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Observadores brasileiros analisam impacto da vitória do Hamas na Palestina

Eleições na Palestina foram monitoradas por 900 observadores internacionais. Para missão brasileira, processo foi legítimo. Para secretário da Confederação Árabe-Palestina do Brasil, Emir Murad, Hamas está disposto a discutir armistício e reconhecer Estado de Israel.

03/02/2006 00:00

SÃO PAULO - As eleições palestinas, encerradas em 25 de janeiro com a vitória surpreendente do Hamas (sigla para “Movimento Islâmico de Resistência”), foram acompanhadas de perto por uma missão de observadores brasileiros. A missão, composta por políticos e diplomatas, avaliou o grau de transparência do processo de votação. Mais de um milhão de palestinos – cerca de 74% da população – foram às urnas. “Considerando-se que a votação não é obrigatória, o número espanta”, afirma o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC), que foi um dos observadores.

Para os membros da missão, houve tranqüilidade nas eleições. Apenas um incidente foi registrado: um grupo de judeus ortodoxos tentou impedir que a seção eleitoral de Jerusalém Oriental fosse aberta, mas rapidamente foram inibidos pela presença da polícia israelense, que garantiu o funcionamento das urnas. “O processo eleitoral não deixa nada a dever para as eleições ocidentais. Não constatei nenhuma irregularidade”, disse Mourão. Para outros membros da equipe, a eleição refletiu a vontade do povo palestino por mudanças políticas.

A delegação chegou na Palestina um dia antes das eleições. “Em Gaza, fizemos algumas audiências, incluindo uma com a Comissão Eleitoral Palestina, o equivalente ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) brasileiro”, aponta Mourão. “No dia da eleição, fomos para a Cisjordânia. Tivemos audiências em Ramallah, em Belém e em Jericó”, diz ele.

As pesquisas de boca-de-urna na Palestina apontavam um empate técnico entre o Hamas e Al Fatah. Mas o resultado mostrou que o “Movimento Islâmico de Resistência” conseguiu a maioria das cadeiras do Parlamento. Foram 74 das 132 vagas legislativas, ou 56%. Além disso, o Hamas tem o direito de escolher o primeiro ministro da Palestina. Há quarenta anos o Al Fatah governava a ANP (Autoridade Nacional Palestina) com ampla maioria.

Mourão atribui a vitória do Hamas à sua relação direta com a sociedade. Apesar de haver células terroristas, “o Hamas surgiu para lidar com a base da sociedade, para representar as camadas mais pobres. Eles expuseram os erros da ANP”, diz o deputado. Para ele, as peças de propaganda do grupo vitorioso traziam três elementos principais: o apego intransigente à religião islâmica, a retirada dos judeus da faixa de Gaza e a má-administração da ANP pelo Al Fatah.

“O povo palestino quer o poder político associado com o poder religioso. Eles rejeitam o Estado laico”, diz Emir Murad, secretário-executivo da Copal (Confederação Árabe-Palestina do Brasil). A retirada dos judeus de Gaza foi outro ponto importante. Na opinião de Mourão, “o Hamas difundiu a mensagem de que os israelenses saíram correndo da Faixa de Gaza”. O partido teria prometido ajudar o povo a expulsá-los da Cisjordânia. “Gaza é o berço do Hamas, e sua libertação ampliou o apoio ao partido”, disse o deputado.

HAMAS ELEITO. E AGORA?

O secretário da Copal, que acompanhou as eleições através da imprensa brasileira, acredita que o Hamas está disposto a discutir o armistício e a reconhecer Israel como estado, desde que a Palestina seja beneficiada com a independência política e territorial.

Murad considera que as sanções econômicas que os EUA e a União Européia discutem fazer com a Palestina são uma chantagem. “Querem sufocar o povo palestino”, diz ele. Para Mourão, negociação entre os países do ocidente e a Palestina “vai ser um jogo, e quem dará as cartas será o Hamas”. Ele avalia que “o partido palestino têm dado amostras de força política”.

Outro deputado federal muito ligado à causa palestina, Jamil Murad (PCdoB – SP) crê que o Hamas terá mais flexibilidade para agir como governo. “Eles precisam vencer o obstáculo da violência”, diz ele. Jamil também acompanhou o processo eleitoral palestino do Brasil.

Todos eles concordam que o corte de apoio financeiro internacional para a Palestina – que é da ordem de US$ 1,5 bilhões – levará o povo à bancarrota. “As pessoas serão punidas por votarem no Hamas. Elas empobrecerão”, lamenta Jamil. Mourão afirma que dinheiro garante o pagamento de servidores públicos e a manutenção de hospitais e escolas em Gaza e na Cisjordânia.

Já a posição de Israel não é de doadora de recursos: a nação judaica arrecada impostos do povo palestino e os repassa ao Ministério das Finanças do país árabe. “Se Israel se negar a repassar os impostos, estará confiscando dinheiro palestino e haverá reação”, diz Jamil.

Os três entrevistados acham normal que o Hamas peça ajuda para países da América do Sul, incluindo o Brasil. “Se o Hamas foi eleito democraticamente, o Brasil precisa ajudá-lo”, diz Mourão, que é vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. “Convidarei os membros da delegação palestina a participarem de uma audiência na Câmara”. Tanto Jamil quanto Emir acreditam que o reconhecimento do Hamas como partido eleito deve ser feita pelo Brasil e pelos países-membros da ONU.

DADOS SOBRE OS OBSERVADORES

O processo de eleição foi monitorado por mais de 900 observadores estrangeiros. Se o número for dividido pela quantidade de seções eleitorais, resulta em quase um observador por seção. Dentre os observadores estavam o ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, e a ex-secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright. Dentre os observadores do Oriente Médio, participaram 33 egípcios e 25 jordanianos, em nome de ONGs e de diferentes partidos. A União Européia enviou 240, o maior número de observadores.

A missão brasileira foi composta pelo deputado federal Nilson Mourão (PT-AC); o deputado federal Wasny de Roure (PT-DF); o embaixador especial do Brasil para o Oriente Médio, Afonso Celso de Ouro Preto (que liderou a delegação); o ministro Josal Pellegrino, chefe da Representação Brasileira junto à ANP (Autoridade Nacional Palestina) em Ramallah; o diplomata Rodrigo do Amaral Souza; o diplomata Mário Saad; o deputado distrital Chico Floresta (PT-DF); e o deputado distrital Augusto Carvalho (PPS-DF).

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