Pelo Mundo

Os jovens guerreiros da praça Tahrir

27/11/2011 00:00

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Créditos da foto: http://www.arabawy.org



(*) Sout al Horeya, a Voz da Liberdade. A canção foi gravada em Tahrir e é um hino à Revolução, à paz coletiva, ao sacrifício pela liberdade. Confira a letra em português

Fui para as ruas, jurando não retornar
E escrevi com meu sangue em cada rua
Nossas vozes alcançaram aqueles que não as podiam ouvir
E rompemos todas barreiras
Nossas armas eram nossos sonhos
E amanhã será tão promissor quanto nos parece
Por tempos estamos esperando
Procurando um lugar para nós
Em cada rua de meu país
O som da liberdade está chamando
Erguemos nossas cabeças ao céu
E fome não nos preocupava mais
O mais importante são nossos direitos
E escrever nossa história com nosso sangue
Se você fosse um de nós
Não fale à toa e nos diga
para largar e abandonar nossos sonhos
e pare de dizer a palavra “eu”
Em cada rua de meu país
O som da liberdade está chamando

(falado)

Mãos Egípcias escuras; contra a discriminação, levantem
Estendida entre rugidos de poder
Oh Juventude Nova.
O outono se trança em primavera
Acordando os assassinados através de um milagre
Mate-me, os mortos não irão recuar de seu país
Usando como tinta sangue, escrevo o futuro de meu país
Aquilo é meu sangue ou a primavera?
Ambos estão verdes
Eu sorrio de felicidade e não de sofrimento

Em cada rua de meu país
O som da liberdade está chamando

(Tradução: Márcio Larruscahim)

Abdel Gamal, Mohammed, Ali ou Omar não tem as mesmas ideias políticas, não são torcedores do mesmo clube, não vivem no mesmo bairro, não vão à mesma universidade, não pertencem ao mesmo extrato social nem se relacionam com a religião com a mesma intensidade; mas são os defensores da Praça Tahrir, uma mescla aguerrida de jovens laicos do Movimento Seis de Abril, meninos dos bairros pobres, estudantes de universidades caras, islamistas, jovens da burguesia urbana ativistas das novas tecnologias e torcedores de futebol que pertencem a uma das tantas torcidas organizadas que surgiram no Egito há dez anos. Abdel Gamal explica: “estamos unidos pela batalha. Aqui não há chefes nem hierarquia, nem ordens, nem capitão nem nada. Nosso inimigo comum é a polícia, que é o mesmo que o regime. Desde a Revolução de janeiro até agora nos unimos em situações extremas”.

Os guerreiros da Praça Tahrir não têm medo de nada. Os potentes gases lacrimogêneos lançados pela polícia tem uma carga letal denunciada por todas as ONGs internacionais, mas eles andam no meio da fumaça como se estivessem em um jardim. “Já estamos acostumados com os cassetetes, as balas de borracha, as corridas e a fumaça. Não nos amedronta”, diz Ali. Os grupos que protegem a praça se movem de maneira desparelha, mas com a mesma função: impedir que a polícia entre e os desaloje: “este é o espaço de nossa Revolução. Enquanto permanecermos aqui, a Revolução sobreviverá”, afirma Abdel Gamal.

Ali-el Sharif forma com outros jovens o núcleo mais aguerrido que esteve na linha de frente durante a brutal batalha travada na rua Mohammed Mahmud. Esta artéria desemboca no centro da Praça Tahrir e conduz ao Ministério do Interior, o prédio oficial mais odiado pelos revolucionários egípcios porque representa o pior do antigo regime que persiste no atual. Ali e seu grupo travaram as batalhas mais cruentas contra as unidades anti-distúrbios da Amn Al-Merkazi, a Segurança Central. Ali-el Sharif e Kamel Fatah não são da Irmandade Muçulmana e tampouco integram o Movimento 6 de abril: são ultras, ou seja, torcedores de futebol, da torcida organizada do Zamalek SC, que detestam a polícia, pela violência com que atua, e o sistema, pela desigualdade e corrupção que propaga. Estão acostumados a se enfrentar com as forças da ordem fora dos estádios de futebol e são especialistas na arte de saltar paredes, jogar pedras, resistir aos gases lacrimogêneos e travar choque frontal com unidades policiais perfeitamente treinadas.

“Sem eles, não teríamos resistido tanto”, reconhece Abdel Gamal. Abdel estuda psicologia em uma prestigiada universidade do Cairo, mas, na praça, é igual a Ali ou Kamel. “Nossa luta é contra o totalitarismo, a corrupção do sistema, a polícia secreta, a violência, a falta de meios e de liberdade. Isso se vê em todas as partes, desde um estádio de futebol até os bairros mais tranquilos”. A repressão do regime de Mubarak deu às torcidas organizadas um papel muito mais político que aquele que desempenham na América Latina. A polícia de Mubarak os cercou e eles se organizaram até criar estruturas perfeitamente coordenadas em cujo interior foi se alimentando um ódio sem limites à polícia e aos quadros do partido mubakarista PND (Partido Nacional Democrático). Tahrir os unificou em uma fraternidade acima de clubes e classes sociais. Kamel Fatah daria sua vida pelo Clube Zamalek SC, enquanto que Ashraf daria a sua pelo Al Ahly Sporting Club. Ambos não têm mais de 23 anos. São mestres na tática de guerrilha urbana. Eles detêm uma experiência única quando se trata de enfrentar a polícia ou contorná-la e incendiar os veículos das forças da ordem.

Os demais jovens, os mais politizados, os que floresceram com a luta social em apoio às greves de 6 de abril de 2008 – origem do Movimento 6 de Abril – os respeitam como heróis. “Eles foram os atores determinantes da Revolução de janeiro. No dia 25, sem que ninguém os chamasse e sem que houvesse uma consigna posterior, eles vieram defender a Praça Tahrir. E dali não se moveram”, lembra Tamer, um advogado recém-formado. O Egito e o mundo, por meio da televisão, descobriram esses jovens especialistas na luta e na logística para defender a ocupação de espaços. A capacidade de mobilização desses ultras é massiva e instantânea. Os três principais, Ahlawy, os White Knights e os Blue Dragons, reúnem dezenas de milhares de pessoas. O poder que os infiltrou e buscou manipulá-los para convertê-los em seus lacaios encontrou neles seus inimigos mais duros.

Nos momentos de tranquilidade, os guerreiros de Tahrir são como meninos. Disputam corridas, simulam lutas, contam sonhos, cantam slogans de seus clubes, gritam outros contra o regime e a polícia ou cantam estrofes da já célebre Sout al Horeya, a Voz da Liberdade. A canção foi gravada em Tahrir e é um hino à Revolução, à paz coletiva, ao sacrifício pela liberdade. “Rompemos as barreiras/Nossa arma foi nosso sonho/Em cada rua de meu país/A voz da liberdade está nos chamando/Mantemos a cabeça alta até o céu/O mais importante são nossos direitos/E escrever nossa história com sangue”. Não há ninguém na Praça Tahrir que não conheça essa letra. Aqui, cada indivíduo está disposto a escrever a história com seu sangue: as torcidas organizadas, os estudantes, os islamistas, os burgueses e os operários. A praça está regida por uma ordem fraternal e espontânea.

“Estamos criando um mundo, e isso é mais que a própria Revolução”, assegura Fadi com olhos cansados e metade da boca coberta por um ferimento. Há quatro dias a polícia o encurralou em uma das ruas adjacentes à praça, mas à noite voltou à arena, primeiro participando do bloqueio à entrada da sede do governo para que o novo primeiro ministro não entrasse, e depois voltando à praça. Fadi é engenheiro e está sem trabalho por enquanto. Algumas semanas antes da Revolução de 25 de janeiro, uma empresa alemã ofereceu-lhe trabalho em um porto alemão. Ele havia aceitado, mas a revolta de Tahrir mudou seu destino.

“Isso não é uma praça, é uma República em si, um espaço desses com os quais se sonha e que as combinações da vida tornam realidade”. Isso é precisamente o que mantém ativos e fraternais os guerreiros de Tahrir: “Salvo algumas pouquíssimas ocasiões, aqui não se permite que os políticos tomem a palavra”, conta Abdel. O que diz está escrito em letras vermelhas sobre as lonas instaladas na parte central da praça: “é proibido lançar proclamações políticas, está proibida e entrada de todos os partidos políticos”.

Neste domingo haverá uma nova manifestação cuja palavra chave é outra lição para as classes políticas do planeta e os movimentos de luta social: “legitimidade revolucionária”. Para os guerreiros de Tahrir, isso significa algo muito profundo: “quer dizer que um movimento popular e nacional é uma expressão de soberania e de legitimidade muito mais válida e transparente que os acertos feitos de costas para o povo entre os militares e os políticos do velho sistema”.

Tahrir se prepara para uma nova jornada revolucionária. Seus defensores acompanham atentos os movimentos da polícia. Movem-se como felinos pacíficos, autênticos guerreiros que protegem sua legitimidade e o território conquistado apesar das feridas, dos golpes, das diferenças entre eles, da ameaça iminente de uma nova barbárie policial.

A sua maneira juvenil e comprometida, os guerreiros sem armas de Tahrir são os guardiões de um sonho universal. Aqui, neste espaço já atingido pela luz da lua se joga uma partida que excede os espaços da praça. Muitas coisas confluem para Midan-Tahrir: estações de metrô, avenidas importantes e a imagem do Egito eterno com o Museu Egípcio repleto das maravilhas mais extraordinárias da civilização dos faraós. Do outro lado, está o passado com o edifício escurecido pelas chamas, a sede do partido de Hosni Mubarak, incendiado em janeiro assim que iniciou a revolta que derrubou o ditador. No centro da praça está o presente e o ainda incerto futuro. A democracia ou a ditadura.

Tradução: Katarina Peixoto

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