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O que você não sabe não pode prejudicar Trump

"Diminuam os testes", disse ele. E é isso o que está acontecendo

22/07/2020 14:14

Trabalhadores da saúde em um posto de testagem em Sun City Center, na Flórida (Eve Edelheit/NYT)

Créditos da foto: Trabalhadores da saúde em um posto de testagem em Sun City Center, na Flórida (Eve Edelheit/NYT)

 

Estamos agora no estágio da pandemia da Covid-19 em que Donald Trump e seus aliados estão tentando suprimir informações sobre a propagação do coronavírus - porque, é claro, ele está se propagando. Fieis à forma, no entanto, eles estão muito atrasados. Do ponto de vista político (que é tudo com o que eles se preocupam), seus esforços de desinformação são poucos demais, tarde demais.

Onde estamos: em apenas alguns dias milhões de americanos verão uma queda drástica em seus rendimentos, à medida que os benefícios de desemprego, que tinham sido aumentados, expirarem. Isso exige uma ação urgente; mas evitar a calamidade econômica sempre seria difícil, porque os republicanos em geral tem se recusado a fornecer ajuda aos trabalhadores que foram desocupados pelas necessidades da pandemia.

Mas agora acontece que há outro obstáculo à ação: uma disputa interna ao Partido Republicano sobre o financiamento para testes e rastreamento de indivíduos infectados. Até os republicanos do Senado apoiam o aumento dos testes, o que é desesperadamente necessário dada a nossa situação atual: casos crescentes criaram um atraso de testes, e os resultados dos testes estão demorando tanto para voltar que são efetivamente inúteis.

Mas os funcionários de Trump se opõem a qualquer dinheiro novo para testes. Eles mal estão tentando oferecer desculpas para sua oposição, já que o próprio Trump explicou a estratégia há um mês em seu comício em Tulsa: Quando você expande os testes, ele declarou: “você vai encontrar mais casos, então eu disse ao meu pessoal: 'Diminuam os testes, por favor'".

O que você não sabe não pode prejudicar Trump

Ninguém deve se surpreender que a equipe de Trump esteja tentando suprimir más notícias sobre a pandemia. Isso era completamente previsível dada a ‘Projeção da Lei de Obama’: todas as teorias da conspiração da direita sobre o presidente Barack Obama indicavam o que os republicanos queriam fazer sozinhos, e fariam quando tivessem o poder.

Lembrem-se, por exemplo, das alegações selvagens de que o governo Obama estava na iminência de assumir militarmente o controle do Texas, com credibilidade emprestada por republicanos seniores? Agora temos agentes do Departamento de Segurança Interna não identificados, em veículos sem identificação, que apreendem pessoas nas ruas de Portland, Oregon. Lembram-se de alegações de que o governo estava secretamente construindo campos de concentração? Milhares de migrantes estão agora enclausurados em centros de detenção, muitas vezes sob condições horríveis.

E a atual guerra contra os testes de Covid-19 foi prefigurada por constantes alegações de que a administração Obama estava suprimindo más notícias econômicas. Os que acreditavam na teoria da conspiração relativa à inflação insistiam que os federais estavam escondendo o descontrole de preços que os direitistas previram, mas tal inflação nunca aconteceu. Os descrentes na taxa de desemprego - incluindo, notavelmente, um Donald Trump - declaravam que os números oficiais de emprego, mostrando uma economia em constante melhora, eram falsos, e que o desemprego era realmente muito maior do que o relatado.

Era inevitável, então, que os trumpistas fizessem o que falsamente acusaram Obama de fazer, e tentariam esconder números ruins da pandemia. Os esforços para realizar poucos testes são apenas parte da história.

O governo Trump ordenou recentemente que os hospitais parassem de relatar dados da Covid-19 aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, enviando-os a um prestador de serviços privado. Como resultado, os dados de internação, um indicador chave da pandemia, desapareceram do site do CCD antes de serem reintegrados após um clamor generalizado.

E alguns estados controlados pelos republicanos, notadamente a Geórgia, têm adulterado há meses os dados sobre as infecções por coronavírus, apresentando-os de maneiras enganosas que subestimam o problema.

O quebra-cabeça é o motivo pelo qual o último ataque aos testes chegou tão tarde. Uma dica de um profissional: se você está tentando esconder más notícias epidemiológicas, você deve começar o encobrimento antes que todos percebam que a pandemia está fora de controle.

Um fascinante post-mortem do Times sobre a malograda resposta à pandemia de coronavírus de Trump nos ajuda a entender o que aconteceu. E eu quero dizer mortem mesmo: os americanos estão morrendo de Covid-19 a uma taxa oito vezes maior que no Canadá, 10 vezes maior do que na Europa.

A conta do Times deixa claro que a equipe de Trump nunca considerou seriamente tentar lidar com a realidade da pandemia. Também deixa claro, no entanto, que as autoridades se convenceram em abril de que estavam se safando dessa responsabilidade, dado que o coronavírus estava indo embora.

E quando perceberam que o vírus não estava alinhado com seus jogos políticos, era tarde demais para esconder a verdade.

Neste ponto não está claro nem a que propósito deve servir a obstrução dos testes. A tentativa de projetar um boom econômico antes da eleição já falhou, já que os estados reabertos estão revertendo o curso. E Trump já desperdiçou toda a credibilidade sobre o coronavírus; mesmo que os números de casos relatados de repente começassem a parecer muito melhores, quem além de seus apoiadores mais comprometidos acreditariam neles?

Então isso parece menos uma estratégia política e mais uma tentativa de acalmar o frágil ego do chefe. Trump continua insistindo, falsamente, que a única razão pela qual estamos vendo tantos casos é muito teste, então seus assessores estão tentando acalmá-lo segurando testes.

E se isso mutila a resposta à pandemia nos EUA, tornando impossível uma estratégia de teste-ratreamento-isolamento, bem, lidar com o vírus nunca foi parte do plano.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli

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