Pelo Mundo

Os erros garrafais do FMI e o futuro da Zona Euro

A moratória grega terá um resultado devastador para a credibilidade do fundo que emprestou 35 bilhões de euros sem que existisse um plano de reembolso.

03/07/2015 00:00

Larbi Louafi

Créditos da foto: Larbi Louafi

A credibilidade financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) - considerado o credor mais confiável do planeta desde a sua criação, após a Segunda Guerra Mundial - pode ser a próxima vítima da crise da Zona Euro, segundo ex-diretores da instituição consultados pelo La Vanguardia. A decisão europeia de negar financiamento à Grécia e forçar o Governo de Alexis Tsipras a adiar o reembolso de 1,5 bilhões de euros ao FMI, criou uma contenda sem precedentes na história do sistema financeiro mundial.
 
A gestão desastrosa da crise grega agravará o progressivo debilitamento do Fundo, que violou todas as suas normas de atuação, ao emprestar 35 bilhões de euros à Grécia sem que existisse um plano de reembolso viável. “Este será o maior default da história do Fundo, e vai afetar gravemente a sua credibilidade”, assegurou Peter Doyle, em declaração feita em Washington. “O Fundo foi muito duro com a Grécia e muito generoso com o resto da Zona Euro, isso mostra o peso dos europeus no conselho”, agregou. Há tempos, as grandes economias emergentes, lideradas pela China, protestam contra o excessivo peso da Europa no FMI, apesar de sua minguante importância na economia global. A administração de Obama se sente cada vez mais horrorizada pelos eventos na Zona Euro, segundo fontes do governo.
 
“Washington não vai permitir que se cortem os laços com a Grécia, e não vai deixar que os europeus se imponham sua posição ao Fundo”, aposta Mark Weisbrot, economista do Centro de Investigação sobre Política Econômica. Esta semana, um grupo de membros do Congresso assinará uma carta na que se adverte de que o fracasso do FMI na Grécia pode significar a negativa definitiva dos EUA, o principal acionista do Fundo, a participar no aumento e reajuste das quotas do mesmo, considerado imprescindível para manter o apoio das grandes potências emergentes.
 
A maior suspensão de pagamentos da história do FMI ressuscita as críticas contra Lagarde, por sua gestão do caso
 
“Para resolver o problema da Grécia e da Zona Euro, que é prioridade para Washington, os EUA devem pressionar para que se anule a dívida grega”, insiste Doyle, economista que abandonou o Fundo há dois anos, devido a suas discrepâncias com as políticas da instituição com relação à Zona Euro. “Christine Lagarde deve pedir demissão”, diz ele, e conclui: “o próximo diretor-gerente não deveria ser europeu, e sequer deveria ser um político”.
 
Ashoka Mody, ex-diretor da missão do Fundo na Irlanda, classificou a atuação do FMI como “desastrosa”, mostrando que contradiz suas próprias normas de intervenção, assim como os estudos sobre o impacto contraproducente da austeridade, feitos pelos seus próprios economistas.
 
Ontem, Thomas Picketty, Joe Stiglitz e outros economistas tornaram público, em diversos meios, um apelo para evitar uma moratória, o que até economistas críticos do FMI consideram um precedente indesejável. O FMI pode ter cometido outro error esta semana, ao insistir em que a extensão de seis semanas no prazo para o pagamento figura nos estatutos do Fundo, e portanto não significa que a falta de pagamento, agora, signifique um default.
 
“O FMI tem um padrão para esse conceito (de extensão do prazo de pagamento)”, disse Poul Thomsen, diretor europeu dol Fundo, durante a assembleia celebrada em Washington, em abril passado.
 
O Fundo não adotou as garantias adequadas e errou completamente nas previsões sobre a evolução do PIB
 
“No dia em que não se faz o pagamento, se cria um default”. Esta é a posição que Lagarde repetiu nos últimos dias, para endurecer a táctica de negociação da Troica. Mas agora, o tiro parece ter saído pela culatra. “Não havia porque se precipitar com a moratória, se a Grécia não pagava no dia estipulado, era possível esperar um pouco mais”, afirma Stephany Griffith Jones, do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento, em Sussex (Reino Unido), outra das que assinou a carta de Picketty e Stiglitz.
 
Além de reter o valor de 1,6 bilhão da dívida do programa de apoio à Grécia, que vence em março de 2016, o FMI conta com poucas medidas para castigar a Grécia. “Logo veremos que não podem fazer absolutamente nada”, afirma Peter Tchir, gestor de um fundo de cobertura em Connecticut.
 
Mas os erros garrafais cometidos pelo Fundo e o resto da Troica têm a ver com o desenho do programa da Grécia. Previram uma queda do 5% do PIB em 2011 e uma recuperação rápida após um ajuste interno. A economia grega perdeu 25% do seu PIB em consequência dessas políticas de austeridade, e continua caindo. Os economistas da equipe macroeconômica do Fundo, sob a direção de Olivier Blanchard, reconheceram um erro de cálculo dos multiplicadores que medem o impacto da austeridade sobre a atividade econômica. Apesar disso, os técnicos da Troica insistem em apoiar mais austeridade. “É uma gestão simplesmente desastrosa”, denuncia Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts, que assessora o movimento espanhol Podemos.
 
O FMI está proibido de participar em programas de financiamento de países cuja dívida é insustentável, a não ser que os programas incluam planos de reestruturação da dívida. Antes da crise do euro, o Fundo chegou a se negar a financiar países sem que seu ajuste incluísse a desvalorização de suas moedas. “O programa de 2020 se apresentou como um resgate à Grécia, mas foi um resgate aos credores privados. Ele defende a proposta dos bancos franceses e alemães”, afirma Paulo Nogueira, ex-diretor do FMI no Brasil, um dos grandes países emergentes bastante crítico com a atuação do FMI na Grécia.
 
* Licenciado pela London School of Economics em Ciências Econômicas e Sociologia, e em Jornalismo pelo El País UAM. Foi correspondente do La Vanguardia em Nova York. Trabalhou na Espanha para meios como Cinco Días, Business Week, The Guardian, The New Statesman, Ajo Blanco. Atualmente, escreve para o La Vanguardia (Barcelona) e The Nation (Nova York).
 
Tradução: Victor Farinelli





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