Pelo Mundo

Os dados confirmam. Pessoas não-brancas são punidas mais severamente por violações das regras contra covid nos EUA

Pessoas não-brancas e imigrantes que carregam o fardo da covid-19 também estão sujeitos a um cumprimento mais punitivo das ordens de saúde pública

08/01/2021 11:27

A aplicação da lei desproporcional em relação às regras de saúde pública da covid-19 não somente acompanhou padrões previsíveis de policiamento, também fortaleceu e ampliou as redes de criminalização que atraem comunidades marginalizadas (Shannon Stapleton/Reuters)

Créditos da foto: A aplicação da lei desproporcional em relação às regras de saúde pública da covid-19 não somente acompanhou padrões previsíveis de policiamento, também fortaleceu e ampliou as redes de criminalização que atraem comunidades marginalizadas (Shannon Stapleton/Reuters)

 
A disseminação da covid-19 não é daltônica nem incolor, enviando negros, latinos e pessoas indígenas para o hospital em números quatro vezes maiores do que as pessoas brancas. Para piorar, as comunidades de pessoas não-brancas e de imigrantes que já carregam o fardo do surto da covid-19 também estão sujeitas a um cumprimento mais punitivo das ordens emergenciais de saúde pública. As pandemias da covid-19 e da violência estatal estão profundamente conectadas.

O Projeto de Policiamento da Covid-19 foi lançado em maio de 2020 para monitorar como cidades, estados, territórios e jurisdições tribais policiam a pandemia. Enquanto assistimos policiais arrastarem um homem negro de dentro de um ônibus na Filadélfia, estrangular um homem negro, e jogar uma mãe negra no chão em Nova Iorque na frente de seu bebê, tudo em nome da valorização da saúde e da segurança, nos perguntamos: se essa é a base de tratamento durante uma crise econômica, salutar e de violência estatal, então qual é o limite?

Nossas descobertas seis meses depois, resumidas no relatório divulgado recentemente “Desmascarados: Impactos do Policiamento Pandêmico”, claramente mostram que prisões, disparidades raciais na aplicação da lei, violência policial e agressão não pausaram por causa das mortes em número recorde. Ao invés, a criminalização continua a mirar as pessoas que são suscetíveis a morrer desproporcionalmente seja pelo vírus ou pelas mãos e joelhas da polícia. A aplicação da lei desproporcional em relação às regras de saúde pública da covid-19 não somente acompanhou padrões previsíveis de policiamento, também fortaleceu e ampliou as redes de criminalização que atraem comunidades marginalizadas.

O Projeto de Policiamento da Covid-19 revisou informações públicas sobre aplicação da lei nos últimos seis meses e descobriu que negros, indígenas e pessoas não-brancas foram 2.5 vezes mais policiados ou punidos por violações das regras de covid-19 do que pessoas brancas. Pessoas negras especificamente foram 4.5 vezes mais policiadas e punidas por essas regras do que as pessoas brancas.

Mulheres negras – que trabalham em grandes números como trabalhadoras da saúde ou de serviços essenciais, e que estão literalmente salvando nossas vidas – experienciaram os maiores índices de disparidade racial na aplicação da lei das regras de saúde pública. De acordo com a nossa análise estatística, as mulheres negras foram 5 vezes mais policiadas e punidas do que mulheres brancas por violações das regras da covid-19. Homens negros foram 3.7 vezes mais policiados e punidos do que homens brancos por tais violações.

No Havaí, comunidades da Micronésia experienciaram 26% das detenções por violações de ordens de quarentena, mesmo representando apenas 1% da população do estado. Cerca de 20% das pessoas citadas pela polícia de Honolulu por violação de regras de saúde pública provavelmente estavam em situação de rua, e desses, 60% foram citados muitas vezes por violar ordens de quarentena. De acordo com dados do departamento de polícia de Nova Iorque, 81% das 374 intimações por violação do distanciamento social entre 16 de março e 5 de maio foram direcionadas a residentes negros e latinos.

Esse tipo de policiamento agressivo somente agrava os efeitos da pandemia. Multas que vão de $500 dólares a $10.000 dólares atingem comunidades que já estão sofrendo com o desemprego recorde, crise de despejo e o aumento no uso do banco de alimentos com ainda outro fardo financeiro quando muitos não conseguem bancar necessidades básicas. Detenções colocam as pessoas em ambientes prisionais de alto risco, aumentam os índices de transmissão da covid-19, de infecções e mortalidade entre as populações encarceradas. Muitos policiais – que têm um dos maiores índices de infecções – se recusam a usar máscaras e violam regras de distanciamento social para assediar, multar e levar sob custódia. Mesmo um breve encontro com um policial ou uma breve detenção em uma viatura podem aumentar dramaticamente o risco de infecção, e esse risco aumenta em uma cela ou na prisão onde as pessoas não conseguem manter o distanciamento social e possuem pouco ou nenhum acesso a sabão, água e sanitizadores.

Joe Biden tem uma escolha: insistir para o nosso governo fornecer apoios financeiros e salutares genuínos para as comunidades e pessoas com dificuldades – ou despejar mais dinheiro nos departamentos de polícia locais além dos $750 milhões já alocados em maio pela Lei Cares para garantir regras emergenciais punitivas. Oficiais estaduais e locais encaram as mesmas escolhas.

Na realidade, como o conselheiro de Biden da força tarefa do coronavírus apontou recentemente, profissionais da saúde promoveram uma solução humana e simples para controlar o vírus: pagar todo mundo para ficar em casa de quatro a seis semanas.

E ao invés de deixar as pessoas morrendo em prisões e centros de detenção infestados de Covid, oficiais poderiam libertá-las com apoio para retornarem em segurança para suas famílias e comunidades.

O caminho para frente em meio a uma pandemia e uma crise econômica devastadora não está no aumento da vigilância, policiamento e punição de comunidades marginalizadas – está nas exigências para acabar com o despejo de dinheiro e recursos no policiamento e para começar a despejar recursos nas pessoas e comunidades.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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