Pelo Mundo

Operação brasileira na Venezuela terminou em fiasco

Brasília tentou impulsar uma manobra no dia 23 de fevereiro, mas seus realizadores cometeram um grosseiro erro de cálculo, ao supor que o governo de Maduro desmoronaria como um castelo de cartas. Após o fracasso, o vice-presidente Mourão afirmou que o país não apoia planos belicistas

27/02/2019 10:44

Bolsonaro sugeriu participar de um plano 'bélico' contra o governo Maduro

Créditos da foto: Bolsonaro sugeriu participar de um plano 'bélico' contra o governo Maduro

 
Jair Bolsonaro sofreu um revés diplomático no último fim de semana, ao aderir à estratégia de Donald Trump e servir de aríete para “ajuda humanitária” enviada à Venezuela a partir da cidade fronteiriça de Pacaraima, em Roraima, como forma de atacar Nicolás Maduro. Pensado como um golpe capaz de fazer com que generais e almirantes traíssem o presidente venezuelano, a operação do sábado foi um fiasco: somente sete militares de baixa patente solicitaram refúgio no Brasil. Uma cifra insignificante para o gigante latino-americano cujo vice-presidente, o ex-general Hamilton Mourão, participou segunda-feira (25/2), ao lado do chanceler Ernesto Araújo, da cúpula do Grupo de Lima, realizada na Colômbia.

O tono das declarações pronunciadas pelo militar, citando o princípio de não intervenção em assuntos internos de outros países, está longe das realizadas pelo presidente há alguns meses, quando sugeriu que o país seria partícipe em um possível plano “bélico” contra Caracas, o que contemplaria autorizar a instalação de bases militares norte-americanas em território amazônico.

No discurso contido do vice-presidente Mourão, foi possível entender a postura do generalato brasileiro, que pretende se diferenciar da intrepidez verbal do mandatário e de seus filhos.

Um parêntese: Eduardo Bolsonaro, um dos influentes membros do clã familiar, disse recentemente, em viagem aos Estados Unidos, que “o fim de Maduro e sua narcoditadura estão contados”.

Em Bogotá, Mourão se apresentou ao Grupo de Lima sem deixar dúvidas de que pretende se diferencia dos Bolsonaro, algo que também demonstrou em suas posteriores declarações à imprensa. Em entrevista ao canal GloboNews, ele descartou completamente a hipótese de instalação de uma base norte-americana na fronteira com a Venezuela.

Claro que este jogo de estilos pode ser só uma jogada retórica, na que o vice simula se opor ao mandatário para que o regime contenha dentro de si tanto os setores governistas quanto uma pseudo oposição.

Também é verdade que quando se trata de jogos de guerra e movimentos geopolíticos, a realidade não se pode ocultar tão facilmente. O fracasso do sábado é um lastre que pesa por igual contra toda a primeira linha do poder, desde o Palácio do Planalto até o Ministério de Defesa.

O fato que não se pode ignorar é que Brasília tentou impulsar uma manobra no dia 23 de fevereiro, mas seus realizadores cometeram um grosseiro erro de cálculo ao supor que o governo de Maduro desmoronaria como um castelo de cartas.

Uma avaliação equivocada, que tornou mais evidente para a opinião pública que a ação do fim de semana era uma estratégia de propaganda.

No momento mais midiático do operativo publicitário do sábado – quando os cantores José Luis “El Puma” Rodríguez e Miguel Bosé “cantaram pela liberdade” em Cúcuta –, o opositor Juan Guaidó chegou a festejar nas redes sociais que um carregamento com alimentos havia atravessado os controles aduaneiros da fronteira entre Brasil e Venezuela, e entrado ao Estado de Bolívar. Aquela noticia falsa foi assumida como própria pelo governo brasileiro, e festejada pela imprensa verde-amarela, insuflada por um espírito de cruzada patriótica que se desmantelaria horas depois, quando veio a informação de que as duas caminhonetes não puderam passar pelo cordão da Guarda Nacional Bolivariana, estabelecido a poucos quilômetros da cidade venezuelana de Santa Elena de Guairén.

Rachadura geopolítica

Pacaraima se encontra a mais de 2,5 mil quilômetros de Brasília, em linha reta, que aumentam a 4,4 mil quilômetros seguindo pelas poucas estradas que cruzam a Floresta Amazônica – as quais são intransitáveis durante as temporadas de chuva.

Para Bolsonaro, seria conveniente que a agenda nacional fosse contaminada com relatos de um eventual conflito nos confins do seu país, que pudesse tirar os holofotes dos escândalos que vêm marcando seus primeiros meses de governo.

Se decide embarcar numa aventura belicista, poderia levar o país a riscos verdadeiros.

No sábado ficou claro que a entrada de ajuda humanitária por Pacaraima, a partir da região sul da Venezuela, não era tão fácil como se planejava, e que o norte brasileiro também apresenta vulnerabilidades.

Pontos fracos que foram alertados pelas autoridades do Estado de Roraima, onde se encontra a maior parte da fronteira de 2199 quilômetros entre o Brasil e a Venezuela. O governador roraimense, Antônio Denarium, declarou que se a tensão com Maduro se agrava, poderia haver um apagão por tempo indefinido, já que mais da metade da energia consumida pelo Estado provêm da hidrelétrica venezuelana de Gurí.

Teresa Surita, prefeita de Boa Vista (capital de Roraima), afirmou que os hospitais estão a um passo do colapso, porque não têm capacidade para receber mais refugiados venezuelanos, e o mesmo quadro de saturação é denunciado pelos órgãos de segurança pública – algo que se agrava ainda mais pelo fato de que as prisões mais importantes de Roraima estão controladas pela organização criminosa chamada Primeiro Comando da Capital (PCC), que chegou iniciar uma série de motins em penitenciárias do norte do país, o que produziu dezenas de mortes em várias capitais de estados amazônicos.

Os problemas estruturais do Estado de Roraima estão ligados também à sua pequena população, de menos de 600 mil habitantes. Essa baixa densidade demográfica é uma ameaça para toda a Amazônia brasileira, que em seus mais de 4 milhões de quilômetros quadrados, divididos entre sete estados, possui menos de 25 milhões de habitantes.

Os especialistas em estratégia militar concordam ao dizer que a falta de proteção observada na Amazônia brasileira e a desvantagem em matéria de equipamentos na comparação entre as suas Forças Armadas e as venezuelanas, dotadas de modernos caças bombardeiros Sukoi e baterias antiaéreas, tudo de fabricação russa.

Dois militares que também são ministros do gabinete de Bolsonaro declararam, em entrevista ao site de notícias UOL que o Brasil seria prejudicado se a crise venezuelana escala a uma fase militar. Falando em condição de anonimato, disseram uma possível guerra seria muito desvantajosa, já que o país possui uma capacidade bélica irrelevante em comparação ao seu aliado Estados Unidos, e também com relação aos seus potenciais inimigos, Rússia e China.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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