Pelo Mundo

O último Angelus de Bento XVI

25/02/2013 00:00

Eduardo Febbro

Roma - O último Angelus de Joseph Ratzinger chegou muito antes do tempo. Um homem debilitado pela idade e pela turba de conspiradores que compõe a hierarquia católica que o rodeia se despediu neste domingo dos 200 mil fieis que se reuniram na Praça São Pedro para escutar a missa final de Bento XVI. A fé dos crentes aparece neste local, à flor da pele, como uma infância eterna, cega e surda aos malefícios que espreitam a Igreja. A fé sim, mas o fervor pelo homem que se despedia, não. Joseph Ratzinger apareceu ao meio-dia na minúscula e distante janela onde os papas oficiam as missas. Inacessível, solitário, quase invisível, com a voz pausada pelo cansaço, Bento XVI disse que sua partida não significava um adeus, mas sim outra forma de permanecer no seio da igreja: “Se Deus me pede isso, é porque poderei continuar servindo com as mesmas condições e o mesmo amor com o qual trabalhei até agora, mas de um modo mais adequado a minha idade e a minhas forças”, disse o papa.

Enquanto falava e inclusive quando fez uma saudação, não se ouviram as ovações, nem os aplausos massivos, que costumavam acompanhar as intervenções de João Paulo II. Apenas uns aplausos discretos que manifestavam mais o cumprimento de um dever ditado pela fé do que a adesão a esse homem que deixa a arca em meio à pior tormenta que a Igreja Católica conheceu ao longo dos séculos. No entanto, os fieis reconheciam seu trabalho, ter destapado os segredos mais sujos da igreja como a pedofilia, suas reflexões teológicas e morais e seus últimos esforços para limpar as contas sujas do Vaticano. Ratzinger não é um papa de e para as massas. Foi um papa de outra época e esta, com seu lote de imoralidades e roubos planetários, encurtou seu mandato.

A frase que Ratzinger pronunciou há alguns dias ante a cúria romana tem acentos de legado: “estarei sempre com vocês, mas permanecerei escondido para o mundo”. Desde já. Seu sucessor terá que encarar o que ele deixou pela metade do caminho: a cumplicidade com os padres pedófilos, as finanças vaticanas e as ferozes lutas de poder que desarticularam a igreja. O segredo, no domingo, não estava na misteriosa persistência da fé, mas sim atrás de sua janela. Qual será o destino, daqui para frente, do secretário de Estado do Vaticano, monsenhor Tarcisio Bertone? Este responsável é um dos operadores centrais da crise que conduziu à renúncia do papa. Seu apetite em manter sob sua influência as chaves do Instituto para os Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano, desatou uma guerra de lobos nas altas esferas da Igreja.

Há cerca de um ano, Bertone moveu os fios até conseguir a destituição do homem que bento XVI havia nomeado para conduzir o IOR com o objetivo de sanear uma instituição comprometida com a lavagem de dinheiro e a máfia, o banqueiro Ettore Gotti Tedesch. Empenhado em cumprir as normas europeias em matéria de luta contra a lavagem de dinheiro, Tedesch abriu os segredos do IOR às autoridades italianas. Fez mais do que isso: também preparou um informe onde identificava a forma obscura pela qual tinha trabalhado o banco do Vaticano. Bertone se enfureceu e juntamente com seu protegido, Marco Simeon, preparou a armadilha que decapitou o banqueiro aliado do papa. Simeón, um jovem tão ambicioso como exitoso de apenas 34 anos, aparece nos vatileaks vinculado com obscuros manejos financeiros. Foi ele que armou a cena para que um psicólogo elaborasse um informe onde Ettore Gotti Tedesch aparecia definido como um homem de “comportamento anômalo”.

O temor que assolava Simeón e o cardeal Bertone era que Tedesch desse o passo final e, de alguma forma, terminasse por revelar os nomes por trás dos quais se escondia a identidade das famosas e nada limpas contas cifradas do banco do Vaticano. Bertone e Tedesch se enfrentaram também no episódio do resgate do hospital São Rafael, de Milão, que o Secretário de Estado queria resgatar (30 milhões de euros) com fundos do banco do Vaticano. Mas Tedesch recusou liberar esses fundos.

Guerra pessoal, sem piedade e sem quartel. O banqueiro do papa acusou Simeón de pertencer à loja maçônica P4. Daí para frente, as vinganças se tornaram fatos cotidianos. Simeón, que dirigia a RAI do Vaticano, perdeu seu posto e Ratzinger cortou as asas de Bertone colocando um homem seu à frente do IOR. Trata-se do barão Ernst Von Freyberg, cavaleiro da Ordem de Malta. Segundo o Vaticano, Freyberg possui “uma grande experiência das questões financeiras e nos processos de regulação financeira”.

O diário “Il Messagero” disse que a nomeação do barão “era produto de um doloroso compromisso”. O processo de indicação do barão Ernst Von Freyberg é muito curioso. O porta-voz do Vaticano, o padre Lombardi, reconheceu que o papa “não conhecia Freyberg pessoalmente”. De fato, a Santa Sé recorreu aos serviços de uma agência especializada em “caçar” talentos, Spencer & Stuart, para contratá-lo. Ao cabo de inúmeras disputas entre as diferentes facções vaticanas em torno dos candidatos – houve uma primeira seleção de 40 – a decisão recaiu no Barão.

Estes personagens de batina e poderes imensos que rodearam o papa ficarão em suspense até que o conclave nomeie o próximo chefe da Igreja Católica. Nada indica que isso significa o encerramento do capítulo dos escândalos sexuais e financeiros. Talvez a única coisa que ocorra seja o fechamento da grande caixa para que seus segredos não sigam escapando.

Tradução: Katarina Peixoto








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