Pelo Mundo

País precisa de um modelo econômico mais inclusivo

 

23/10/2019 11:32

 

 
O presidente Piñera entendeu corretamente a necessidade de reforçar a atratividade do Chile aos olhos dos investidores estrangeiros e de ampliar o crescimento da economia. Ele precisa agora mostrar uma sensibilidade semelhante para com os chilenos menos afortunados

Blindados nas ruas de Santiago trazem más lembranças. Tumultos e edifícios em chamas também. A escala e a ferocidade da violência no fim de semana na capital chilena foram as mais graves desde a volta redemocratização, em 1990. O que começou como uma manifestação pacífica alguns dias antes, motivada pelo aumento das tarifas do metrô de Santiago, entrou numa escalada, resultando em atos de violência que incluiu o incêndio da sede de uma empresa de energia e de uma fábrica de roupas, além do de dezenas de estações de metrô, e o saque a supermercados.

A decisão apressada do presidente Sebastián Piñera, na manhã de sábado, de mandar o Exército ocupar as ruas e de instaurar o toque de recolher na capital (depois ampliado para outras cidades) elevou ainda mais a tensão, trazendo de volta ecos indesejados da longa ditadura de Augusto Pinochet.

Piñera acabou recuando da alta de tarifa que gerou os protestos e defendeu um diálogo nacional para atender às demandas dos manifestantes. Mas o inábil tratamento inicial dado à convulsão social e a retórica agressiva do presidente comprometem o êxito do diálogo.

Em especial, a sua caracterização da situação no domingo como sendo uma “guerra contra um inimigo poderoso e implacável” pareceu calculada para inflamar os ânimos, em vez de apaziguá-los. É decepcionante que Piñera aparentemente não tenha aprendido as lições deixadas pelos protestos estudantis de 2011-12, que prejudicaram seu primeiro mandato.

A repentina irrupção, no fim de semana, de protestos violentos no Chile pode parecer surpreendente. O país vem sistematicamente superando em desempenho seus vizinhos latino-americanos nos últimos 30 anos, graças a políticas macroeconômicas saudáveis que, em boa parte, evitaram a incidência dos prejudiciais ciclos de surto de crescimento e colapso vividos pelos vizinhos. Neste ano, graças em parte às políticas pró-investimento de Piñera, o Chile deverá crescer entre 2% e 3%, o que está longe de ser uma expansão espetacular, mas é consideravelmente superior à de Brasil, Argentina ou México.

A desigualdade de renda é uma antiga marca do Chile. Mas dados do Banco Mundial mostram que Brasil, Colômbia e México são sociedades mais injustas; entre as maiores economias da região, só as de Argentina e Peru apresentam maior grau de igualdade.

A diferença parece ser que o padrão de vida mais elevado do Chile e sua frequentemente reafirmada aspiração de ingressar no mundo desenvolvido criaram maiores expectativas. O país agora almeja ser comparado a seus pares da OCDE, e não aos latino-americanos. Por esse parâmetro, ainda há muito a fazer para melhorar a educação, garantir serviços públicos a preços justos, melhores aposentadorias e empregos de melhor qualidade.

Por enquanto, a prioridade em Santiago tem de ser pôr fim à violência e acalmar os ânimos antes que um maior número de vidas seja sacrificado. Para que isso aconteça, os manifestantes têm de acreditar que a proposta do governo de abrir diálogo é sincera e que levará a mudanças de políticas que atendam às preocupações legítimas sobre a persistência da desigualdade, o elevado custo de vida e o alto índice de desemprego dos jovens.

Pode haver aí lições a serem aprendidas com a maneira pela qual o presidente da França, Emmanuel Macron, acabou administrando as manifestações dos coletes-amarelos.

Piñera entendeu corretamente a necessidade de reforçar a atratividade do Chile aos olhos dos investidores estrangeiros e de ampliar o crescimento da economia após o período de estagnação registrado no governo de sua antecessora, a socialista Michelle Bachelet. Para que a tão arduamente conquistada estabilidade experimentada pelo país seja preservada, ele deveria mostrar agora uma sensibilidade semelhante para com os chilenos menos afortunados. O presidente bilionário disse ao “Financial Times” neste mês que seu país precisa de um modelo de crescimento mais inclusivo. Ele precisa agora praticar o que prega.

*Publicado originalmente no Valor Econômico



Conteúdo Relacionado