Pelo Mundo

O que Trump tem em comum com Joseph McCarthy

A capacidade do presidente de criar confusão e turbulência está surgindo como a sustentação principal de sua campanha de reeleição

19/05/2020 13:33

(Ilustração de João Fazenda)

Créditos da foto: (Ilustração de João Fazenda)

 
Em 6 de janeiro de 2017, por volta das 8h30, Donald Trump, sem dúvida, tinha assuntos sérios em mente. Em apenas duas semanas, ele estaria de posse de códigos nucleares, tentaria preencher os altos escalões do governo federal e assumiria a responsabilidade pelo curso da política norte-americana em casa e no exterior. Então, ele pegou o telefone e começou a tuitar uma avaliação sobre seu substituto no programa da televisão americana "The Celebrity Apprentice":

“Uau. Saíram as pesquisas e Arnold Schwarzenegger [que substituiu Trump no programa] afundou (ou foi destruído) em comparação com a máquina de conquistar audiência, Donald John Trump. Tanto fizeram . . . sendo uma estrela de cinema - e essa foi a primeira temporada em comparação à 14. Agora compare-o com a minha primeira temporada. Mas quem liga para isso, ele apoiou Kasich & Hillary.”

Nos anos seguintes, as metas de mídia social de Trump se expandiram. Seus tuítes e retuítes, que podem chegar a um ritmo frenético de mais de cem por dia, fornecem pontos de discussão em tempo real para meios de comunicação de direita e são absorvidos como doutrina por milhões de seguidores fiéis. Como presidente, Trump vai ao Twitter para declarar quem é "patético" e quem é "bobo", quem é um "total biruta" e quem é um "pateta baixo nível". Ele demitiu funcionários e se vangloriou das dimensões do seu "Botão Nuclear". O tom é tão consistentemente desprovido de empatia, boa fé ou boa vontade que até o "FELIZ DIA DAS MÃES" soa como uma ameaça.

A Biblioteca da América publicou recentemente uma coleção de escritos do historiador da Universidade Columbia, Richard Hofstadter. A coleção inclui dois estudos completos publicados no início dos anos sessenta: "Anti-Intelectualismo na Vida Norte-Americana" e "O Estilo Paranoico na Política Norte-Americana". Hofstadter estava tentando, em parte, entender os líderes de direita, como os senadores Joseph McCarthy e Barry Goldwater, e a prevalência de uma antipatia pela especialisação e uma adesão a teorias da conspiração que haviam sido, escreveu ele, “um forte atrativo para malucos de todos tipos.” Hofstadter, que morreu em 1970, via o país como "uma arena de mentes incomumente raivosas", e é difícil lê-lo e não pensar nos contrapontos sombrios de Trump sobre "Estado Profundo", "Inimigo do Povo" e , agora, "Obamagate".

Em "O estilo paranoico", Hofstadter cita McCarthy, falando em 1951, sobre o grande risco que corre os Estados Unidos:

“Como podemos explicar nossa situação atual, sem acreditar que homens do alto escalão do governo estejam se unindo para nos levar ao desastre? Isso deve ser o produto de uma grande conspiração, uma conspiração em escala tão imensa que tornaria acanhado qualquer empreendimento semelhante anterior na história do homem.”

McCarthy afirmava que espiões comunistas pró-soviéticos haviam se infiltrado nas forças armadas, no Departamento de Estado e na Administração de Eisenhower. Joseph Nye Welch, o advogado encarregado de defender o Exército contra as acusações de McCarthy, disse a ele, em uma audiência no Senado de 1954: “O senhor tem, creio, uma espécie de gênio por criar confusão, criar tumulto nos corações e mentes do país." Essa gênio permitiu a McCarthy ganhar o apoio de quase metade de todos os americanos, mas, após as audiências do Exército-McCarthy e um desmantelamento completo por Edward R. Murrow, na CBS, ele perdeu prestígio. McCarthy morreu aos quarenta e oito anos, em 1957.

Ao contrário de McCarthy, Trump parece ter apenas uma ideia fixa, e é sobre sua própria grandeza. Um dia, ele está falando sobre sua amizade duradoura com o presidente Xi Jinping e a China, "que tem trabalhado duro para conter o coronavírus". No outro, ele está se referindo insidiosamente ao "vírus chinês" e sugerindo que Pequim sofra consequências se for considerada "conscientemente responsável" pela existência da Covid-19. O que Trump tem em comum com McCarthy é a capacidade de criar confusão e turbulência que está surgindo como a sustentação principal de sua campanha de reeleição

Antes de sermos atingidos pela pandemia, Trump pretendia travar sua base e, em seguida, fazer uma campanha forte nos estados que teriam uma disputa acirrada, argumentando que ele sozinho construiu "a maior economia da história do mundo". Hoje, ele deve fazer campanha como presidente que sofreu um processo de impeachment, que manejou mal um assalto devastador à saúde e à economia nacionais. No início de março, ele declarou que os Estados Unidos liderariam o esforço global contra a pandemia: "O mundo está confiando em nós". Agora, o país lidera o mundo apenas no número de casos e mortes pela Covid-19.

O fracasso de Trump está enraizado em uma desconfiança que ele tem de especialistas, o que o levou a confiar nos conselhos duvidosos de seu círculo de amigos e familiares. Um de seus confidentes disse ao Financial Times que, nas primeiras semanas da crise, Jared Kushner, genro de Trump, “estava argumentando que testar muitas pessoas, ou pedir muitos respiradores, assustaria os mercados e, portanto, nós simplesmente não devemos fazê-lo. Esse conselho teve um efeito muito mais poderoso nele do que o que os cientistas estavam dizendo.” Trump agora rejeita as advertências de Anthony Fauci e outros cientistas sobre o retorno das crianças à escola como "uma resposta não aceitável". Enquanto isso, mais de oitenta mil pessoas neste país morreram de Covid-19. O desemprego está se aproximando dos níveis da era da depressão. E ninguém é capaz de argumentar, de maneira convincente, que haverá uma melhoria iminente nas perspectivas epidemiológicas, nem uma recuperação econômica em forma de "V".

Como resultado, a campanha de reeleição será ainda mais vergonhosa do que originalmente concebida. Trump está exibindo anúncios no Facebook que descrevem Joe Biden como excessivamente simpático à China e cognitivamente diminuído ("Joe Biden: velho e sofre de confusão mental"). Acima de tudo, o presidente tenta desencadear um frenesi de paranoia sobre os supostos esforços do governo Obama de promulgar a teoria de que a campanha de Trump conspirou contra a Rússia.

O "Obamagate", segundo o presidente, é um caso "pior que Watergate". O Departamento de Justiça, minando o estado de direito, pediu obedientemente que as acusações contra Michael Flynn fossem retiradaa, ex-consultor de segurança nacional, que admitiu ter mentido aos investigadores sobre seus contatos com a Rússia. Em 2016, o grito de guerra de Trump [contra Hilary Clinton] foi "Prendam-na!" Agora, os pedidos de instauração de processos são direcionados a Barack Obama e Joe Biden.

O presidente, que iniciou sua carreira política com uma teoria da conspiração sobre Obama – de que ele não teria nascido nos EUA (birtherism) - agora espera prolongá-la com uma nova. Ao longo do caminho, ele ajudou a promover a ideia de que Antonin Scalia pode ter sido assassinado em sua cama, que os moinhos de vento causam câncer e que a fraude eleitoral lhe custou o voto popular em 2016. Não que ele seja incapaz de mudar de ideia. Trump costumava tuitar que as vacinas podem causar autismo. Agora ele espera que a vacina venha rápido - algum tempo antes de novembro.

*Publicado originalmente em 'The New Yorker' | Tradução de César Locatelli



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