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Obrador age para frear roubo de combustíveis e evitar primeira tentativa de sabotagem ao seu governo

 

10/01/2019 19:25

Créditos da foto: "Não podemos ser cúmplices de roubos e corrupção. Acabar com a corrupção é dever de todos, e não só do presidente", disse AMLO em uma conferência (Yazmin Ortega Cortés)

 

Duas palavras se tornaram muito comuns nos noticiários mexicanos nestes primeiros dias de governo de Andrés Manuel López Obrador (empossado no dia 10 de dezembro passado): huachicoleo, um termo que se usa somente no México, significa roubo de combustíveis, e huachicolero se refere às pessoas ou grupos organizados que se dedicam a essa atividade.

O huachicoleo se transformou na primeira crise de Obrador como presidente, embora o problema já exista há alguns anos, sendo um poderoso e constante golpe contra a economia mexicana e a estatal petroleira Pemex. Se estima que os grupos organizados chegam a desviar até 9 milhões de litros de gasolina por ano, o que resultaria em cerca de 3 bilhões de dólares em prejuízos para a empresa e o Estado mexicano.

Pressionado pela imprensa, o novo presidente aceitou o desafio de combater os casos e frear o desperdício de riquezas e recursos. As medidas tomadas até agora incluem maior capacidade de rastreamento dos caminhões-tanque e até mesmo o fechamento de válvulas de 4 dos 13 oleodutos do país, suspeitos de estarem sendo desviados. Segundo o governo, essas medidas tiveram o efeito de diminuir quantidade de caminhões-tanque roubados (de quase 800 veículos por dia a menos de 200), o que significa cerca de 129 milhões de dólares de prejuízo diário a menos.

Contudo, algumas localidades mexicanas vêm sofrendo com a escassez de combustível, devido às represálias das grandes redes de huachicoleo, que deixaram de revender o produto roubado no mercado negro e o estão levando para fora do país (Estados Unidos, Guatemala ou Belize). Em alguns lugares mais distantes da região central, nos extremos norte e sul do país, é possível ver filas de até dois quilômetros, brigas entre consumidores e pessoas enchendo galões, preocupadas com a duração da crise.

Diante dessa situação, o governo tenta pedir calma à população, e assegura que já está trabalhando em um plano de contingência para as regiões mais afetadas. Contudo, também afirma que não retrocederá no processo de “limpeza” dentro da estatal Pemex, no que diz respeito ao desvio e roubo de combustíveis.

Acusação aos antecessores

Segundo Obrador, três presidentes que o antecederam (Vicente Fox, Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto) conheciam com detalhes as cifras de roubos de hidrocarbonetos, mas não atuaram. “Foram omissos diante de um problema que afetou a economia do país”, acusou o atual mandatário.

Obrador afirma que o caso dos huachicoleos é diferente dos sistemas de informação sobre homicídios, no qual a administração só recebe um informe com as estatísticas levantadas a cada duas semanas ou um mês. “Neste caso, os governos anteriores recebiam relatórios diários mostrando os casos, com cifras sobre o número de ataques e o valor das perdas para o país e para a empresa, tinham toda a informação que se necessitava para atuar, e não o fizeram”, assegurou o presidente, em coletiva de imprensa realizada no Palácio Nacional.

“Havia uma espécie peculiar de cegueira, de quem não queria ver. E como alguém não vai perceber que estão roubando quase mil caminhões-tanque todos os dias? Era uma espécie de tolerância”, insistiu Obrador, que completou apontando nomes: “todos os presidentes sabiam, desde (Vicente) Fox (2000-2006)”.

Questionado sobre se conversou sobre este tema com o ex-presidente Enrique Peña Nieto, Obrador reconheceu que não foi tema dos diálogos que tiveram durante a transição, pois “só tomei conhecimento da dimensão do problema quando assumi o cargo”. Contudo, afirmou que “é evidente que ele sabia, tanto é assim que já existe um sistema de informação estabelecido para entregar esta informação, diferente do que há para levantar o número de homicídios e roubos comuns, que requerem mais tempo para levantar as estatísticas”.

Apoio dos sindicatos

Através de um comunicado, o Sindicato de Trabalhadores Petroleiros da República Mexicana (STPRM), qualificou como “valente” a luta contra a corrupção na empresa Pemex, e manifestou seu “apoio às ações impulsadas pelo governo do presidente López Obrador para o combate ao huachicoleo”.

O texto, dirigido ao mandatário e à opinião pública, assegura que “para que haja gasolina e diesel no México, é preciso `fazer uma limpeza´ no modelo de fornecimento e distribuição”, e pede à população que seja compreensiva com alguns dos primeiros efeitos que essas mudanças poderiam causar no que diz respeito a preços e disponibilidade dos produtos.

O sindicato, liderado por Carlos Romero Deschamps, ressalta que “os esforços do governo para erradicar a corrupção e impulsar um novo modelo mais eficiente e transparente, significará maior honestidade na produção, fornecimento e distribuição dos combustíveis”.

O STPRM agrega que é preciso estabelecer uma “nova relação sindicado-empresa para que dela surja uma `nova era de produtividade´”, e assegura que os problemas de escassez de combustível que se observam em algumas regiões “será passageiro, e é um pequeno custo que temos que enfrentar para transformar a Pemex, mudá-la para melhor”.

*Com informações do La Jornada

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