Pelo Mundo

Os meios opositores agitam o fantasma da fraude

Diários como El Deber de Santa Cruz de la Sierra, o Página 7, de La Paz, e o Los Tiempos, de Cochabamba, especulam com a ideia de que os governistas impulsarão uma manobra nas eleições deste domingo

20/10/2019 13:18

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
A relação de Evo Morales com a mídia boliviana sempre foi conflitiva. Basta ver o que a maioria dos jornais publica para poder verificar. A construção do discurso sempre tem a ver com a premissa de questionar a legitimidade do presidente que tenta se reeleger por mais um período. Diários como o El Deber, de Santa Cruz da Serra, o Página 7, de La Paz, ou o Los Tiempos, de Cochabamba, especulam com a possibilidade de que o partido governista cometa fraude nas eleições, e que o presidente viole a proibição porque participou de atos de inauguração do governo.
 
Contudo, algumas situações colocam em xeque essa versão: a divulgação de que uma grande delegação de observadores e diplomatas que controlará as eleições é a principal delas.
 
Se Evo triunfar neste domingo (20/10) com uma margem que permita ser o candidato eleito já no primeiro turno, as acusações de uma possível artimanha se esvaziariam como um balão de gás.
 
Claudia Espinoza Iturri foi vice-ministra de Políticas de Comunicação da Bolívia. Hoje ela dirige o canal Abya Yala (“continente americano” na língua Kuna), que pertence à fundação homônima e transmite programas em quíchua, aimará e também em inglês. Questionada sobre a tensão que sempre existiu entre Evo e a mídia, ela disse que “a relação conflitiva que sempre marcou a administração é a que permanece até hoje. Em todos os seus 13 anos de governo, Evo tem tido um relacionamento difícil e complexo, porque aqui não é como em outros países, onde isso pode ser resolvido com a publicidade do governo. Na Bolívia, 90% da mídia está em mãos de empresas privadas, com interesses privados”.
 
O El Deber publicou na quinta-feira (17/10), em sua capa digital: “a oposição pede à OEA (Organização dos Estados Americanos) que garanta a presença de delegados nas mesas de votação”. Na verdade, quem fez o pedido foi somente uma pessoa: Samuel Doria Medina, representante de uma única força política, o partido Unidade Nacional. No texto, se diz que um dos principais medos da oposição é o de uma suposta fraude no interior, onde se encontra uma das bases eleitorais mais fortes de Evo. Doria Medina, que apoia a candidatura do opositor Carlos Mesa, sabia como entrar na mídia. Ele criou um espaço de rádio chamado Projeto Bolívia, o mesmo que em 2012 se juntou à onda de notícias falsas sobre a suposta paternidade de Morales sobre a filha menor de sua ex-ministra do Desenvolvimento Rural, Nemesia Achacollo. Doria Medina teve que se desculpar publicamente quando o fato foi desmentido.
 
As notícias falsas sobre a presidência de Morales, e até mesmo as que descrevem seu mundo particular, são constantes desde que ele chegou ao governo, em 2006. Uma quantidade considerável foi resumida em um caderno do Ministério da Comunicação sob o título: “Existem meios que mentem, enganam e matam a verdade”. Também há artigos do Página 7, El Deber, El Diario, Los Tiempos, El Día e da Agência de Notícias Fides (ANF), ligada à Companhia de Jesus, todos muito críticos de Morales desde 2012. Um desses artigos, de 17 de julho de 2012, afirmou que Morales “confia nas declarações de García Meza e Arce Gómez”. Os citados são dois ex-soldados que lideraram golpes na Bolívia, e já foram condenados e presos, por isso tentaram relacioná-los com o atual presidente.
 
Mesa, candidato da Frente Comunitária, praticou o jornalismo entre 1969 e 1985. Começou na Rádio Universo, onde realizou entrevistas com diferentes ministros. Seu estágio de maior sucesso foi entre 1983 e 1985, quando conduziu o programa “De Perto”, na televisão estatal, que mais tarde passou a ser transmitido em outros canais. Foi uma série de entrevistas em que um de seus convidados habituais era Gonzalo Sánchez de Lozada, quem ele acompanhou na chapa que chegou ao governo em 2002 – depois, ambos renunciariam ao poder durante a crise social, no âmbito da chamada Guerra do Gás. Nos últimos dias, Mesa se mostrou contrariado, como expressou em uma carta pública que publicou no diário estadunidense Financial Times. Nela, o candidato acusa os líderes da sua coalizão de traição, e também questiona Evo.
 
O presidente de maior sucesso na história da Bolívia em questões econômicas é frequentemente questionado por sua legitimidade democrática, desde que perdeu o referendo em 2016, um mecanismo eleitoral que mais tarde considerou “um erro”. Porém, o que é evidente ao chegar a este país é que a mídia desfruta de uma liberdade irrestrita para relatar os fatos do Estado, e até mesmo aqueles relacionados à vida privada do presidente. Na Bolívia, não existe lei de mídia e os direitos de comunicação e informação são protegidos pela constituição do Estado Plurinacional no Capítulo 7, artigos 106 e 107.
 
Para Claudia Espinoza Iturri, essas garantias constitucionais são respeitadas na prática diária do jornalismo: “está totalmente comprovado que não há queixa que possa agrupar a mídia e seus sindicatos. A liberdade é absolutamente irrestrita ”, disse ela. Percebe-se nas manchetes de quase todos os meios de comunicação o que a Constituição observa: “o Estado garante aos trabalhadores da imprensa, liberdade de expressão, direito à comunicação e informação”.
 
O sistema de mídia pública tem um alcance limitado e os canais de TV e rádios geralmente não são oficiais, ou estão longe de ser. É muito provável que essa tendência se aprofundaria se Morales continuar a liderar o governo por mais um período. O presidente parece não se importar. Em 2013, quando o país lançou ao espaço o satélite de comunicação Túpac Katari, com tecnologia chinesa, as informações de satélite começaram a ser transmitidas para todos os cantos da Bolívia. O governo agora está trabalhando em seu segundo satélite, o Túpac Katari II.
 
*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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