Pelo Mundo

O racismo norte-americano é um diamante puro

 

31/05/2020 16:08

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
A chamam de Karen, um nome que indica uma certa idade e que, no contexto norte-americano, adverte que ela é branca. A Karen mais famosa hoje em dia é uma mulher que passeava pelo Central Park com o cachorro sem coleira, na segunda-feira (25/5), como de costume. Um homem negro que estava andando com binóculos pediu para ela colocar a coleira. Karen não hesitou, disse que não faria aquilo de forma alguma, pegou o telefone celular e chamou a polícia. Enquanto isso, o homem negro a filmava. Como se fosse uma artista, a mulher acrescentou a frase fatal: “vou lhe dizer que um homem negro está me ameaçando”. O homem, Christian Cooper, era um cientista político formado em Harvard, estava impecavelmente vestido e se explicou aos policiais com facilidade, simplesmente mostrando o vídeo da discussão. A mulher não foi presa, mas seus dados foram coletados e ela pode ser acusada de uma queixa falsa. O vídeo viralizou e na terça-feira, no dia seguinte, ela foi demitida de uma posição em uma empresa financeira.

Karen é a nova versão do velho personagem do branco que sempre vê os negros, morenos e amarelos como perigosos. Em outros estados, essas mulheres abrem fogo contra os perigosos ou chamam o marido para vir com o AR-15 automático. As Karen são senhoras que também acreditam que podem chamar a polícia para vencer qualquer discussão. As Karen sabem alguma coisa, sabem que são brancas e que, nos Estados Unidos, os brancos estão certos. O estranho do incidente no Central Park é que deu errado pela primeira vez.

Essa Karen urbana e desarmada recebeu críticas e ridicularização, e ela até teve que devolver o cachorro à sociedade protetora dos animais, porque está se mudando de Nova York. Em intermináveis programas de rádio e televisão, o caso foi bastante analisado, talvez até aliviados por ter algo sobre o que falar além do coronavírus. Falou-se em racismo, na arrogância da classe média, em tantas coisas. Até que apareceu o vídeo em que, naquela mesma segunda-feira, um policial de Minneapolis matou, quase sem querer, quase sem perceber o que estava fazendo, o também negro George Floyd. Então, os Estados Unidos começaram a arder.

Protestos violentos são uma antiga tradição americana e cada cidade do país é marcada pela memória de vastos incêndios. Detroit e Newark foram queimados pela morte de Martin Luther King, iniciando o período moderno desse tipo de protesto, em 1967. Não é à toa que o lúcido James Baldwin colocou no título de seus ensaios mais duros “Na próxima vez, o fogo”. Baldwin sabia, seu livro é de 1963. E também sabia que o racismo, o anti negro em particular, é o diamante imutável, que parece estar no centro da identidade americana. Você pode ser racista, pode ser anti racista, pode estar farto do assunto, mas não pode ser indiferente.

É uma das primeiras lições para o imigrante e mora nos Estados Unidos, isso de que, de acordo com sua cor, você precisa aprender seu lugar. Os africanos olham com espanto a situação em que estão ao passar pela estátua da liberdade: de repente, eles são de segunda categoria, questionáveis, perigosos, mal vistos ou invisíveis. O branco também precisa aprender que é branco, o que parece bobagem, mas significa tanto que se percebe o ressentimento de alguns com o poder de ser uma Karen, talvez. Eles mostram isso para você já no aeroporto, onde se vê fileiras imóveis de negros, asiáticos e centro-americanos que são examinados com uma lupa, enquanto os brancos da classe média passam após algumas perguntas formais. Se sua estadia for mais do que apenas umas férias, a mensagem é clara: adapte-se, saiba qual é o seu lugar.

Essa “doença norte-americana”, como mais de uma a conhece, ganhou um valor considerável por sua viabilidade política. Em qualquer país que não seja perfeitamente homogêneo, o racismo é uma coisa cotidiana. É o que faz nossa polícia considerar correto e funcional perseguir os vendedores ambulantes com qualquer grau de violência, já que eles são africanos ou morenos. E é o que faz com que muitos resolvam a menor discussão com um “negro de merda”, que exista a categoria ontológica da “negrada” – sinônimo para “coisa de miseráveis” –, que estuprar meninas pobres também seja considerado coisa de imigrantes. O racismo é muito concreto e se baseia em memórias reais: por exemplo, o fato de que, nos Estados Unidos, alguns eram escravos de outros, e que, aqui na América do sul, uns usam o chicote e outros são chicoteados.

A diferença é que, nos Estados Unidos, em 1910, alguém reuniu um milhão de membros para uma nova organização chamada “O Império Invisível dos Cavaleiros da Ku Klux Klan”, dedicada exclusivamente a colocar os negros “em seu lugar”. Que lugar? O que eles tinham antes da guerra civil, de escravos, de propriedade, de não-pessoas. Em 1787, os gloriosos Estados Unidos concordaram legalmente que um negro, livre ou escravo, valia “três quintos de um homem”, no final do primeiro censo, em 1790. Para os negros isso não importava, a menos que alguém lhes dissesse que no texto da lei dizia que “apesar de sua vida miserável, eles são humanos”. Este segundo Klan – o primeiro era uma guerrilha do Sul – acabou sendo uma força política formidável no Sul e no Oeste, instalando seus aliados, racistas conhecidos, em governos, parlamentos e delegacias de polícia. O que eles descobriram foi que o racismo era uma ferramenta eleitoral.

Política, preconceito e identidade se entrelaçam e criam algo duradouro, difícil de mudar. Algo que é natural, habitual, e é isso que é assustador. A parte mais sombria do vídeo que mostra como o policial branco, Derek Chauvin, matou o suspeito negro, George Floyd, é a falta de compaixão. Floyd se entrega, se deixa algemar, resiste passivamente. Ele não empurra, não fica bravo, ele simplesmente cai no chão para que eles não o ponham no carro de patrulha. Eles o derrubaram, o jogam de bruços no chão, Chauvin apoia o joelho no pescoço e o ignora. Floyd alerta que está sendo asfixiado, implora para ser libertado, chama por sua mãe. Chauvin nem dá bola, ele está em outra, não está com raiva, ele não bate nele, ele não grita com ele. Tudo é rotineiro que, quando percebem que Floyd morreu, Chauvin está tão decidido que mantém o joelho sobre sua vítima por mais três minutos. Seus colegas precisaram avisá-lo de que o detento estava morto para que ele pudesse levantar a perna.

Essa banalidade no mal é paralisante. Chauvin foi imediatamente demitido e acusado criminalmente de assassinato em terceiro grau. É uma descrição burocrática do que aconteceu, uma morte sem premeditação, com negligência, com descaso. É exatamente assim que você trata alguém que não é exatamente um ser humano, que é três quintos de um ser humano, alguém que não é difícil tratado como um igual. Chauvin, nascido e criado nos Estados Unidos, aprendeu bem as lições que são ensinadas a todos os imigrantes.

Além disso tudo, está o fato de que Minnesota é um estado progressista, sob hegemonia do Partido Democrata, e que o prefeito de Minneapolis não é suspeito de ser racista. Aliás, a direita local, que inicialmente ficou calada devido à frieza indefensável do vídeo, já o acusa de incitar a violência nas ruas, devido ao seu rigor com os policiais envolvidos. Esse racismo é muito mais complexo do que uma simples questão de republicanos contra democratas.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli



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