Pelo Mundo

O que será da Alemanha e da Europa sem Angela Merkel?

 

08/04/2021 11:31

(Hannibal Hanschke)

Créditos da foto: (Hannibal Hanschke)

 
O curso da pandemia na Europa segue seu caminho aos solavancos, entre promessas de aberturas na economia, no comércio, nas atividades culturais e de lazer, e a realidade da volta dos confinamentos, dos lockdowns, toques de recolher e outras medidas restritivas. O sentimento coletivo de insegurança vem provocando altos e baixos na popularidade de governantes e políticos de um modo geral. E a Alemanha não é exceção, dentro deste quadro conturbado. Um dos alvos e uma das vítimas, pode-se dizer, destas oscilações e inseguranças é a outrora inabalável chanceler alemã Angela Merkel, primeira mulher a ocupar este cargo na história do país. Conforme anunciou em 2018, Merkel deve deixar seu posto na liderança do país economicamente mais forte da União Europeia em setembro deste ano, quando ocorrerão eleições federais na Alemanha.

Merkel nasceu em Hamburgo, na antiga Alemanha Ocidental, filha de um pastor luterano, em 1954. Logo depois de seu nascimento o pai foi indicado para uma paróquia na antiga Alemanha Oriental e comunista, onde ela cresceu e diplomou-se em Química, doutorando-se em Química Quântica, tendo trabalhado como pesquisadora até 1989. Entrou para a política logo depois da Queda do Muro de Berlim, fazendo rápida carreira na esteira da Reunificação das duas Alemanhas, ocorrida no ano seguinte, 1990. Nesta época foi eleita deputada no Bundestag, o Parlamento Federal Alemão. Galgando postos a seguir, ela chegou a líder da União Democrata Cristã em 10 de abril de 2000. Com a vitória de seu partido nas eleições de 2005, Merkel tornou-se chanceler - cargo na Alemanha equivalente ao de primeiro-ministro - em 22 de novembro de 2005. É a política da União Europeia com mais tempo na chefia de governo, estando em seu quarto mandato e por quase 16 anos no poder. Ganhou enorme popularidade em seu país, e granjeou o respeito mesmo de seus adversários. Popularmente tem o apelido de “Mutti”, “Mãezinha” em alemão.

Merkel demonstrou desde sempre uma enorme capacidade de sobrevivência política, deixando para trás, na poeira de sua trajetória, em seu país, políticos correligionários como Horst Köhler e Christian Wulf, ambos presidentes alemães que caíram em desgraça devido a escândalos que não superaram. Na União Europeia assistiu a ascensão e a queda de líderes como Nicolas Sarkozy e François Hollande, na França; David Cameron e Theresa May, no Reino Unido. Também assistiu a queda de Silvio Berlusconi na Itália (há quem diga que ela ajudou a provocar sua derrocada, com ajuda de Sarkozy), e mais recentemente a ascensão meteórica e a queda também meteórica de Donald Trump nos Estados Unidos, com quem manteve uma relação formal e tensa.

Política vinda do campo conservador, Angela Merkel defendeu e defende firmemente as políticas de austeridade fiscal e contenção de gastos públicos, como Margaret Thatcher, embora sem a rigidez desta nem seu empenho contra o mundo sindical. Ainda assim, notabilizou-se por assumir causas progressistas, o que lhe valeu o comentário de que especializou-se em “roubar” bandeiras alheias. Exemplos: em seu governo a Alemanha adotou, pela primeira vez em sua história recente, um salário mínimo nacional, tomando a bandeira do Partido Social-Democrata; viabilizou o fim das usinas nucleares, e tomou medidas favoráveis à redução da emissão de gases nocivos na atmosfera, tradicionais reivindicações dos Verdes; adotou políticas favoráveis a fontes renováveis de energia; por fim, manteve uma política de abertura para imigrantes e refugiados na Alemanha e na Europa, coisa que lhe valeu muitas críticas por parte da extrema-direita e mesmo dentro de seu próprio partido.

Pode-se afirmar sem risco de erro que Angela Merkel tornou-se a principal líder e mesmo o fiel da balança em relação a União Europeia, desde que assumiu a chancelaria alemã. Sem dúvida deve-se em grande parte à sua liderança o fato da União não ter se desintegrado com a crise financeira de 2007/2008, nem com o conturbado processo do Brexit, a partir do plebiscito votado no Reino Unido em 2016, cujo resultado provocou a queda de David Cameron.

Pois bem, agora, pela primeira vez, já se comenta na mídia e fora dela, que a estrela de Merkel está em declínio. Em parte, isto se deve aos solavancos da pandemia. A Alemanha saiu-se muito bem de sua primeira onda, no primeiro semestre do ano passado. Já não se pode dizer o mesmo quanto à segunda onda, durante o inverno. Há contínuas hesitações e dificuldades para estabelecer um consenso sobre como agir diante dela, entre os governantes de suas 13 províncias e três cidades-estado (Berlim, Hamburgo e Bremen). Merkel chegou a propor e determinar regras muito estritas de confinamento e lockdown durante a Páscoa; foi duramente criticada por todos os lados, e teve de recuar. Agora volta-se a falar em regras estritas de fechamento, confinamento e toque de recolher para depois dos feriados. É óbvio que nem tudo neste vai-vem é responsabilidade dela, talvez nem mesmo a maior parte.

Mas aí entra um segundo fator que certamente ajudou este vislumbrar-se de Merkel desde já como uma estrela cadente, embora ela vá deixar o governo somente no final de setembro, se tudo correr como esperado. É que ela assumiu uma posição parecida com a do Rei Lear, na tragédia do mesmo nome de Shakespeare. Na peça, Lear anuncia que deixará o trono britânico, repartindo o país entre suas duas filhas, Goneril e Regan, em detrimento da terceira, Cordelia que, na verdade, é a única que permanece fiel a ele. As outras duas o renegam e traem, e ele perde sua condição e se degrada. Angela Merkel está longe da tragédia shakespereana, mas pode-se considerar que o anúncio tão antecipado da disposição de renunciar a seus cargos de liderança de seu partido e de chefe de governo na Alemanha, enfraqueceram sua posição, ainda mais com o advento da pandemia e suas crises complicadas. Ela tornou-se, em parte, digamos, uma “monarca sem súditos”, uma vez que a disputa por seu posto já corre solta nos bastidores e mesmo no palco político. Ao mesmo tempo, não há, na Alemanha e nem mesmo na União Europeia outro político que sequer chegue perto de seu prestígio e de seu carisma. O tempo vai encurtando as distâncias; setembro já está no horizonte; ainda não há resposta clara para a pergunta: o que será de ambas, Alemanha e União Europeia, depois de Merkel, diante das tensões que se avolumam, com o reordenamento da geopolítica global?



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