Pelo Mundo

Os dias que antecedem a posse de Evo Morales

20/01/2006 00:00

Na Bolívia, nos três últimos dias de presidência branca e não indígena:


EVO EM SITUAÇÃO MELHOR DO QUE A DE ALLENDE
A crise militar enfrentada por Evo Morales parece-se, em alguns aspectos, com a enfrentada por Salvador Allende, ainda antes de tomar posse como presidente do Chile.

No Chile, um comando de direita tentou seqüestrar o comandante-em-chefe das FFAA que, resistindo, foi assassinado. A intenção era atribuir a ação a um comando de esquerda. Mas justamente o MIR, a quem se queria atribuir a frustrada ação, descobriu pistas que a envolviam com setores militares de direita. A situação era propícia para limpar as FFAA de todos os setores direitistas. Porém, como Allende fora eleito sem maioria absoluta – com 34% dos votos -, o Congresso deveria decidir quem seria empossado como presidente. A Democracia Cristão impôs condições para votar em Allende, entre as quais se encontrava a obrigatoriedade de respeitar a ordem de promoções nas FFAA. Assim, ninguém foi punido. Em suas memórias, Pinochet afirmou que estavam todos esperando represálias e que ficaram aliviados quando não aconteceu nada.

Evo Morales conscientemente acentuou a crise, retomando com força as acusações que o MAS havia feito antes da campanha eleitoral, de que as FFAA bolivianas haviam entregue ao governo dos EUA os mísseis comprados à China. O ainda presidente Eduardo Rodriguez, que evidentemente tem responsabilidades no caso, substituiu o comandante-em-chefe do Exército, colocando nele a culpa. Mas Evo Morales anunciou que rigorosa investigação recairá sobre todos os responsáveis, que deverão ser punidos, possibilitando-se assim mexer na estrutura dos cargos das FFAA. Ao ter obtido mais de 50% dos votos – 54% –, e conseguir maioria na Câmara e no Senado – neste, com o voto de partidos de direita, que reconheceram o voto popular a favor do MAS -, Evo está livre de uma relação de forças que lhe poderia ser negativa.


GUARDA MINEIRA
Nas ruas próximas à Praça Murillo, dois mil operários mineiros farão um corredor de duas filas para a recepção e proteção a todos os convidados. Desta vez, dizem que deixarão a dinamite em casa, porque desta vez não será necessária.


PRIMEIRA DAMA DA BOLÍVIA
Pai solteiro de uma menininha, Evo Morales terá como primeira dama a sua irmã, Esther Morales Ayma. Esther tem 54 anos, é casada, tem 3 filhos e trabalha com uma venda de produtos alimentícios em Oruro, zona em que cresceu Evo. Esther passou a cuidar de Evo quando morreu a mãe deles, nos anos 70, vítima das complicações de um parto. Antes disso, ela havia tido outros quatro filhos, todos mortos antes de cumprirem 2 anos de idade. Três sobreviveram. Esther cuidou de Evo também quando este foi preso e quando esteve na clandestinidade.


CIDADE LIMPA PARA O “NOSSO PRESIDENTE”
Índias aymaras dedicam-se a limpar o centro da cidade, começando pela Praça Murillo, onde se situa o Palácio Queimado, palácio presidencial da Bolívia, como forma de que a cidade esteja bonita quando chegue “o nosso presidente”.


DIREITA PERDEU A VOZ
A revista Dados, uma espécie de Veja boliviana, desorientada pela espetacular vitória do MAS e de Evo Morales, parou pela edição especial de dezembro, previa às eleições, quando anunciava o risco de divisão do país, se Evo Morales triunfasse. Não saiu nenhuma outra edição até hoje, continua exibida a edição anterior, defasada em relação a tudo o que aconteceu no país desde então. Ao que parece não tem o que dizer ou espera orientações para retomar algum tipo de discurso.


MINISTÉRIO
As maiores especulações políticas giram em torno ao ministério de Evo – que disse, na conversa que tivemos em Brasília, sexta-feira (13), que já tinha tudo decidido.

Como o MAS é uma espécie de federação de movimentos sociais – a Confederação Sindical Única de Trabalhadores da Bolívia, a Confederação de Mulheres Camponesas da Bolívia, a Federação Nacional de Cooperativistas Mineiros, o Movimento Sem Medo, a Federação de Rentistas e Aposentados, a Coordenadora dos Povos Étnicos, seis federações de colaleros de Cochabamba e mais de 100 sindicatos de todo o país -, a composição do governo deve espelhar a presença dos movimentos sociais. Além disso, por decisão do MAS, os eleitos para cargos no Parlamento não devem ocupar cargos no governo, salvo algum caso de exceção, segundo o vice-presidente eleito, Álvaro Garcia Linera.


SAÍDA PARA O CHILE
A declaração de movimentos indígenas chilenos identificando-se com a eleição de Evo Morales, mais em particular a dos aymaras do Chile, buscando pontos de contato entre os povos dos dois países, mais além da resistência dos governos chilenos de atender à reivindicação de saída ao mar para a Bolívia, devem ter pesado para a decisão da Justiça chilena de proibir o líder mapuche Aucán Huilcamán de viajar para assistir ao seminário sobre povos indígenas a realizar-se nesta sexta-feira (20) e para participar das solenidades de posse do novo presidente da Bolívia.


SAÍDA PARA A BOLÍVIA
Um mapa que se usa nas escolas bolivianas recorda como era o país antes da Guerra do Pacífico, que mutilou a Bolívia da saída ao mar. A província de Potosí, no sudoeste do país, estendia-se até o mar, incluindo a província de Anrofagasta e todas as ricas minas de cobre, hoje em mãos do Chile. Um dos pontos da plataforma do MAS é a recuperação da saída ao mar. Apesar disso e de os dois países não terem relações diplomáticos, Ricardo Lagos anunciou sua presença na posse de Evo Morales. Michele Bachelet, tal como Lagos, reafirmou que o Chile acatará os acordos impostos com a guerra, o que significa manter os territórios sob controle do Chile.


TORTA PARA EVO
Evo Morales fará um primeiro juramento em uma cidade próxima a La Paz, nas ruínas de Tiwanaku, onde receberá a missão de direção do país dos dirigentes das distintas nações indígenas. Evo estará vestido com um poncho indígena e um poncho que está sendo feito por mulheres indígenas da cidade. Elas mesmas estão fazendo um gigantesco bolo de oito metros por quatro para todos os 20 mil convidados.

O episódio de crítica de setores conservadores da Espanha a Evo Morales, por ter comparecido ao encontro com o primeiro-ministro José Luis Zapatero com uma malha listada – chamada chompa aqui na Bolívia – já teve efeitos imediatos. Além dos artigos de protesto, uma empresa lançará no sábado uma linha de chompas ao estilo da de Evo, colocando inicialmente à venda 800 malhas. A publicidade diz que se trata de um produto para os jovens, “para os que querem mudança”.


PRESIDENTE INÉDITO
Entre os 11 chefes de Estado e de governo, está o presidente da República Sarahui, Mohamed Abdelaziz. Presença inusitada e gesto pouco comum, mesmo se grande parte dos países da América Latina reconhecem o governo Sarahui.


REUNIÃO DOS POVOS INDÍGENAS
Nesta sexta-feira, está sendo realizado o I Encontro das Autoridades Indígenas do Continente Americano, que será aberto com uma cerimônia de invocação feita por líderes indígenas. Em seguida falará Evo Morales, em um encontro que durará o dia inteiro.

EMIR SADER - professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".


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