Pelo Mundo

Os truques sujos de Trump

Embora os esforços do presidente dos EUA Donald Trump em prejudicar a eleição sejam descarados, ainda são mais sutis do que a manipulação direta da eleição que pode ser vista em lugares como Belaurus. Como outros líderes autoritários, Trump está implementando uma nova política antidemocrática que ainda não foi totalmente compreendida

23/09/2020 15:36

(Chip Somodevilla/Getty Images)

Créditos da foto: (Chip Somodevilla/Getty Images)

 
BERLIM – Com novembro se aproximando, estou ficando cada vez mais nervoso com a eleição presidencial dos EUA. Enquanto meus amigos estadunidenses focam na liderança de Biden em cima do atual presidente Donald Trump nas pesquisas de opinião, acreditando profundamente na capacidade da democracia dos EUA de se auto-renovar, minha própria perspectiva enquanto cidadão britânico e diretor de think-tank me preocupa.

Como britânico, consigo lembrar de ver uma liderança de 20 pontos para o “ficar” se tornar uma vitória do “sair” no referendo do Brexit alguns anos atrás. E como um diretor de think-tank, eu trabalho de perto com acadêmicos que estudam como líderes autoritários manipulam sistemas democráticos para permanecerem no poder, como já aconteceu na Turquia, Rússia, Hungria e Polônia. Na realidade, frequentemente parece que Trump estudou as táticas de outros aspirantes a autoritários mais do que qualquer pessoa. Baseado em conversas recentes com experts em cada um desses países, eu compilei o seguinte catálogo de truques sujos que Trump parece ter pego emprestado.

O primeiro é utilizar a história como arma. Líderes populistas promovem suas plataformas políticas por meio da polarização e da divisão social. Eles não se importam em alienar e insultar alguns eleitores se isso irá energizar sua própria base. Ao se colocarem como campeões da grandeza nacional, eles querem determinar quem é tido como cidadão autêntico e quem não é. Essa prática inevitavelmente enfatiza a história.

Seja o presidente russo Vladimir Putin invocando a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, seja o presidente turco Recep Tayyip Erdo%u01Fan remontando aos anos do Império Otomano, seja o primeiro-ministro britânico Boris Johnson rememorando a Pax Britannica, cada líder avançou com uma narrativa histórica altamente partidária.

Outra abordagem relacionada é o que pode ser chamada de política da pós-verdade. Esses líderes preferem a comunicação direta com eleitores por meio de vídeos profissionais de propaganda e mídias sociais, porque isso permite que consigam descartar fatos inconvenientes salientados por experts. Nesse ecossistema de mídia, a checagem de fatos tem pouco valor, porque as pessoas que precisam escutar não estão ouvindo, ou se recusam a acreditar em qualquer coisa que a mídia “liberal” diga. Em muitas democracias, as fake news são mais comuns a níveis locais, onde operadores políticos preencheram um vácuo deixado pelo declínio de veículos de mídia regionais e tradicionais das cidades.

A terceira tática é disputar contra o próprio governo. Acredita-se que o termo “deep state” foi originado na Turquia nos anos 90, mas agora aparece com frequência no vocabulário de Trump, Orbán, Erdogan, Johnson e do governante efetivo da Polônia, Jaros%u042aw Kaczy%u044ski. Ao culpar sombras desconhecidas, figuras sem rosto por trás das cortinas e cabais sombrios, todos esses líderes têm uma desculpa pronta para todos os seus próprios fracassos.

Um quarto elemento no livro é a dissuasão eleitoral. Como as constantes tentativas de Erdogan de tirar o poder de voto dos eleitores curdos, Trump e o Partido Republicano estão desesperados para acabar com o poder de voto dos afro-americanos. Para um aspirante a autoritário, a necessidade de desequilibrar a balança eleitoral abre as portas para todos os tipos de ataques aos processos democráticos.

Deste modo, antes das eleições gerais da Polônia em maio, o vigente Partido da Lei e da Justiça (PiS) tentou alterar o sistema para votos por correspondência, transferindo efetivamente o controle da eleição das mãos da Comissão Eleitoral Nacional independente para as mãos do serviço postal controlado pelo PiS. Embora esse plano tenha encontrado resistência, mostrou que existem inúmeras maneiras de os autoritários se intrometerem ou subverterem o processo. Não é de se surpreender que a votação por correspondência e a politização do Serviço Postal dos EUA se tornaram grandes problemas na eleição dos EUA, também.

Outra invenção relacionada é a “tecnologia política”, um termo dos truques sujos comumente associdado com a política pós-Soviética. Tais métodos incluem o apoio secreto da Rússia a candidatos de outros partidos como Jill Stein na eleição presidencial de 2016; Kompromat, ou material comprometedor (epitomizado pela investigação por sujeira sobre Biden na Ucrânia); e simplesmente declarar vitória antes dos votos serem contados. No caso dos EUA, se Trump declara vitória antes de todas as cédulas terem chegado, casas legislativas controladas por Republicanos em estados decisivos podem encerrar a contagem mais cedo para garantir o resultado.

Um autoritário em exercício também pode engajar em várias formas de lawfare, usando as forças de segurança ou tribunais complacentes para facilitar gerrymandering, dissuasão de votos, acobertamento de fatos, e outras violações do processo democrático. Aqui, uma das maiores vantagens, é a habilidade de controlar o timing dos acontecimentos ou da divulgação de informações politicamente prejudiciais.

Muitas pessoas ainda acreditam que o anúncio de uma nova investigação sobre Hillary Clinton pelo então diretor do FBI James Comey apenas dias antes da eleição de 2016 desequilibrou o resultado final em favor de Trump. Agora, o departamento de justiça é dirigido pelo advogado geral William Barr, um homem que não tem mostrado nenhum remorso em politizar agências de segurança pública independentes em favor de Trump.

Outra tática autoritária comum é jogar a carta da “lei e da ordem”. Ao caracterizar os protestos do Black Lives Matter como atos urbanos de violência, Trump está retomando a política racial usada pelos presidentes Republicanos anteriores desde Richard Nixon, e também por Erdogan mais recentemente, nos protestos do Gezi Park em 2013.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado