que o governo dos EUA é autofinanciado. As instituições financeiras públicas dos EUA - o Tesouro e o Federal Reserve dos EUA - garantem que todas as contas do governo sejam pagas, sem qualquer questionamento.

Tudo o que é necessário, então, é que o Congresso adéque o orçamento e elabore uma política eficaz para gerenciar essa crise e as que virão depois dela. Ninguém está pedindo que contribuintes ricos ou credores estrangeiros “paguem” pela resposta. Não é assim que um governo que controla sua própria moeda se financia. Então, vamos parar de fazer a pergunta trivial de como pagar por isso. Encontrar o dinheiro nunca é o problema. O foco deve estar na criação de bons empregos para os desempregados.

Pavlina R. Tcherneva, professora associada de economia no Bard College, no estado de Nova York, e pesquisadora do Levy Economics Institute, um think-tank de políticas públicas.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli



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