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Os CEOs, e não os desempregados, são o verdadeiro "risco moral" dos EUA

Muitos republicanos acreditam que o alívio econômico para os que não têm emprego incentiva o desleixo. Mas são as empresas que recebem repetido socorro

20/04/2020 14:48

Lindsey Graham está entre os republicanos que atacaram benefícios extras de desemprego. (Andrew Harnik/AP)

Créditos da foto: Lindsey Graham está entre os republicanos que atacaram benefícios extras de desemprego. (Andrew Harnik/AP)

 

A ajuda do coronavírus promulgada pelo Congresso mal chega aos norte-americanos necessitados.

Nesta semana, cheques de até US $ 1.200 estão sendo entregues através de depósito direto pela Receita Federal. Mas as pessoas de baixa renda, que não depositaram diretamente seus impostos, não os receberão por semanas ou meses. Pior ainda, o tesouro dos EUA está permitindo que os bancos se apropriem dos pagamentos para cobrir dívidas pendentes.

Enquanto isso, a maior parte dos 600 dólares semanais, prometidos como benefícios extras por desemprego, permanece paralisada em escritórios agora sobrecarregados de pedidos de auxílio desemprego.

Nada disso parece incomodar republicanos conservadores, que acreditam que todo esse alívio cria o que é chamado de "risco moral" - o risco de que os benefícios do governo permitirão que as pessoas se tornem desleixadas.

A senadora republicana Lindsey Graham, por exemplo, diz que os escritórios estaduais de desemprego estão sobrecarregados porque os US$ 600 extras estão "incentivando as pessoas a deixar a força de trabalho". Alô?

No entanto, quando se trata de grandes empresas e de seus CEOs, os conservadores não se preocupam com o risco moral. Eles deveriam.

Antes do surto de coronavírus, as empresas tomavam dinheiro emprestado como loucos, aproveitando-se das baixíssimas taxas de juros do Fed. A dívida total dos negócios superou US$ 16 trilhões no ano passado.

As empresas usaram grande parte dessa dívida para recomprar suas próprias ações. Isso aumentou os ganhos de cada ação remanescente, criando uma bonança para grandes investidores e altos executivos.

Trump nunca se cansou de apontar o espetacular aumento nos preços das ações sob sua atenção. Mas ele deixou de mencionar que as ações estavam flutuando em um mar crescente de dívidas corporativas - o que deixou a América corporativa perigosamente despreparada para qualquer queda acentuada.

Veio então a Covid-19 e a pior desaceleração já registrada.

As empresas americanas gastaram US$ 730 bilhões em recompras no ano passado e mais de US$ 370 bilhões este ano, antes do vírus, grande parte financiado por dívidas. Se eles não tivessem gastado mais ou menos esse trilhão de dólares, estariam mais capacitados em lidar com essa emergência.

Nos últimos cinco anos, quatro grandes companhias aéreas e a gigante aeroespacial Boeing gastaram mais de US$ 70 bilhões recomprando suas próprias ações, substituindo-as em dívidas. Se não tivessem entrado na farra das recompras, estariam melhor equipadas para enfrentar esta tempestade.

Não se preocupe. O governo as está salvando, assim como os bancos de Wall Street que explodiram em 2008.

Em 9 de abril, o Fed anunciou que comprará dívidas corporativas, inclusive garantindo as empresas de private equity que também tomaram empréstimos até o limite. O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, anunciou na terça-feira um acordo com as companhias aéreas sob o qual elas receberão bilhões de dólares de contribuintes.

Esqueça o risco moral. Eles são grandes demais para falir.

O Fed e o Tesouro tiveram pouca escolha. Inadimplências e falências massivas causariam ainda mais estragos na economia. Melhor manter algumas folhas de pagamento do que ampliar as listas de desemprego.

Mas, ao proteger as costas das grandes corporações e de seus CEOs, os resgates recompensaram a obsessão das empresas americanas por lucros de curto prazo, independentemente dos riscos de longo prazo para a corporação, seus funcionários e a economia em geral.

Por que o risco moral é um problema quando se trata de milhões de americanos desempregados que não conseguem nem receber US$ 600 em benefícios de desemprego, mas não é um problema quando se trata de CEOs que tomaram emprestado tudo o que podiam, usaram o dinheiro para aumentar artificialmente os preços das ações, e embolsaram US$ 20 milhões por ano?

Dar à vasta maioria dos norte-americanos um pouco mais de proteção contra os riscos negativos que eles enfrentam certamente representa menos dano do que dar aos CEOs uma proteção contra os riscos que correm com a economia inteira.

Não é tarde demais para o Fed e o Tesouro se apropriarem de ações de todas as empresas socorridas.

Dessa forma, CEOs e grandes investidores não serão recompensados por terem se endividado para financiar recompras de ações. Em uma eventual recuperação, o público participaria dos resultados positivos. E haverá mais dinheiro para financiar redes de segurança mais fortes para os norte-americanos que realmente precisam delas.

Outro passo necessário é proibir as recompras de ações - como ocorreu antes de 1982, quando a Comissão de Valores Mobiliários as considerou veículos potenciais para manipulação e fraude no mercado de ações.

Elas ainda são. Os acionistas que inadvertidamente vendem suas ações de volta às empresas, que aumentam artificialmente os preços das ações, perdem seus ganhos. Por que isso não é uma fraude?

Uma etapa final deve ser regulamentar as agências de classificação de crédito encarregadas de informar os investidores sobre o verdadeiro risco da dívida corporativa. Por que elas ainda estavam dando classificações altas aos títulos de empresas tão sobrecarregadas de dívida que não podiam sobreviver a uma crise?

O verdadeiro risco moral está em elegantes salas dos CEO (C-Suites), não em residências. É hora de parar de socorrer as empresas e começar a socorrer as pessoas.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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