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Os EUA elegeram seu líder mais perigoso até hoje - e todos temos muito a temer

A população americana escolheu o abismo: o presidente eleito é intolerante, instável, um predador sexual e um mentiroso compulsivo capaz de qualquer coisa.

10/11/2016 15:26

Eduardo Munoz Alvarez/AFP/Getty Images

Créditos da foto: Eduardo Munoz Alvarez/AFP/Getty Images

Pensávamos que os Estados Unidos recuariam do abismo. Acreditávamos, e as pesquisas nos davam segurança, que os americanos não iriam, no final, entregar o cargo de mais poder na Terra a alguém intolerante e instável, um predador sexual e mentiroso compulsivo.
 
O mundo assistiu e aguardou, ao longo dos seguidos horrores da campanha eleitoral de 2016, acreditando que o pesadelo Trump em breve terminaria. Mas os Estados Unidos – o país que, desde o berço, se via como farol que inspiraria o mundo, uma sociedade que se louvava como "a última e melhor esperança da terra", a nação que parecia dobrar o arco de história em direção à justiça, como Barack Obama tão notavelmente expressou nesta mesma manhã de oito anos atrás – escolheu o abismo.
 
Hoje, os Estados Unidos não são uma fonte de inspiração para o resto do mundo, mas uma fonte de medo. Em vez de saudar sua primeira presidenta, se mostrou pronto a entregar o incrível poder de seu mais alto cargo a um homem que se deleita com sua própria ignorância, racismo e misoginia. Quem o conhece bem o descreve como um perigoso sociopata.
 
E que poder incrível ele terá em breve. Os republicanos não apenas desafiaram quase todas as projeções, previsões e modelos de risco ganhando a presidência. Também levaram a Câmara dos Deputados e grande parte do Senado. Trump encontrará pouco freio para seus caprichos. Um homem sem restrição aos seus impulsos será incontrolável, com a força de uma superpotência a serviço de seu ego e de suas pulsões.
 
O impacto mais óbvio será sobre o país que ele vai governar em breve. Basta pensar no que ele prometeu. Uma força de deportação para identificar e expulsar 11 milhões de imigrantes não regularizados, que representam 6% da força de trabalho dos EUA. A proibição a qualquer muçulmano de entrar no país, mais tarde transformada em promessa de impor "veto extremo" a qualquer pessoa que venha de uma região suspeita. A construção de um muro gigante para fechar a fronteira mexicana. "Algum tipo de punição" para mulheres que procurarem fazer um aborto. E prisão para a mulher que ele acabou de derrotar.
 
As pessoas podem dizer que era tudo bravata. Mas disseram isso durante toda a campanha, insistindo que Trump ia adotar uma posição mais moderada, que se tornaria mais "presidenciável". E ele nunca fez nada disso. Certamente ele verá a vitória como prova de que sempre teve razão, que seus instintos estavam perfeitos e nunca devem ser desafiados. Não há razão para ele se moderar. O gabinete de Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e de John F. Kennedy é agora o seu cercadinho. Ele pode fazer o que quiser.
 
O suplício será principalmente dos EUA. Mas afetará a todos nós. Uma estrela de reality shows com nenhuma experiência política ou militar agora tem o botão nuclear como brinquedinho. Lembre-se que este homem, segundo informações, perguntou várias vezes, durante um briefing militar, por que os EUA não usavam as armas nucleares, já que as tinham. Este mesmo homem que disse: "Amo guerra". Cuja proposta para lidar com o Estado Islâmico é "tirá-los na base da bomba " e roubar o petróleo.
 
Pense na ansiedade que o resultado levou a Riga, Vilnius ou Tallinn. No verão, Trump disse ao New York Times que não acreditava no princípio central da OTAN: que um ataque a um membro deve ser respondido por uma resposta de todos. Ele parecia ver a OTAN como uma espécie de milícia: quem não pagar não será defendido. Vladimir Putin – o herói de Trump, admirado como modelo de líder pelo presidente eleito dos Estados Unidos – nem precisa de outra deixa. O ditador russo certamente enxergará sua oportunidade de invadir um ou mais estados bálticos e expandir seu império. O presidente Trump vai ficar apenas admirando a demonstração de macheza do movimento.
 
Uma guerra comercial com a China se aproxima, com a imposição de tarifas que poriam em perigo todo o sistema comercial global. Os EUA estão prestes a se fechar no protecionismo. Os mercados já emitiram seu veredicto ao cair aceleradamente.
 
E o planeta? Trump acredita que as mudanças climáticas são uma farsa perpetrada pelos chineses. Disse que não fará nada para reduzir as emissões, pois simplesmente não acredita que existam.
 
Além de tudo isso, há outra consequência dessa decisão terrível, não menos sombria. O sucesso de Trump encantou os nacionalistas brancos e racistas tanto em seu país quanto fora. Suas vitórias nos estados-chave do campo de batalha foram saudadas por David Duke, um ex-líder do Ku Klux Klan: "Deus abençoe Donald Trump", twittou. "É hora de TOMAR DE VOLTA A AMÉRICA". O nacionalista holandês Geert Wilders mostrou-se igualmente animado: "O povo está tomando seu país de volta", disse ele, "Como também vamos tomar". Marine Le Pen sentirá o mesmo júbilo, como todos os outros populistas ou nacionalistas que vendem ódio.
 
Eles constataram o poder de uma mensagem construída com medo e ódio. Embora tenha desempenhado um papel evidente na vitória de Trump nos estados industriais decadentes, afirmar que a eleição é resultado apenas da ansiedade econômica daqueles que se sentem abandonados não é suficiente. É uma explicação incompleta porque Trump não só ganhou apenas entre estes eleitores. Ele ganhou63% dos votos dos homens brancos e 52% dos das mulheres brancas. Nem todos estes se sentem abandonados. Muitos estão apenas atraídos por uma mensagem que, de forma mais ou menos codificada, fala da restauração do privilégio branco.
 
De quem é a culpa pela vitória de Trump? A lista é bem longa, desde o Partido Republicano até a mídia, dos especialistas em pesquisas e nerds analistas de dados que entenderam tudo errado à equipe de campanha Clinton que achou que era barbada ganhar os bastiões democráticos, e incluindo a própria Hillary Clinton que, mesmo com todos os seus pontos fortes era uma candidata fraca. Pode-se condenar todos eles, mas de que servirá hoje atribuir-lhes esta culpa? O país mais poderoso do mundo vai ser governado pelo líder mais perigoso que já teve, uma figura que poderia ter saído de um livro didático sobre o período mais sombrio do século 20. O homem que ocupava durante a Guerra o gabinete que em janeiro será de Trump  disse aos americanos que não havia "nada a temer senão o próprio medo". Hoje, isso não é verdade. Os EUA e todos nós temos muito a temer – a começar pelo homem que está no topo do mundo agora.
 
Tradução de Clarisse Meireles



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