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Os zumbis comeram os cérebros de Bloomberg e Buttigieg?

Democratas, cuidado com os mortos-vivos

19/02/2020 10:39

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Créditos da foto: (Getty Images)

 
MADRID - Estou na Espanha agora, falando sobre ideias zumbi [referência a seu novo livro Arguing with Zombies, ou Discutindo com Zumbis] - ideias que deveriam estar mortas por evidências, mas continuam se arrastando. Nos Estados Unidos modernos, as ideias zumbi mais importantes estão à direita, mantidas imorredouras por muito dinheiro de bilionários que têm interesse financeiro em levar as pessoas a acreditarem em coisas que não são verdadeiras.

Mas, às vezes, as ideias zumbi também conseguem comer o cérebro dos centristas. Certamente, alguns dos zumbis mais destrutivos dos últimos doze anos entraram na luta pelas eleições primárias democratas, onde, agora, alguns centristas estão repetindo ideias que foram completamente desmascaradas anos atrás.

E, por acaso, a experiência da Europa, e da Espanha em particular, fornece algumas das balas que deveríamos usar para atirar na cabeça desses zumbis específicos.

Então, vamos começar com as origens da crise financeira de 2008, um tópico que permanece relevante se quisermos evitar repetir erros do passado.

Embora poucos tenham previsto a chegada do ano de 2008, em retrospecto, foi um pânico bancário clássico, o tipo de coisa que acontecia com frequência antes dos anos 1930. Primeiro, os credores foram apanhados em uma gigantesca bolha imobiliária, então, quando a bolha estourou, grande parte do sistema financeiro congelou.

O que tornou esse pânico possível, depois de duas gerações de relativa calmaria financeira? A resposta, claramente, foi a erosão de uma regulamentação financeira eficaz nas últimas décadas.

Mas os direitistas se recusaram a aceitar o óbvio. Em vez disso, eles propuseram uma narrativa alternativa na qual os progressistas de alguma forma causaram a crise, forçando banqueiros pobres inocentes a emprestar dinheiro a pessoas negras e pardas (geralmente não foram tão explícitos, mas essa era a mensagem clara). Essa narrativa servia a propósitos tão egoísta que é difícil acreditar que alguém a tenha levado a sério, mas algumas pessoas influentes a compraram. E entre essas pessoas estava Michael Bloomberg [bilionário candidato nas primárias democratas à presidência].

No presente momento, as evidências, contra essa história de que a culpa foi dos progressistas, são esmagadoras. O aumento dos empréstimos podres não veio de agências patrocinadas pelo governo nem de bancos regulados, mas de originadores de hipotecas não regulados. As consequências foram tão graves porque os investidores acreditavam, erroneamente, que instrumentos financeiros sofisticados os protegiam do risco.

E, crucialmente, a bolha imobiliária foi um fenômeno internacional: a Espanha teve uma bolha maior do que a nossa, seguida por uma queda pior. Os progressistas dos EUA forçaram os bancos espanhóis a fazer empréstimos ruins?

Mas não se consegue matar ideias zumbi com evidências. Os autores da história de que a culpa foi dos progressistas ainda estão por aí, ainda tendo espaço para espalhar sua desinformação na grande mídia.

Elizabeth Warren argumenta que o apoio de Bloomberg a uma falsa narrativa de direita sobre a crise financeira deve desqualificá-lo para a indicação ao Partido Democrata. Mas eu gostaria de lhe dar um alívio se ele admitir que foi enganado pela desinformação da direita. Se ele não estiver disposto a fazer essa admissão, ela está certa.

Ao mesmo tempo em que Bloomberg está sendo criticado por seu zumbi da bolha imobiliária, Pete Buttigieg está enfrentando críticas justificadas por ter comprado outra ideia de zumbi - a obsessão por dívida do governo. Essa obsessão fez muito para dificultar a recuperação após a crise financeira.

Para ser justo, o pânico do déficit não era uma farsa tão evidente quanto a alegação de que os benfeitores causaram a crise financeira, embora algumas das vozes mais altas que recriminavam os males dos déficits fossem falsas. O que aconteceu foi que muitas pessoas importantes imaginaram que investir contra os perigos da dívida os fazia parecer sérias, porque era isso que todas as outras pessoas sérias estavam fazendo.

Nesse ponto em que nos encontramos, no entanto, a obsessão pela dívida pública já foi completamente desmentida pela pesquisa e pela experiência econômica. Vivemos em um mundo repleto de poupanças privadas procurando um lugar para ir, com investidores dispostos a emprestar dinheiro aos governos a taxas de juros incrivelmente baixas. Na verdade, é irresponsável não investir esse dinheiro no futuro, construindo infraestrutura física e através de programas que ajudem as crianças a desenvolver seu potencial.

Ora, o governo Trump está fazendo errado – tomando emprestado grandes somas, mas desperdiçando o dinheiro em cortes de impostos para as empresas e para os ricos. Mas mesmo os gastos malfeitos a partir de déficits impulsionam a economia em certa medida, e é a razão pela qual os EUA ainda estão crescendo razoavelmente rápido, enquanto a Europa, ainda dominada pela ideologia de austeridade, está estagnada.

Veja: é fácil argumentar que os democratas devem nomear um centrista, em vez de alguém da ala esquerda do partido. Candidatos considerados ideologicamente extremos geralmente pagam uma multa eleitoral. Isso é especialmente verdadeiro se, como Bernie Sanders, eles realmente se mostram mais radicais do que realmente são.

Mas uma parte essencial do apelo ao centrismo é a crença de que os centristas são realistas, que entendem como o mundo funciona. É muito mais difícil defender os centristas que repetem alegações manifestamente falsas, especialmente se essas alegações eram essencialmente propaganda de direita.

Como eu disse, você pode defender a proposição de que os democratas devem, no final, nomear um centrista. Mas um centrista cujo cérebro foi comido por ideias zumbi? Nem tanto.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de César Locatelli



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