Pelo Mundo

Os Estados Unidos e seu ''Triângulo do Terror'': Cuba, Nicarágua e Venezuela

 

05/09/2019 14:25

 

 
Os Estados Unidos acreditam ser, há muitos e muitos anos, dono e senhor do mundo, com o poder que qualificar o resto das nações como amigáveis ou malvadas, e acreditam que até seus aliados devem aceitar essas classificações sem reclamar. Porém, essa visão imperial é aceita pela comunidade internacional?

Embora já não se saiba muito bem quem são os amigos dos Estados Unidos, pois seu atual presidente adora colocá-los constantemente contra as cordas, convenhamos que são os aliados estratégicos de sempre, sobretudo os do hemisfério ocidental, os que aceitam tais posições, enquanto aqueles que não as aceitam são chamados de “canalhas” ou “perigosos”. A lista norte-americana de países “malvados”tem variado ao longo do tempo, mas neste momento tem o nome de três nações latino-americanas: Cuba, Nicarágua e Venezuela. John Bolton, assessor de segurança nacional de Trump e conhecido como um dos “falcões” de mais longa trajetória, definiu esses governos como o “Trio da Tirania”, e suas capitais como o “Triângulo do Terror”. Com isso, a superpotência tenta impor sanções e castigos, alguns recentes, outros renovados, como os usados contra Cuba.

O resto da comunidade internacional concorda com essa classificação e essas sanções?

Cuba

Comecemos por Cuba. Aqui, a resposta é simples: a comunidade internacional não concorda com essa postura. Tanto que vota todos os anos contra o embargo norte-americano à ilha – em 2018, foram 189 votos contra 2, que foram dos Estados Unidos e de Israel. Nem mesmo países como Canadá, México, França,Reino Unido e Espanha, além da Comissão Europeia, protestaram contra oArtigo III da Lei Helms-Burton, de efeitos extraterritoriais, que permite perseguir judicialmente, nos Estados Unidos, as empresas estrangeiras que façam negócios com Cuba que envolvam bens ou ativos nacionalizados depois do triunfo da revolução. O desacordo europeu sobre o tema chega a tal ponto que a União Europeia chegou a ameaçar os Estados Unidos com medidas de represália a empresas norte-americanas que sancionem a atuação das europeias na ilha.

Qual seria a melhor política? Sem dúvidas, a que promoveu Obama: frear a estratégia do embargo, que já leva 60 anos, e apoiar o processo de reformas que o governo cubano já está impulsando. Um processo que busca liberalizar a economia e conceder maior espaço ao investimento estrangeiroeà pequena e média empresa privada cubana. Um processo que tambémtem levado ao fim de proibições “absurdas” que a cidadania do país tinha que suportar, como as restrições à compra e venda de imóveis e veículos, às viagens ao exterior e ao uso da internet, entre outras coisas.

Sem dúvida, são medidas insuficientes, mas são as mais urgentes eestão sendo bem encaminhadas. Talvez se veja, em breve, uma ampliação das liberdades individuais que acompanhem os direitos coletivos como a saúde e a educação, aspectos nos que a ilha é referência mundial. Em todo caso, a comunidade internacional faria bem em apoiar decididamente este processo reformista, sobretudo pelo bem-estar da população cubana, e também pela defesa das empresas que operam lá, apesar dos grandes obstáculos, como a hostilidade norte-americana ea reação que esta provoca na ilha, dando asas aos dirigentes mais reacionários e ativistas contra as mudanças.

Nicarágua

Passemos ao caso da Nicarágua. A resposta neste caso também é simples: a maioria das nações agrupadas na OEA (Organização dos Estados Americanos), os países europeus, o Parlamento Europeue a Comissão Europeia, distintos organismos das Nações Unidas, como o Alto Comissionado para os Direitos Humanos, eas entidades de defesa dos direitos humanos, entre elas a Anistia Internacional, condenam claramente as estripulias desse governo. Não é estranho o quão longe chegou o governo cruel de Daniel Ortega e sua ambiciosa esposa e vice-presidenta Rosario Murillo. Sua atuação pode se resumir, paradoxalmente, com palavras do ditador Anastasio Somoza, contra o qual ambos lutaram quando definia sua política das três “P”: “plata (dinheiro) para os amigos, paulada para os indiferentes e pólvora para os inimigos”.

Ortega desencadeou uma repressão brutal contra uma população desarmada quando, em abril de 2018, se iniciaram revoltas populares, primeiro, contra a redução das aposentadorias, e depois contra a violenta resposta dogoverno aos manifestantes. O resultado: 350 vítimas fatais, mais de 3 mil feridos, mais de uma centena de pessoas que continuam presas e mais de 80 mil exilados, sobre todo na Costa Rica. Ortega expulsou do país os organismos internacionais de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) e da OEA, fechou as organizações sociais nicaraguenses, fechou meios de comunicação independentes e expulsou centenas de médicos e enfermeiras do sistema de saúdeque atenderam os feridos nas manifestações. Como era de se esperar, a crise política teve um impacto tremendo na economia, com quedas elevadas do PIB, dos investimentos e do emprego.

Mas o teimoso Ortega, com muitos anos de experiência no poder, aplica todas as manobras possíveis para atrasar sua inevitável saída do governo. Mesmo colecionando condenações de todo tipo na América Latina e na Europa e sanções – como o bloqueio de seus ativos nos Estados Unidos –, Ortega atua para ganhar tempo, com a ajuda de vários de seus colaboradores, incluindo a sua esposa. Esua estratégia tem dado certo! Um dosargumentos favoritos é o do chamado ao diálogo com a oposição – que teve muitos dos seus líderes exilados e, por isso, não pode conformar uma alternativa degoverno – para buscar uma saída negociada. Logo, assinou alguns acordos, como o de liberar presos e restaurar as liberdades cidadãs, mas descumpriu o combinado poucas semanas depois, e voltou a promover a repressão. Sempre que a oposição protesta, Ortega interrompe as negociações. A comunidade internacional apelou a que uma retomada, mas Ortega continua jogando na tática de ganhar tempo.

A triste realidadeé que Ortega carece de toda credibilidade para liderar algum processo que devolva a liberdade à Nicarágua. O cruel personagem tenta se manter no poder por todos os meios. A comunidade internacional deveria aumentar a pressão contra ele, para que respeite as liberdades civis e se sente para negociar. Para isso, é preciso incrementar as sanções e apoiar todas as tentativas da oposição de construir uma alternativa de governo – e, também, aliviar a situação angustiantesobre os milhares de exiliados, onde quer que eles se encontrem.

Venezuela

A Venezuela é um caso mais complexo. Por um lado, sua situação se assemelha à situação da Nicarágua: Maduro é um personagem autoritário e repressor, o informe da Alta Comissionada das Nações Unidas para os direitos humanos fala de uma política “orientada a neutralizar, reprimir e criminalizar a oposição política”. Nos cinco primeiros meses deste ano, foram registradas mais de 1,5 mortes violentas “por resistência à autoridade”. Como no caso de Ortega, Maduro usou grupos irregulares armados e mascarados que aterrorizam a população. Também se contabilizam centenas de presos políticos, e foram denunciadas torturas, como as que provocaram a morte do militar Rafael Acosta Arévalo. Ademais, sua gestão econômicaé uma calamidade, como se vê quando percebemos a incrível queda de 52% do PIB desde 2013, quando Maduro assumiu a Presidência. Também se registra uma inflação de 130000% em 2018, segundo as cifras oficiais do governo – outras fontes a colocam acima de um milhão por cento. A pobreza extrema alcança 60% da população, e a população tem fugido do país: ao menos 4 milhões de pessoas abandonaram a Venezuela nos últimos anos.

Entretanto, o país apresenta três importantes diferenças em comparação com a Nicarágua. Por um lado, uma oposição que, embora não muito unida, está mais organizada, controla o Parlamento e oferece uma alternativa de governo. Juan Guaidó, o presidente da Assembleia Nacional impulsado como presidente interino pelos Estados Unidose reconhecido por mais de 60 governos, é intocável. Por outro lado, a Venezuela possui as maiores reservas petrolíferas do mundo e muitas outras riquezas minerais, o que certamente tem provocado a ganância imperial, disfarçada de desinteressado apoio à democracia – além de envolver os interesses da China e da Rússia no conflito, países que deram empréstimos de grande valor a esse país. Enquanto Chávez e Maduro enfrentam o império, Ortega tem sido um fiel aliado neoliberal dos Estados Unidos e governou em aliança com o grande capital nicaraguense – apesar da retórica sandinista. Tudo isso explica a dureza da posição dos Estados Unidos para com a Venezuela, e sua relativa tolerância com a Nicarágua.

Com dois setores enfrentados e igualmente fortes, um governo que conta com o respaldo das Forças Armadas e uma oposição com amplo apoio interno e internacional, qual é a melhor saída para o conflito? Se descartamos, como os piores cenários a intervenção militar estrangeira e uma guerra civil, e como cenários nada desejáveis, a manutenção do regime de Maduro ou um golpe de Estado a favor de Guaidó – pois em ambos os casos, continuaria sendo uma sociedade polarizada –, resta, como melhor opção, uma negociação entre as forças que consiga acordos sobre o respeito às liberdades cidadãs e sobre a cobertura das necessidades urgentes da população. Os acordos que deveriam desembocar em um governo de transição que convoque eleições sob a supervisão internacional.

Um diálogo dessa forma é o que a Noruega tenta facilitar, apoiada pela União Europeia epor países como México e Uruguai, enquanto os Estados Unidos não abandonam a ameaça de que “todas as opções estão sobre a mesa”, incluindo a militar, e acaba de decidir um embargo econômico unilateral, que não ajuda em nada à negociação. Pelo contrário, assim como as sanções relacionadas com o petróleo, o embargo terá efeitos improdutivos, já que castiga a população, piorando sua precária situação, e por outra parte, serve de desculpa para que Maduro interrompa as conversas com a oposição. Assim que, no caso da Venezuela, os Estados Unidos se distancia das melhores tentativas promovidas pelo resto da comunidade internacional para resolver o conflito.

E o que podemos incluir, neste caso, com respeito às relações entre Cuba e Venezuela? Embora sejam menos robustas que em outros tempos, ainda se sustentam, através dos acordos de cooperaçãoassinados Hugo Chávez e Fidel Castro – quepodem ser resumidos em petróleo barato em troca de médicos. Portanto, não há sentido em pedir que Havana rompa seus vínculos com Maduro. Contudo, a ilha poderia ter um papel relevante na busca por uma saída negociada na Venezuela, como a que teve nos acordos de paz da Colômbia, sempre que conte com a garantia de que não será prejudicada no processo.

A relação entre Cuba e Nicarágua, pelo contrário, se apoia unicamente no que uniu Fidel Castro e Daniel Ortega, devido à revolução sandinista. Mas já se passaram muitos anos e é provável que o governo de Díaz-Canel se sinta bastante distanciado da corrupção e do enriquecimento dos Ortega e dos seus massacres para se manter no poder. Ogoverno cubano faria bem em não se envolver tanto com esse governo e em apoiar outras saídas, que não levem a Nicarágua a um abismo.

A posição atual dos Estados Unidos

Com respeito aos Estados Unidos, será impossível o país continuar servindo de referência à comunidade internacional, e não só por sua política exterior, que é baseada em apenas duas “P” (de paulada, para os amigos, e de pólvora, para os inimigos). A grana fica com os magnatas estadunidenses.

Uma política que está vigente há 60 anos, e que não é capaz de encontrar uma saída digna para o conflito com Cuba,e que também é improdutiva no caso daVenezuela. O comportamento da superpotência em temas essenciais para a humanidade, como a paz eo meio ambiente, é simplesmente detestável: quando mais se necessita de sua liderança para enfrentar os desafios da crise climática, seu presidente, Donald Trump, anuncia a saída do país do Acordo de Paris; quando o planeta mais precisa de uma solução para a ameaça nuclear, o mesmo Trump anuncia sua retirada do Tratado sobre forças nucleares de alcance intermediário– que tanto afeta a Europa. Sem falar de como ele tem dinamitado o acordo nuclear com o Irão, e do orçamento estratosférico de mais de 700 bilhões de dólares para gastos militares em 2019.

O resto da comunidade internacional não tem outra opção a não ser a de manter distâncias dessa nação, e inclui-la na lista, se não dos países maus, ao menos na dos países mais egoístas e irresponsáveis.

Manuel De la Iglesia-Caruncho é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade Complutense de Madrid. Trabalhou na Agência Espanhola de Cooperação Internacional e na Secretaria de Estado de Cooperação Internacional durante 15 anos, atuando em países como Nicarágua, Honduras, Cuba e Uruguai

*Publicado originalmente em wsimag.com | Tradução de Victor Farinelli



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