Pelo Mundo

Os Republicanos deixaram claro que vão deixar Trump se tornar um ditador. E nós? Deixaremos?

Isento de responsabilidade graças ao Senado, o autocrata interior do corretor de imóveis está em evidência

17/02/2020 12:31

A senadora Susan Collins, que aplaudiu Trump durante seu discurso em 4 de fevereiro, alegou, após a sua absolvição, que Trump havia 'aprendido com seu impeachment' e que 'será muito mais cauteloso no futuro' (Drew Angerer/Getty Images)

Créditos da foto: A senadora Susan Collins, que aplaudiu Trump durante seu discurso em 4 de fevereiro, alegou, após a sua absolvição, que Trump havia 'aprendido com seu impeachment' e que 'será muito mais cauteloso no futuro' (Drew Angerer/Getty Images)

 

Os ataques de Trump ao judiciário federal são o “Signal” doméstico essa semana. Livre de todas as responsabilidades pelo Senado, o autocrata interior do corretor de imóveis está em evidência, com uma campanha pressionando o Departamento de Justiça a retirar as recomendações de sentenciamento do seu amigo condenado, Roger Stone, e com uma enxurrada de tuítes pessoalmente atacando o juiz no caso Stone.

As ações de Trump ficaram tão extremas que, surpreendentemente, até o Advogado Geral Barr finalmente já está farto. Na noite de quinta, em uma troca extraordinária, Barr, que fez mais do que qualquer um para proteger e viabilizar esse presidente sem lei, disse que os tuítes de Trump estavam tornando impossível para ele fazer seu trabalho. Trump não se deixou abater. Na sexta, lá estava ele atacando mais uma vez, alegando que tinha o direito de interferir em processos penais federais.

Para a senadora Susan Collins, que afirmou, absurdamente, que Trump havia aprendido a lição depois de ser impichado pela Câmara, e para os outros Republicanos “moderados” que votaram por absolvê-lo, essa semana tem sido um pesadelo. Claro, eles podem descartar tudo como simplesmente mais um barulho “trumpiano”, mas quando o advogado geral dos EUA pessoalmente prejudica sua própria carreira para fazer um favor ao presidente, isso é bem mais sério do que um mero blá blá blá.

E não há indicação de que as coisas vão melhorar tão cedo. Ao contrário, entre agora e novembro é provável que ainda vejamos Trump totalmente desenfreado.

Estamos entrando em temporada de eleição liderada por um presidente consumido por vinganças pessoais e convencido de que está cercado por conspiradores. Paranoico e narcisista, ele está demitindo qualquer um que fique em seu caminho, exigindo cada vez mais demonstrações de lealdade. No Tennessee, legisladores estão debatendo uma resolução para declarar a CNN e o Washington Post como fake news por causa de sua cobertura crítica de Trump.

O próprio Trump ataca a imprensa diariamente, gastando altas horas da madrugada tuitando insultos e ignorando situações importantes que demandam sua atenção.

Isso já seria ruim em tempos normais. Mas não estamos em tempos normais.

A ameaça de uma pandemia de coronavírus salienta a importância de um financiamento público adequado de iniciativas de saúde e de levar acesso básico de assistência salutar ao maior número possível de estadunidenses. Mas não sobrou ninguém no círculo interno de Trump disposto a questionar a retirada de financiamento do Medicaid, do Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Institutos Nacionais de Saúde; dos esforços internacionais para monitorar e acompanhar doenças; dos esforços de ajuda internacional.

Por três anos, ex-representantes do CDC avisam que a agência está, catastroficamente, sem financiamento e não está preparada para lidar com emergências de saúde pública. Eles têm sido ignorados – bem como cientistas que trabalham com mudança climática, impactos da poluição, contaminantes de ambientes de trabalho, e por aí vai. Na Trumplândia, somente lucros de curto-prazo importam, por isso, o planejamento estratégico de longo-prazo do país nessas áreas tem sido seriamente atacado.

Enquanto isso, a Turquia – um membro da OTAN que poderia recorrer ao Artigo 5 do estatuto da OTAN caso sofra ataques – está em uma partida de fuzilamento com as forças sírias dentro da Síria. O risco de um embate com a Rússia, que está apoiando o governo sírio, cresce a cada dia.

São, verdadeiramente, tempos perigosos. O estado de direito está sendo corroído; a saúde pública está em perigo; a situação internacional está cada dia mais caótica.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

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