Pelo Mundo

Os EUA estão seguindo um caminho no qual não podem mais se auto-intitular uma democracia?

Os direitos eleitorais estão ameaçados ao redor dos EUA e os aliados de Trump estão competindo para controlar eleições em vários estados. A democracia estadunidense consegue sobreviver ao massacre da era pós Trump?

10/06/2021 10:52

''Houve um alívio momentâneo, mas o nível de ansiedade é estranhamente maior agora do que em 2016'', disse Daniel Ziblatt, co-autor de How Democracies Die (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: ''Houve um alívio momentâneo, mas o nível de ansiedade é estranhamente maior agora do que em 2016'', disse Daniel Ziblatt, co-autor de How Democracies Die (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)

 
Se o discurso inaugural de Donald Trump pudesse ser resumido em duas palavras – “carnificina estadunidense” – o de Joe Biden pode ser lembrado por três: “a democracia prevaleceu”.

O novo presidente, discursando do local onde apenas duas semanas antes uma máfia pró-Trump invadiu o Capitólio dos EUA, prometeu que o pior havia passado em uma Washington maltratada, ferida, porém resiliente.

Mas agora, quatro meses e meio depois, os alarmes da democracia estadunidense estão soando novamente. Mesmo enquanto o coronavírus retrocede, a pandemia da mentira de Trump sobre eleições roubadas se dissemina, manifestada no bloqueio dos Republicanos a uma comissão para investigar a insurreição. E um estado atrás do outro estão impondo novas restrições eleitorais e aliados de Trump estão agora tentando conduzir eles mesmos as próximas eleições.

Com os Republicanos ainda à mercê de Trump e com uma boa probabilidade de ganhar o controle da Câmara dos Deputados no ano que vem, existem medos crescentes de que sua presidência seja menos um sinal histórico e mais um presságio de declínio sistêmico.

“Houve um alívio momentâneo, mas o nível de ansiedade é estranhamente maior agora do que em 2016 no sentido de que não é apenas sobre uma pessoa, mas sim que existem questões estruturais mais amplas”, disse Daniel Ziblatt, co-autor de “Como morrem as democracias”. “Os e-mails estranhos que eu recebo são mais sinistros agora do que em 2016: parece haver um nível mais profundo de falta de informação e teorias da conspiração.”

Apenas horas depois do terror de 6 de janeiro, 147 Republicanos no Congresso votaram para reverter os resultados da eleição presidencial de 2020, mesmo sem evidência de irregularidades. Trump foi impichado por incitar violência, mas os Republicanos do Senado garantiram sua absolvição – um momento decisivo no qual o partido poderia ter escolhido outro destino.

Enquanto Trump continuou a insistir em suas falsas alegações de fraude eleitoral, a mídia de direita e as partes Republicanas estaduais se alinharam. Uma “auditoria” ridícula de votos está ocorrendo no Arizona com mais estados ameaçando seguirem o mesmo caminho. Segundo relatos, Trump está tão obcecado com as auditorias que até sugeriu – erroneamente – que poderia ser restituído como presidente no final do ano.

Talvez, de maneira mais insidiosa, os apoiadores de Trump que tentaram reverter a eleição de 2020 estão manipulando para servir como oficiais eleitorais em estados decisivos como o Arizona, Georgia, Michigan e Nevada. Se conseguirem se tornar secretários de Estado, eles exerceriam grande influência sobre a condução de eleições futuras, certificando seus resultados. Alguns secretários de Estado Republicanos moderados foram baluartes cruciais contra as teorias conspiracionistas tóxicas de Trump no ano passado.

A ofensiva vem junto com um ataque dramático aos direitos eleitorais. Legislaturas estaduais controladas pelos Republicanos empurraram leis que dificultam o voto em estados como Arizona, Flórida, Georgia, Iowa e Montana. Seus esforços expressivos no Texas foram temporariamente atrapalhados quando os Democratas saíram da Câmara, negando quórum.

Ziblatt, cientista político da Universidade de Harvard, comentou: “A ameaça mais preocupante é a nível estadual, o esforço para alterar regras eleitorais, o que eu acho que é incitado pelo fracasso em alterar o resultado da eleição de 2020”.

“A lição que os Republicanos aprenderam disso é que eles não sofrem consequências eleitorais com a sua base perseguindo esse tipo de coisa. Na realidade, eles são recompensados por isso. Isso é muito insidioso porque sugere que continuarão a tentar fazer isso até que paguem um preço eleitoral por isso, e até agora eles não sentem que estão pagando um preço eleitoral por isso.”

Para onde está indo esse ecossistema autoritário? Para muitos, o cenário ruim é que Trump disputará novamente em 2024 e, com o benefício da supressão de votos, garantirá uma vitória no colégio eleitoral como aconteceu em 2016. Se isso falhar, o plano B seria uma Câmara controlada pelos Republicanos para recusarem a certificação de uma vitória Democrata e reverter o resultado a favor de Trump.

Eleições presidenciais disputadas já foram lançadas para a Câmara antes, observou Ziblatt. “Não é sem precedentes, mas antigamente tínhamos dois partidos que eram constitucionais, partidos inteiramente democráticos. Só de pensar em ter uma disputa como essa quando um dos partidos não é completamente comprometido com regras e normas democráticas é muito assustador.”

Em “Como as Democracias Morrem”, Ziblatt e Steven Levitsky argumentam que as democracias frequentemente são ameaçadas não por exércitos invasores ou revoluções violentas, mas sim pelas urnas eleitorais: morte lenta e dolorosa. “As pessoas usam as eleições para entrar no poder e então, uma vez no poder, atacar as instituições democráticas”, disse Ziblatt.

“Esse é Viktor Orbán [na Hungria], esse é Recep Tayyip Erdo%u01Fan [na Turquia], esse é Hugo Chávez [na Venezuela] e o que é peculiar sobre isso é que frequentemente começa progressivamente. Então as pessoas continuam a seguir com suas vidas, continuam a votar, o parlamento continua a se encontrar e você pensa, ‘realmente há uma ameaça?’ Mas o poder fica concentrado e se torna cada vez mais difícil destituir um presidente em exercício.”

Ele adicionou: “Não deveríamos ignorar o fato de que tivemos uma mudança no governo em janeiro. O que isso sugere é que as nossas instituições eleitorais funcionam melhor do que na Hungria. A oposição nos EUA é mais bem organizada e financiada do que a oposição húngara ou turca, então não deveríamos ignorar isso. Mas por outro lado, as tendências são muito similares”.

Os Republicanos também estão jogando um jogo muito longo, reconectando o disco rígido da democracia em uma tentativa de consolidar poder. Trump é possivelmente tanto a causa e efeito da direita abandonada, que acontece no contexto amplo da comunidade branca cristã perdendo maioria na demografia estadunidense mutável.

Seu controle do partido parece ter somente se fortalecido desde a sua derrota, como foi evidenciado por Liz Cheney, crítica da saída de Trump, por causa da liderança da Câmara e do uso de obstrucionismo para bloquear a comissão de seis de janeiro. Críticos dizem que, em uma atmosfera de tribalismo partidário, o partido é agora conduzido por uma convicção que as vitórias Democratas são ilegítimas por definição.

Kurt Bardella, ex-assessor congressional Republicano que agora é Democrata, disse: “É muito claro que a próxima vez que houver um esforço violento para derrubar nosso governo, os Republicanos no Congresso serão cúmplices explícitos desse esforço. Eles são os motoristas de fuga dos incendiários democráticos”.

Bardella, comentarista político, adicionou: “Se tornou dolorosamente transparente que a plataforma do partido Republicano é 100% anti-democrática e é a ambição deles impor o comando da minoria sobre a maioria, porque eles sabem que quando o campo de disputa está nivelado, eles não conseguem ganhar e, por isso, eles decidiram dobrar o apoio a um aspirante a autocrata e estão fazendo de tudo para desestabilizar as garantias democráticas que temos desde a fundação do nosso país.”

“Não podemos subestimar a gravidade desse momento porque o que acontecer no próximo mês ou ano pode ser importante nessa batalha pela preservação da nossa democracia.”

A ameaça impõe um dilema para Biden, que foi eleito com a promessa de construir pontes e buscar o bipartidarismo. Ele continua a fazer isso enquanto chama às armas. Discursando em Tulsa, Oklahoma, essa semana, ele repetiu seu mantra “a democracia prevaleceu”, mas então alertou para um “ataque realmente sem precedentes à nossa democracia” e anunciou que a vice-presidente, Kamala Harris, conduziria um esforço para fortalecer os direitos eleitorais.

Uma legislação nacional para abordar a questão, no entanto, depende de um Senado atualmente dividido 50-50 entre Democratas e Republicanos (Harris tem o voto de minerva). A fim de aprová-la com uma maioria simples, os Democratas teriam que primeiro abolir o obstrucionismo, mas ao menos dois senadores, Joe Manchin da Virgínia Ocidental e Kyrsten Sinema do Arizona, descartaram tal ação.

 Lidando com esse impasse, ativistas e a sociedade civil estão tentando criar um senso de urgência. Mais de 100 intelectuais essa semana lançaram uma declaração conjunta, postada pelo thinktank “New America”, expressando uma “preocupação profunda” com “as mudanças radicais nos principais procedimentos eleitorais” que prejudicam eleições livres e justas. “Nossa democracia inteira está em risco agora”, escreveram os intelectuais.

A eleição do ano passado foi tida como “a eleição que poderia quebrar os EUA” e foi considerado que a nação saiu pela tangente; pode não ser tão sortuda em 2024. Yvette Simpson, executiva chefe do grupo progressista “Democracy for Action”, adicionou: “Estamos chegando a um lugar onde não poderemos mais nos auto-intitular como democracia. É o quanto está terrível”.

“Não é apenas o fato de que há um esforço orquestrado pelo país para interferir no direito mais fundamental de qualquer democracia, mas que estão fazendo isso de modo tão descarado, tão abertamente, e que houve muitas tentativas e não há jeito fácil de parar isso.”

Simpson comparou a vitória dos Democratas sobre Trump com o filme dos Avengers: Jogo Final e alertou contra a complacência. “Acabamos de detonar Thanos e todos acharam, ‘ok, vamos respirar’, e eu acho, ‘não, não podemos respirar porque o Partido Republicano não descansa’. Eles sabem que estamos respirando e é por isso que estão fazendo isso agora e de maneira tão agressiva: ‘você acha que ganhou porque Trump está fora? Ah, te pegamos.”

Ibram X Kendi, historiador e autor de “Como ser um Antirracista”, adicionou: “No final do dia, há uma guerra contra os eleitores estadunidenses, particularmente os eleitores mais jovens, particularmente os eleitores jovens não brancos, e está acontecendo do Texas até a Flórida e está realmente fazendo com que o povo estadunidense decida se quer ou não uma democracia.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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