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O que acontecerá com o Partido Republicano se Trump perder?

Os ativistas do #NeverTrump esperam extirpar do partido sua demagogia nativista, mas o fim de Trump pode não significar necessariamente o fim do Trumpismo

13/08/2020 12:41

Trump na Casa Branca (Andrew Harnik/AP)

Créditos da foto: Trump na Casa Branca (Andrew Harnik/AP)

 
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“O Trumpismo definha?”, pergunta um jornal numa manchete. “Como será o Partido Republicano pós-Trump?”, especula outra manchete. “Se Trump perder, os republicanos se preparam para uma batalha pela liderança”, afirma uma terceira. “Os primeiros sinais de um Partido Republicano pós-Trump”, promete a quarta.

Qualquer um que se lembre da eleição presidencial de 2016 sabe que é muito cedo para escrever o obituário político de Donald Trump, mas uma safra recente de manchetes deixa clara a crescente angústia sobre o destino do Partido Republicano se, como as pesquisas sugerem, o presidente atual for derrotado em novembro.

Os republicanos estão se acotovelando por uma boa posição de olho em 2024. Os ativistas do #NeverTrump esperam purgar do partido sua marca de demagogia nativista. Analistas e comentaristas ponderam se um Partido Republicano pós-Trump se parecerá com o que era pré-Trump ou se precisará ser reinventado.

Peggy Noonan, colunista do Wall Street Journal, perguntou: “De onde veio Donald Trump? Para onde vai o Partido Republicano? O partido deve ser inteiramente descartado?”. Bret Stephens, colunista do New York Times, observou que, se Trump perder, “o futuro do partido estará em jogo. É hora de começar a pensar sobre quem pode tomar o controle, quem deve fazê-lo e quem o fará”.

O debate foi atiçado por sinais de que a mão de ferro de Trump sobre o partido poderia estar ficando mais fraca. Líderes republicanos rejeitaram veementemente sua ideia de adiar a eleição por causa da pandemia do coronavírus. Nas negociações sobre o último pacote de estímulo econômico, eles rejeitaram suas propostas de um corte de impostos sobre a folha de pagamento e de construção de um novo prédio para o FBI.

Enquanto isso, de acordo com a CNN, Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, sinalizou aos senadores republicanos vulneráveis em disputas eleitorais que, se acharem necessário, eles podem se distanciar de Trump.

Mas os prognósticos permanecem cautelosos por dois motivos. Primeiro, a eleição está longe de decidida. Embora Trump enfrente os ventos contrários da pandemia, desemprego em massa e pesquisas ruins como nunca visto antes, ele ainda tem tempo para lançar surpresas contra seu oponente Joe Biden nesta que é a mais imprevisível das campanhas.

Em segundo lugar, o fim de Trump não significaria necessariamente o fim do Trumpismo. Nove em cada dez republicanos ainda aprovam o trabalho que ele está fazendo como presidente, de acordo com pesquisa Gallup. Uma pesquisa do SurveyMonkey para a Axios de dezembro mostrou as escolhas dos eleitores republicanos para 2024 com Mike Pence na liderança, o filho de Trump, Donald Trump Jr, em segundo lugar, seguido por Nikki Haley, Ivanka Trump, Marco Rubio e Mike Pompeo.

Pode ser tarde demais para colocar o gênio Trump de volta na garrafa. Essa é a visão de Stuart Stevens, um dos estrategistas de campanha mais bem-sucedidos do partido, que contribuiu com a crescente literatura sobre a crise de identidade da sigla com It Was All a Lie: How the Republican Party Became Donald Trump (Era tudo mentira: como o Partido Republicano tornou-se Donald Trump).

“Ele é o Partido Republicano. Não existe nem mesmo um governo de oposição no exílio. Não há De Gaulle; há apenas a França de Vichy. O Partido Republicano é o partido que apoia Roy Moore [candidato ao Senado pelo Alabama acusado de má conduta sexual] e ataca John Bolton [ex-conselheiro de segurança nacional]. Vimos como um gene recessivo no partido acabou virando um gene dominante”, disse Stevens.

Stevens continua: “Se você realmente quiser ficar deprimido, leia o discurso de George Bush na convenção de 2000. Parece um documento de uma civilização perdida. Quem são aquelas pessoas? É como se fossem os maias. Todo o discurso gira em torno de ideias como humildade, sacrifício, honra e de estar a serviço do país”.

Em recente entrevista ao Guardian, o estrategista democrata Paul Begala afirmou que uma derrota esmagadora de Trump seria um catalisador para os republicanos se reavaliarem e revigorarem, como os democratas fizeram após três derrotas ilustrativas em 1980, 1984 e 1988. Mas Stevens acredita que isso levará mais de uma eleição.

“O Trumpismo se infiltrou profundamente no partido e acho que a história nos lembra, sombriamente, que quando um grande partido legitima o ódio, o que o Partido Republicano fez, é muito difícil voltar atrás”, disse. “Leva tempo e, muitas vezes, requer muito sangue”.

A base principal dos republicanos – homens brancos mais velhos – encolhe a cada ciclo eleitoral à medida que a demografia americana se diversifica, enquanto Trump se afastou de muitos eleitores suburbanos. “O partido não tem vontade de mudar. A única coisa que o fará querer mudar é o medo absoluto. Isso nunca é muito convincente para os eleitores, porque é algo que transparece. Então, acho que estamos em um período propício a um governo de centro-esquerda”, disse Stevens.

A pandemia deu um palco nacional para governadores republicanos moderados como Charlie Baker de Massachusetts, Larry Hogan de Maryland e Phil Scott de Vermont, todos eles líderes de estados tradicionalmente democráticos e, portanto, vistos como tendo potencial apelo amplo. John Kasich, o ex-governador de Ohio que concorreu em 2016, pode fazer outra tentativa em 2024, apontando Trump como uma aberração que nunca deveria ter acontecido.

Mas eles provavelmente enfrentarão uma luta dura contra os leais – potencialmente os senadores Ted Cruz, Tom Cotton e Josh Hawley ou até mesmo o apresentador da Fox News, Tucker Carlson –, cada um afirmando ser o verdadeiro herdeiro de Trump. Haley, ex-governadora da Carolina do Sul e ex-embaixadora de Trump na ONU, teve o cuidado de se distanciar do presidente em alguns momentos e abraçar sua base em outros.

Uma luta interna pode ser catártica. Michael Steele, ex-presidente do Comitê Nacional Republicano, afirmou: “Veremos muitos Trumpistas apoiando um Don Jr ou um Tom Cotton e muitas outras pessoas endossando um Kasich ou um Larry Hogan ou qualquer outra pessoa que surgir naquele espaço”.

“Essa é a batalha que temos pela frente. Vamos passar por isso e temos que passar por isso. Pode significar a fragmentação do partido. Pode significar a formação de outra coisa. Não sabemos exatamente como os republicanos irão avaliar e valorar o que é o republicanismo.”

As tensões já começaram no Capitólio, onde um terço dos 198 membros republicanos da Câmara foram eleitos desde 2016, a maioria seguindo a agenda de Trump. A congressista Liz Cheney, de Wyoming, filha do ex-vice-presidente Dick Cheney, apoia entusiasmadamente Trump em algumas questões, mas criticou sua política externa e a gestão da pandemia, gerando pedidos para que renunciasse ao posto de nº 3 republicana na Câmara.

Michael Steel, ex-assessor de John Boehner quando este era presidente da Câmara, sugeriu que isso é uma prévia de como os republicanos pró-Trump buscarão racionalizar a derrota eleitoral: apontando bodes expiatórios de facções do partido que não tiverem sido suficientemente leais. “Eles precisam culpar qualquer pessoa e qualquer coisa que não o próprio presidente Trump, criando então a falácia de que ele estaria sendo apunhalado pelas costas por uma quinta coluna de republicanos desleais, e não por suas próprias palavras e ações”, Steel escreveu no site conservador Dispatch.

Cheney é visto como defensor de pelo menos alguns xiboletes republicanos tradicionais abandonados por Trump, como responsabilidade fiscal e uma postura agressiva em relação à Rússia e outros adversários. Aqueles que questionam o legado "América primeiro" do presidente também poderão suavizar as posições do partido sobre a crise climática, a imigração e o comércio internacional.

Mas eles precisariam de uma casca grossa: mesmo em caso de derrota, Trump ainda teria o Twitter, a Fox News e o movimento Make America Great Again à sua disposição para disparar seus insultos.

Thomas Patterson, professor da Escola de Governo Kennedy da Universidade de Harvard, argumenta que o partido está preso em cinco armadilhas criadas por ele próprio, que Trump apenas piorou: um deslocamento constante para a direita; mudanças demográficas; influência da mídia de direita embotando sua capacidade de governar; grandes cortes de impostos que criaram uma divisão entre seus apoiadores da classe trabalhadora e os conservadores do mercado; o desrespeito às normas e instituições democráticas.

Patterson, autor do livro recém-lançado Is the Republican Party Destroying Itself? (O Partido Republicano está se autodestruindo?), acredita que o caminho de volta será longo. “Se você olhar o que aconteceu em 2018, os republicanos levaram uma surra na eleição de meio de mandato e não aprendeu nenhuma lição”, disse ele. “A mídia de direita distorceu a derrota atribuindo-a a um suposto deslocamento dos republicanos para o centro”.

“Mesmo que levem uma verdadeira surra em 2020, acho que serão necessárias duas ou três surras dessas provavelmente. Eles podem falar o quanto quiserem sobre se reinventar, mas enquanto as primárias continuarem lançando esses conservadores, a mudança será muito difícil”.

“Quando você pergunta quem são os líderes moderados que estarão na vanguarda dessa mudança, com credibilidade com a base e em outros setores, é uma lista realmente pequena. Eles praticamente se livraram de todas as lideranças moderadas”.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

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