Pelo Mundo

O que aconteceu quando Alexandria Ocasio-Cortez confrontou Mark Zuckerberg

A deputada de Nova Iorque expôs o descaso da empresa em dizer a verdade

07/11/2019 08:02

 

 
Era uma da manhã antes de publicarmos os arquivos da Cambridge Analítica em março do ano passado e recebi uma mensagem urgente da minha colega repórter, Emma Graham-Harrison. O Facebook, que havia nos enviado uma carta naquele dia nos ameaçando legalmente se publicássemos, havia divulgado uma nota à imprensa dizendo que havia retirado a Cambridge Analítica de sua plataforma.

Era uma última tentativa para tentar ficar à frente da história que o Facebook sabia que estava prestes a estourar. Mas era tarde demais. Trabalhamos ao longo da noite, apresentamos nosso horário de publicação e então a história estava na rua.

Se isso parece notícia velha, não é. Porque na semana passada, Mark Zuckerberg se apresentou diante do comitê de serviços financeiros do Congresso dos EUA para falar sobre os planos do Facebook em relação à sua criptomoeda, Libra e, Alexandria Ocasio-Cortez, deputada pelo 14o distrito de Nova Iorque, teve 5 minutos para torrá-lo.

“Sr. Zuckerberg, eu acho que de todas as pessoas, você consegue apreciar o uso do comportamento passado de uma pessoa para determinar, tomar decisões ou prever seu comportamento futuro, e, de modo que possamos tomar essas decisões sobre a Libra, eu penso que temos que desenterrar seu comportamento passado e o comportamento passado do Facebook com respeito à democracia. Sr. Zuckerberg, em qual ano e mês você ficou pessoalmente ciente da Cambridge Analítica?”

Assistindo isso de uma pequena tela no meu celular, eu estava na beira da cadeira. Essa era a pergunta que eu e um pequeno grupo de super nerds, que inclui membros do parlamento como Damian Collins e Ian Lucas, fazíamos há mais de um ano. Porque Zuckerberg testemunhou pela última vez em abril de 2018, mas muitos fatos vieram à tona desde então. Fatos que cobrem esse testemunho com dúvidas. Dúvidas que abriram uma pergunta séria: ele mentiu sob juramento para o Congresso?

Era isso que Ocasio-Cortez estava tentando desenterrar. “Não tenho certeza da época exata”, disse Zuckerberg. “Mas foi provavelmente próximo da época em que tudo se tornou público. Acho que foi perto de março de 2018, mas posso estar errado.”

O problema para Zuckerberg não é que isso desafia o senso comum, mesmo que o faça. É que abre um mundo novo de problemas para o Facebook. Para entender por que, você tem que voltar aos quatro dias seguintes da ameaça legal do Facebook ao nosso veículo e depois à nota à imprensa divulgada no meio da noite. Quatro dias em que o valor do Facebook no mercado de ações desabou em mais de $100 bilhões e a empresa entrou em confinamento. Quando Zuckerberg finalmente emergiu, uma história estava pronta. O problema para ele é que isso tem se desenrolado progressivamente desde então.

Em julho desse ano, uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (SEC) revelou que empregados sabiam que a Cambridge Analítica, descrita como um negócio “vago”, estava extraindo dados do Facebook em 2015, antes mesmo da primeira reportagem do Guardian.

E a chefe operacional do Facebook, Sheryl Sandberg? Perguntou Ocasio-Cortez. Quando ela ficou sabendo? E Peter Thiel, membro do conselho? Deu branco em Zuckerberg. Seus bancos de memória estavam vazios.

“Esse foi o maior escândalo de dados em respeito à sua empresa e que teve impactos catastróficos em relação a 2016.... e você não sabe?” perguntou AOC.

“Deputada, discutimos isso quando ficamos sabendo do que tinha acontecido.”

As evidências continuam a se amontoar. E as respostas que Zuckerberg deu à AOC somente convidam à mais perguntas. O fato é que o escândalo de dados da Cambridge Analítica está longe de acabar. De certa maneira, está só começando. Não é o crime, como diz o ditado, mas a ocultação. E isso continua.

Porque sabemos que o Facebook mentiu. A investigação da SEC diz isso. Para nós no Observer, na realidade “quando perguntado pelos repórteres em 2017 sobre sua investigação da questão da Cambridge Analítica, o Facebook alegou falsamente que a empresa não havia encontrado evidências de transgressão”.

Em 7 de novembro, darei evidências ao grande comitê internacional de parlamentares de nove países que se juntaram para tentar extrair respostas do Facebook. Mas Zuckerberg, novamente, se recusou a conceder evidências aos representantes de nove países, que ao todo abrigam mais de meio bilhão de pessoas.

Temos que reconhecer que o Facebook é uma empresa estrangeira que opera além do alcance das nossas leis e que não deveria estar perto das nossas eleições.

Eu estava em Tirana em uma conferência de comissários de privacidade de dados do mundo todo quando AOC estava torrando Zuckerberg. John Edwards, o comissário da Nova Zelândia, que, desde o massacre em Christchurch está levando a luta aos gigantes da tecnologia, descreveu o acontecimento como “levar um canivete não para uma luta armada, mas sim para uma explosão nuclear”.

Sabemos que nossas eleições não são seguras. E até que o Facebook consiga provar que consertou isso, propagandas políticas miradas seletivamente baseadas em dados desconhecidos de fontes desconhecidas deveriam ser simplesmente banidas.

Estamos em uma encruzilhada extraordinária. Temos informações suficientes para saber que a plataforma do Facebook foi utilizada para subverter e enfraquecer eleições nos EUA, no Reino Unido e muitos outros países. Mas fingimos que estamos de mãos atadas para prevenir que isso ocorra novamente. Não estamos. Estamos simplesmente paralisados com um governo e uma oposição que escolheram ignorar isso. As perguntas ousadas de AOC não apenas expõem Zuckerberg, como também Boris Johnson e Jeremy Corbyn.

Nossas eleições não são seguras. E esse mês o Facebook tomou uma decisão para torná-las ainda mais inseguras. Apenas uma semana depois de Zuckerberg se reunir a portas fechadas com Trump, descobrimos que ele havia mudado a política do Facebook permitindo posts de políticos ou partidos contendo “conteúdo falso, enganoso e deturpado”. É uma decisão extraordinária encabeçada por Zuckerberg em um discurso no qual ele disse: “Acredito que devemos continuar a apoiar a liberdade de expressão”.

O chefe global de políticas do Facebook, Nick Clegg, que, uma vez, gritou contra as “mentiras explícitas” ditas no referendo europeu, sancionou seu uso em todas as propagandas políticas em todas as eleições em todos os países no mundo.

Não estamos de mãos atadas. AOC nos mostra isso. Apenas estamos sendo traídos pelo nosso governo e pela nossa oposição. “Porque esse mentiroso está mentindo para mim?” é uma abordagem tradicional do jornalismo. Nós, no Reino Unido, deveríamos estar perguntando: porque esse políticos mentirosos não estão agindo contra essa empresa mentirosa que está permitindo que políticos mentirosos mintam para mim?

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares



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