Pelo Mundo

O que eu vi durante o golpe de Myanmar

Senti que estava sendo transportada de volta para o país antigo e isolado

09/02/2021 12:59

Soldado monta guarda do lado de fora de um templo hindu, em Yangon, Mianmar (Aung Kyaw Htet/SOPA Images/LightRocket, via Getty Images)

Créditos da foto: Soldado monta guarda do lado de fora de um templo hindu, em Yangon, Mianmar (Aung Kyaw Htet/SOPA Images/LightRocket, via Getty Images)

 
YANGON, Myanmar — Às seis da manhã de uma segunda-feira, meu telefone não parava de tocar. Eu ignorei a primeira chamada, presumindo que um amigo taiwanês havia esquecido do fuso horário. Eu ainda estava com dificuldade para dormir, e então vi o nome da minha mãe na tela. Minha mãe, que mora em Mandalay, no meio de Myanmar, cerca de 400 milhas de Yangon, nunca me liga assim tão cedo.

Algumas horas depois, era esperado que o recém eleito parlamento de Myanmar se reunisse em sua primeira sessão. A Liga Nacional pela Democracia de “Daw” Aung San Suu Kyi havia ganhado mais de 80% dos votos nas eleições de novembro e estava prestes a começar seu segundo mandato. O exército, que é liderado pelo General Min Aung Hlaing, estava contestando a legitimidade das eleições. No final de semana, a maioria das conversas que tive com amigos e familiares foram debates sobre a possibilidade de um golpe.

Quando eu vi a ligação da minha mãe, eu sabia: aconteceu um golpe.

“Vai ficar com sua tia”, me disse minha mãe. Se junte com sua família e não confie em ninguém mais. Meus avós paternos, que eram parte de uma minoria vulnerável, se esconderam nas casas de vários familiares durante o golpe de 1962, quando o exército, liderado pelo General Ne Win, substituiu o governo civil do primeiro-ministro U Nu em um golpe.

Durante o levante liderado por estudantes em 1988 contra a ditadura, minha mãe e seus irmãos se alternavam para marchar nas ruas e mergulhar em esgotos para evitar os tiroteios, enfrentando a repressão liderada pelo presidente Sein Lwin. A Sra. Aung San Suu Kyi formou a Liga Nacional pela Democracia logo após essa repressão brutal.

Mesmo ganhando as eleições dos anos 90, a Sra. Aung San Suu Kyi e outros oficiais seniores da NLD foram colocados em prisão domiciliar, e o exército recriou seu domínio do país depois desse golpe. Não iria acontecer outra eleição em 20 anos.

Depois de falar com minha mãe, me senti dormente, mas vagarosamente me recompus. Tentei ligar para a minha tia, mas meu celular não estava funcionando. Eu estava apavorada. As autoridades bloquearam telefones celulares e a internet, mas não completamente.

Eventualmente, eu vi que minha internet de banda larga estava funcionando, e comecei a mandar mensagem para meus amigos jornalistas e ativistas. Eles me disseram que sabiam. O exército já havia prendido a Sra. Aung San Suu Kyi e outros líderes da NLD. Compartilhamos informações, comparamos notas sobre boatos e nos consolamos.

Eu temi que as autoridades fossem desconectar a eletricidade ou a água depois da internet e dos celulares. Eu enchi meu tanque de água e carreguei todos os meus aparelhos eletrônicos e fontes de bateria que pude encontrar. Cerca de sete da manhã, eu saí do meu apartamento no distrito de Chinatown, cerca de 20 minutos da prefeitura. Eu queria falar com as pessoas. As ruas pareciam vazias da minha varanda, mas eu não via soldados, ainda. Eu deixei comida para os meus gatos e saí.

Eu fui para um dos mercados de rua próximos, andei por lojas de chá, as redes sociais tradicionais, onde você fica sabendo das notícias do bairro, dos rumores do país. Passei por um velho templo chinês e algumas lojas de ouro, e os bancos e cafés que chegaram depois que a transição quase democrática começou em 2010.

Tudo parece estranhamento normal. Monges e freiras estavam coletando suas esmolas matinais, andando em filas com roupas combinando. Oficiais municipais estavam coletando propinas dos vendedores. As pessoas compravam crisântemos e jasmins para seus santuários.

Eu comecei a tirar fotos. A câmera trouxe uma certa inquietação. Algumas pessoas desviavam. Algumas cobriam os rostos. Eu percebi que algumas bandeiras da NLD – com um vermelho brilhante e um pavão dourado buscando uma estrela – que recentemente adornavam tantas varandas, para-choques e frentes de loja tinham sumido. Eu vi um vendedor raspando um adesivo da NLD do seu carrinho de nozes.

Durante a pandemia de covid-19, somente um membro da família podia fazer compras no mercado de rua. Ninguém pareceu atender a essas restrições naquele dia; lares inteiros foram aos mercados para fazer compras. Uma mulher vendendo batata doce disse ao dono de uma loja, “eu te disse. Nós os conhecemos”.

Enquanto eu passava pela loja de chá na esquina da minha rua, um homem idoso que mora perto e tinha se recusado a deixar seu assento na loja de chá mesmo com a pandemia, disse à sua companheira, “não há nada que possamos fazer”.

As ruas ainda estavam quietas quando voltei para casa uma hora depois. A realidade do golpe havia batido, e o pânico pareceu crescer. Longas filas se formaram fora dos bancos e de caixas automáticos. Pessoas começaram a correr para lojas de ouro para trocar dinheiro por ouro. Lembranças de outros golpes – a desmonetização da moeda pelo exército, as longas repressões – começaram a direcionar os comportamentos.

E as pessoas começaram a comprar arroz. Você pode sobreviver um toque de recolher, uma longa repressão, se você tem arroz suficiente. Motoristas de Trishaw na minha rua estavam transportando sacos de arroz de 100 quilos. Eu tinha menos de 10 quilos.

Cerca de dez da manhã eu tranquei meu apartamento e fui para a casa da minha tia, que é na esquina. A atividade frenética da manhã havia dado lugar para um clima moderado. Os vendedores ainda estavam abertos, mas os bancos e outras lojas estavam fechadas. Eu cheguei na casa da minha tia e encontrei os sacos de arroz de 100 quilos na entrada.

Momentos depois, ouvimos música vindo da rua. Uma procissão de caminhões com a bandeira de Myanmar na rua, carregando jovens rapazes vestidos em camuflagem militar e com espadas tradicionais. Eles entoavam slogans apoiando o exército e o General Min Aung Hlaing, o comandante das forças armadas, agora a autoridade suprema.

As pessoas nas varandas ouviam em silêncio e tiravam fotos. Os caminhões, seguidos por carros cheios de monges budistas, foram até a prefeitura de Yangon para se juntar ao protesto em apoio ao golpe. Minha tia, que viveu a repressão de 1988 e o golpe em 1990, começou a fazer piadas. “Agora somos a Coréia do Norte”, ela disse rindo. “É como se fosse antigamente. Tão divertido.”

Almoçamos perto do meio-dia. Alguns de nós recuperaram o sinal de telefone. Páginas verificadas da NLD no Facebook começaram a enviar mensagens dizendo para as pessoas protestarem, mesmo com o administrador da página estando preso. Enquanto ouvia minha família falar, eu senti um sentimento diferente de estar sendo transportada de volta para a antiga e isolada Myanmar, quando viagens estrangeiras eram quase impossíveis e a comunicação com o mundo exterior era cara e ilegal.

“Houve um golpe em 1990, e agora está acontecendo novamente”, apontou meu tio, que está com 60 e poucos e vivendo seu terceiro golpe. “Ficamos livres por dez anos”, ele adicionou. “Eu não sei mais viver assim.”

Nos sentamos e conversamos sobre o que Myanmar estava preste a perder. Estávamos prestes a iniciar projetos de ferrovias com apoio japonês que conectariam a antiga Yangon à linha Mandalay. Nos preocupamos com a volta das sanções econômicas. Conversamos sobre as exportações de vestimentas para a União Europeia. Nos perguntamos se o golpe afetaria a cooperação internacional de vacinas contra a covid.

O dia passou como uma névoa de conversas ansiosas. Eventualmente colapsamos em um sono inquieto. No dia seguinte, os apoiadores do exército realizaram um grande protesto no Parque do Povo, na sombra de Shwedagon Pagoda, um dos locais mais sagrados no país. Estudantes, trabalhadores, médicos, advogados começaram a organizar um movimento online de resistência.

Estamos traumatizados e exaustos, mas às oito da noite o toque de recolher foi iniciado, as pessoas no meu bairro se juntaram em suas varandas e batiam panelas e potes, anunciando que não vamos fugir da luta.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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