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Oposição venezuelana ganha seu quarto governador, mas ainda não consegue se unir

 

12/01/2022 09:04

(Rayner Peña R./EFE)

Créditos da foto: (Rayner Peña R./EFE)

 
Sergio Garrido, candidato da MUD (Mesa de Unidade Democrática), coalizão que abriga os partidos da oposição venezuelana, venceu as polêmicas eleições para governador do estado de Barinas, realizadas neste domingo (9/1).

Assim, a oposição passa a contar com quatro governadores de províncias – existem 23 no país, as demais são governadas pelo chavismo.

Esta eleição teve um impacto político particular, porque já havia vencido em dezembro, mas a votação acabou sendo anulada, devido à desqualificação do candidato opositor Freddy Superlano. A oposição questionou e até algumas figuras do chavismo questionaram aquela decisão, que foi tomada pela Sala Eleitoral do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, mas não impediram que o pleito fosse repetido neste último fim de semana.

A derrota em Barinas tem um aspecto simbólico inquestionável, já que ocorreu no estado natal de Hugo Chávez. “Há razões mais profundas que não começam nem terminam em Barinas. Estamos diante de um governo que já se esgotou, que adoeceu o Estado e que nos esforçamos em reproduzir como a panaceia”, afirma o sindicalista e deputado Jacobo Torres de León.

“Um Estado doente morrendo nas mãos de oportunistas, burocratas e novatos, que ignoram o presidente e se deleitam em seus pequenos tronos. Ministros, presidentes de empresas estatais, funcionários intermediários, que fazem o exercício do governo, a festa das hienas. Temos que deixar de fazer o jogo do capital, parar de fazer ‘gestão’ e fazer revolução”, acrescentou.

A socióloga Maryclén Stelling já havia antecipado: a sociedade venezuelana parece ter chegado a um ponto sem volta, caracterizado pelo desencanto, desilusão, apatia e desafeto político, condição oposta às alcançadas nos primeiros anos da Revolução.

“O declínio geral do voto para o chavismo é uma expressão do esgotamento da expressão política eleitoral, causada pelo fato de que a base popular que sustentou a Revolução, que em outros tempos eram os excluídos e os trabalhadores, agora são obrigados a gastar todo o seu tempo e energia em realizar atividades adicionais para sobreviver em uma economia dolarizada de fato”, alertou a acadêmica.

“É melhor não dizer nada e começar a trabalhar na formação política e na eficiência. O chavismo deve ser renovado, esse é nosso desafio, dialeticamente falando. Algo está se perdendo fôlego, e deve dar lugar ao novo. Ou melhor não digo nada, para que eles (o governo) não comecem a agir na hora certa justo comigo”, comentou Guillermo Vizcaya.

Um triunfo da oposição nas terras de Chávez

A vitória da oposição foi possível apesar de o governo ter utilizado forças nacionais e corporações estatais durante a breve campanha. Nicolás Maduro usou todo o poder da máquina, mas não foi suficiente. Garrido derrotou Jorge Arreaza, ex-chanceler e ministro da Indústria e Produção Nacional, obtendo 55,37% dos votos, contra 41,26% do segundo colocado, em uma eleição na qual participaram 52,23% dos eleitores habilitados.

Diante da situação de desgaste em Barinas, Arreaza, genro do ex-presidente, levantou o velho slogan de Chávez, “revisão, retificação e reimpulso”, no marco de uma campanha que colocou o ex-presidente no centro do debate. Nem isso foi suficiente.

A eleição foi realizada em um estado de forte carga simbólica, por ser o berço de Hugo Chávez, e por ter sido governado pelo chavismo por 23 anos consecutivos: primeiro por seu pai, Hugo de los Reyes Chávez, depois pelo irmão Adán Chávez – atualmente embaixador em Cuba –, e finalmente por seu outro irmão Argenis Chávez, que renunciou à sua nomeação após a derrota em 21 de novembro.

A cidade de Sabaneta, em Barinas, onde Hugo Chávez nasceu e foi criado, faz parte de sua mitologia, mas também está marcada por inúmeras dificuldades no fornecimento de petróleo, gás e eletricidade – como grande parte do país. Também é conhecida, nos últimos tempos, pelas críticas da população à gestão dos governadores.

As bases chavistas em Barinas atribuíram a derrota a “uma parte da direção, que pratica um modo autocrático de fazer política, distanciado das bases, sem conteúdo ideológico, meramente assistencialista, que trata o povo como reservatório de esmolas”. Por exemplo, ressaltaram que há atrasos frequentes na entrega de sacolas de alimentos subsidiados por meio do CLAP (Comitê Local de Abastecimento e Produção).

O fornecimento de eletricidade e gás de cozinha também sofrem cortes constante, muitas vezes obrigando a população a utilizar lenha, ou gerando longas filas para abastecimento de combustível e exigindo dos cidadãos o pagamento em dólar estadunidense ou peso colombiano, apesar de nem todos possuírem essas moedas.

A oposição e a opção eleitoral

Para alguns analistas, o resultado reivindica uma estratégia realizada pela União Europeia, de incentivar a participação no processo político, a qual vinha sendo resistida por alguns membros da oposição. Como o mecanismo eleitoral e seu potencial foram reafirmados na oposição, pode-se pensar que, no futuro, este setor não apostará mais pela abstenção.

O jornal estadunidense Voz de las Américas publicou em editorial que a vitória da oposição “é combustível para a ideia de realizar um referendo revogatório este ano”, opção proposta por Washington que está sendo estudada pela oposição, mas ainda não há uma decisão.

Anteriormente, James Story, embaixador dos Estados Unidos para a Venezuela (que trabalha em Bogotá) deixou as portas abertas para uma campanha visando ativar essa possibilidade, afirmando que tal iniciativa não implicava no reconhecimento de Nicolás Maduro – algo que é contraditório, já que não é muito convincente a ideia de revogar um mandato se você mesmo defende que ele não existe.

Apesar das comemorações pelo triunfo em Barinas, a oposição continua marcada pela fragmentação e pela falta de estratégias em comum a seguir, atravessada por disputas públicas, especialmente graças à figura de Juan Guaidó, que Washington insiste em reconhecer como “presidente interino”, mas que dentro do país se reduz a uma virtualidade incentivada apenas por alguns meios.

Outro elemento destacado pelos analistas é o revés sofrido pela possibilidade de criação de uma oposição diferente do chamado G4 – que conta com outras figuras como Leopoldo López e Henry Ramos Allup, também desgastadas, mas que sentem revalidadas pela vitória em Barinas.

Por sua parte, o partido governista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) é governo estadual em 19 das 23 províncias, em 205 das 322 prefeituras, mas enfrenta uma tendência de diminuição das possibilidades reais de voltar a crescer num contexto de forte desgaste político generalizado, onde a divisão da oposição não é garantia de vitória, como se viu no último domingo.

Encontrará a oposição – apoiada e financiada pelos Estados Unidos e pela União Europeia – um processo de unificação e acumulação de força no horizonte das eleições presidenciais de 2024? Apostará na opção do referendo revogatório? Ou continuará insistindo nos atalhos, como as invasões de mercenários ou tentativas de golpe? A verdade é que o que os líderes da oposição pensam não importa muito.

Hoje o governo de Washington analisa as opções, enquanto o governo de Maduro consegue estabelecer um freio ao declínio econômico que vinha ocorrendo desde 2014, com um possível crescimento do Produto Interno Bruto e uma maior circulação de dinheiro (nas zonas burguesas de dólares). Enquanto isso, persiste a falta de gás, eletricidade, transporte, água e às vezes até gasolina, em várias cidades do país.

Álvaro Verzi Rangel é sociólogo venezuelano, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sênior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em Sur y Sur | Tradução de Victor Farinelli




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