Pelo Mundo

Ortega descarta renunciar à presidência da Nicarágua

Mandatário nicaraguense afirma que os grupos paramilitares que atuam em seu país são controlados por partidos políticos

24/07/2018 15:55

 

 
 
Por Antonia Laborde, para o El País
 
Daniel Ortega parece viver em outra Nicarágua. Do seu ponto de vista, seu governo não reprime os manifestantes que reclamam desde abril contra o regime. Os bispos e religiosos não foram atacados. O país está vivendo um período de “normalização” em meio aos protestos. E a violência que se vê nas ruas é exercida por paramilitares que não são controlados pelo Executivo. Ademais, descarta a antecipação das eleições presidenciais, apesar da pressão exercida pela oposição e os organismos internacionais: “nosso período eleitoral finaliza com as eleições de 2021”, esclareceu nesta segunda-feira (23/7), em entrevista ao canal estadunidense Fox News.

No mesmo dia em que os estudantes foram às ruas de Managua para protestar pelos mais de 100 alunos que perderam a vida nas sangrentas manifestações que se iniciaram há mais de três meses, o presidente Ortega disse que a situação de crise social já vem sendo contornada desde a semana passada, e o país está “voltando ao normal”. Afirmou que tudo começou com a aprovação da “reforma do sistema de Seguridade Social, a qual ele qualificou como imprescindível. “As primeiras manifestações foram de grupos pequenos, e logo vieram os mais violentos e os grupos paramilitares”, conta o mandatário, alegando que estes são os que empurraram o país à situação insustentável na qual se encontra, e que levou a um saldo de mais de 350 mortos, para logo qualificar a ação dos grupos opositores como um “autêntico terrorismo”.

Ortega deixou claro que não respeitará a resolução da Organização dos Estados Americanos (OEA), aprovada há menos de uma semana, que exorta o governo nicaraguense a antecipar as eleições: “nosso período eleitoral finaliza com as eleições de 2021”. Ademais, argumentou que uma mudança na agenda eleitoral agora seria nociva para o país, porque “geraria instabilidade, insegurança e pioraria as coisas”.

A Igreja Católica, que vem exercendo um papel mediador durante a crise política – embora o diálogo nacional esteja estagnado devido à intransigência do Executivo – tem sido atacada por Ortega. Durante a celebração do 39º aniversário da Revolução Sandinista, o presidente disse que “pensava que eram mediadores, mas não, estão comprometidos com os golpistas. São parte do plano dos golpistas”. Entretanto, nesta segunda-feira, suas palavras foram diferentes: “a Igreja recebe todo tipo de facilidades, nenhum nicaraguense foi morto dentro de uma igreja”. Contudo, a paróquia Divina Misericórdia de Manágua, onde faleceram dois estudantes após um enfrentamento anterior, ainda mantém dezenas de orifícios de balas em seus muros.

Daniel Ortega presidiu o país entre 1979 e 1990, e voltou ao poder em 2007, período que se mantém vigente até agora. Em suas declarações, ele insiste no relato de que as forças paramilitares são as que atacaram polícia nicaraguense, que pretendia proteger a população das revoltas. “Durante a noite, quando não há manifestações pacíficas, nós tivemos ataques provocados pelas forças paramilitares, organizadas por gente que é contra o governo”, afirmou. Essas forças, segundo sua explicação, são controladas por partidos políticos, alguns dos quais teriam representação na Assembleia Nacional, outros não.

Os Estados Unidos são um dos países que mais tem pressionado, em reiteradas ocasiões, para que Ortega deixe o poder. O ex-líder da Revolução Sandinista aproveitou a entrevista para lembrar o presidente estadunidense Donald Trump que as relações bilaterais entre os países têm sido “muito dolorosas”, e por isso não quer que a história se repita. “Somos um país pequeno, com uma economia frágil, mas merecemos respeito”, concluiu.



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